café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

"Ainda creio no projeto de viver de literatura"

Morador do Engenho de Dentro, subúrbio carioca, Marcelo Maldonado fala sobre seu trabalho literário, escrita criativa, formação acadêmica, música e livros. Indica autores da literatura LGBT e reafirma seu projeto de viver de sua arte.


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Em tempo de pandemia, nos adaptamos. Começamos este projeto de entrevistas com escritoras e escritores que não abandonam as trincheiras literárias, independente das dificuldades do mercado. São mulheres e homens que, geralmente, têm pouco espaço na grande mídia, mesmo tendo uma produção textual de alta qualidade, na prosa e/ou na poesia.

Nesse sentido, nosso CAFÉ PÓS-MODERNO abre seu espaço para essas vozes, entendendo que a força do portal Obvious (com mais de 1 milhão de seguidorxs no facebook e uma poderosa newsletter com dezena de milhares de e-mails cadastrados) deve ser posta a serviço da literatura brasileira contemporânea.

Desta vez, nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe o escritor Marcelo Maldonado que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Sempre que me fazem essa pergunta, conto a seguinte história: em frente à casa onde nasci, no subúrbio do Rio, morava uma senhora cujo filho havia sido amigo de infância do meu pai. Tive a sorte de viver uma época em que ainda havia liberdade, em que as crianças brincavam na rua, os portões dormiam destrancados e a vizinhança era composta praticamente por pessoas que se conheciam e conviviam umas com as outras há gerações. Pois essa senhora era uma espécie de segunda avó para mim e eu passava muito tempo com ela. Acontece que ela tinha uma biblioteca formada por obras adquiridas pelo marido, já falecido, entre elas uma coleção completa dos clássicos da editora Saraiva, série dos anos 1940, 1950. Um desses livros, A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiroz, me fascinou não apenas pelo título, mas pela ilustração de capa: a torre de pedra de um castelo decadente erguia-se por entre uma vegetação espessa. Aquilo ficou na minha mente. Era época de férias, eu devia ter uns 8 anos e tratei de pegar um dos cadernos do ano letivo recém-terminado para rascunhar, nas últimas páginas em branco, uma versão particular da história dessa casa e de seu proprietário. O resultado foi um melodrama sem pé nem cabeça, em que, no fim, o tal Ramires morria e os habitantes da casa, inconsoláveis, assistiam à queima (não me peça para explicar o porquê) da sua preciosa biblioteca. Essa foi minha primeira incursão ao mundo da escrita. Depois disso, não parei mais de rascunhar.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Eu fico com a máxima de Thomas Edison, aquela do “1% de inspiração e 99% de transpiração”. No caso da literatura, a transpiração se divide entre ler muito e escrever outro tanto. A inspiração, por sua vez, vem da vida, via fontes diversas: de experiências compartilhadas, daquilo que vejo e/ou leio nos noticiários, de acontecimentos e fatos vividos por mim ou por outras pessoas... tudo isso filtrado por um método de invenção. No primeiro volume de A preparação do romance, curso que organizou no Collège de France, Roland Barthes diz que aquele que deseja escrever recolhe impressões da vida cotidiana em fragmentos que são desenvolvidos criativamente, a posteriori, de acordo com determinados critérios. Não à toa, deu a esse livro o título de Da vida à obra. Via de regra, meu processo criativo se dá de maneira semelhante: vou anotando ideias, temas que gostaria de desenvolver, esboços de tramas, perfis de personagens, cenas que visualizo, trechos de possíveis diálogos etc. Em dado momento, ao olhar para o conjunto dessas anotações ou mesmo para uma parte delas, sinto que ali existe algo que reclama uma organização sistemática. Então, começo a dar um molde a esse bloco de informações aparentemente dispersas. Em meio a tudo isso, a leitura é primordial porque amplia meu repertório, tanto literário quanto de conhecimento de mundo, e me sugere caminhos a seguir ou soluções a serem testadas no meu próprio processo de escrita.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita? Prosa e/ou poesia:

Tantos! Mas acho que o grande clássico é aquele que é considerado o primeiro grande romance moderno: Dom Quixote. Em relação à minha escrita, a primeira grande influência foi Clarice Lispector. Com ela descobri, lá pelos 16, 17 anos, a canalizar essa voz interior que nos acompanha e a explorar suas potencialidades dramáticas, ficcionais.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica?

Apesar de ler muito, confesso que, até começar o curso de mestrado em Escrita Criativa e passar a conviver quase que diariamente com muitos colegas escritores, tinha pouco contato com os representantes da cena literária recente. A partir de então, passei a ler os contemporâneos – não apenas os novos, mas os que tinham carreiras já consolidadas e seguiam publicando – com atenção e enfoque diferentes. Como me interesso muito pela escrita relacionada à temática LGBT, gostei demais dos contos da Natália Borges Polesso (Amora) e do Tobias Carvalho (As coisas), que recomendo. Faço uma menção em caráter especial a Victor Heringer (O amor dos homens avulsos, romance), que tão precoce e abruptamente nos deixou órfãos do seu talento, em 2018.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Por conta do meu trabalho de pesquisa acadêmica, sempre leio duas obras ao mesmo tempo: uma de cunho técnico/teórico e outra de caráter literário, poético ou ficcional. No momento estou lendo Análise estrutural da narrativa, uma seleção de ensaios de teóricos como Gérard Genette, Tzvetan Todorov, Roland Barthes, A. J. Greimas, Umberto Eco, entre outros, publicados na revista “Communications”, e O templo, de Stephen Spender, poeta, romancista e ensaísta inglês, que retrata a ascensão do nazismo pelos olhos de jovens artistas gays na Alemanha, à época da República de Weimar.

6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Publiquei um volume de poesias intitulado “Comunhão do silêncio”, em 1997, que saiu em pequena tiragem pela Faculdade de Letras da UFRJ, como prêmio num concurso, ainda na época de graduação, e meu romance de estreia, “Aquele abraço”, em 2017, de forma independente. Muita coisa mudou nesses 20 anos que separam uma publicação da outra. A influência da Internet nos hábitos de leitura, produção e circulação de textos foi avassaladora, inaugurando um cenário que naturalmente se caracteriza por pontos positivos e negativos. Se, por um lado, o número de leitores e, sobretudo, de aspirantes a escritores multiplicou-se exponencialmente, por outro, a qualidade técnica da expressiva maioria dessa produção deixa muito a desejar. A reboque, a crítica que se faz ao que é produzido também segue os mesmos parâmetros de pouca especialização. Tem-se a impressão de que se lê (e publica-se) mais e, paradoxalmente, pior. Por sua vez, o mercado editorial teve de se reinventar para driblar as recorrentes crises que o afetam e manter-se em atividade, gerando empregos e lucros. Nessa batalha, assistimos à gradual diminuição do poder dos conglomerados editoriais, à queda vertiginosa do número de edições e exemplares por tiragem e ao aumento das dificuldades do autor estreante em busca de um editor para seu trabalho, em virtude da aposta em material de grande apelo comercial. Para esse autor, duas possíveis alternativas: a inscrição da obra inédita em editais de concursos literários (cujos prêmios não raro contemplam a edição do livro) e a autopublicação. Esta última acabou por ser a única saída encontrada por muitos dos que esperam meses por uma resposta (que nunca chega) das editoras à apresentação de um original. Em contrapartida a esse abismo entre autores e editoras, muitos profissionais da área se aventuraram a fundar pequenos selos especializados em determinados nichos temáticos, enquanto escritores uniram-se para criar coletivos literários, principalmente nas áreas ditas de periferia. Grupos como os das Escritoras da Baixada Fluminense, Mulheres Reais, Sarau Elo da Corrente, entre tantos outros, encontraram, na força de um regime de cooperativa, um meio de dar vez e voz às produções artísticas de seus integrantes. Apesar de todos esses esforços, acredito que publicar ainda requer um investimento cujos custos podem significar a inviabilização de projetos relevantes.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Por “Aquele abraço”, romance que conta a história da amizade e do envolvimento afetivo entre dois alunos do Colégio Militar, nos anos 1980.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Cada um desses gêneros tem suas próprias especificidades e, consequentemente, seu lugar na minha rotina de leitura e trabalho. Ultimamente tenho me voltado mais para a prosa e em especial para o romance, já que tem sido objeto de minhas pesquisas acadêmicas. Mas, em geral, treino a escrita em diversos níveis. A poesia me dá um senso de concisão, de concentração, uma vez que a imagem poética condensa em si, muitas vezes numa só palavra ou expressão, diversas camadas de significado que expandem as possibilidades de interpretação e fruição estética. A poesia que escrevo, em tese, é assim: poemas curtos, de versos igualmente breves, quase como haicais, de modo a tentar captar nas palavras sonoridades e sentidos expressivos. Com relação ao conto, é um gênero que gosto muito de ler, mas ao qual pouco me dediquei, salvo duas ou três tentativas publicadas em coletâneas.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive? Fale-nos um pouco sobre sua história de vida, formação etc.

Como já disse, sou carioca, nascido e criado em Piedade e atualmente morador do Engenho de Dentro. Graduei-me em Letras (Português-Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1997. Quando tudo parecia se encaminhar para uma carreira na área acadêmica, comecei a trabalhar como pesquisador para projetos de memória, na área musical. De pesquisador, virei produtor e, entre outros trabalhos, estive à frente da programação da Sala Funarte Sidney Miller, de 2001 a 2002, e também das caravanas musicais do Projeto Pixinguinha, entre 2004 e 2006. Minha experiência na área musical me levou à produção teatral na Companhia Ensaio Aberto, de Luiz Fernando Lobo, onde participei dos espetáculos Havana Café e Missa dos Quilombos, e, posteriormente, à atividade comercial no setor de iluminação cênica. O interesse pela escrita, porém, manteve-se sempre no meu horizonte de perspectiva, o que me levou ao curso de Roteiro Cinematográfico na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/Instituto Brasileiro de Audiovisual (ECDR/IBAV), concluído em 2007, e à seleção para o curso de mestrado em Escrita Criativa, em 2015, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Minha dissertação, orientada pelo Prof. e romancista Luiz Antonio de Assis Brasil (idealizador da mais antiga oficina de criação literária em atividade do país), consistiu na escritura do roteiro de um longa-metragem e na análise de seu processo de criação. Voltei ao Rio em 2017, onde lancei meu primeiro romance e onde, no ano seguinte, retornei à UFRJ para cursar o doutorado em Literatura Brasileira. Ainda creio no projeto de viver de literatura, seja escrevendo, editando, traduzindo, revisando, adaptando ou lecionando.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política? Você prefere falar apenas de literatura ou engaja-se em causas sociais?

Não sei se compro essa coisa de “arte pela arte” sem que isso me soe a qualquer tipo de alienação, o que, para mim, é impossível em se tratando de arte. Historicamente, o componente político faz parte do cerne daquilo que veio a ser entendido como literatura. Basta pensar nas tragédias gregas, nas funções que desempenhavam na sociedade da época, entre elas a de caráter educativo do homem da pólis, isto é, do cidadão. Em alguma medida, toda obra dialoga com o contexto sociopolítico no qual foi concebida e pelo qual será, por assim dizer, consumida. No entanto, ao vincular-se de maneira incisiva a uma certa programação ideológica e/ou partidária ou atender a determinada pauta de engajamento social, corre o risco de assumir um caráter francamente panfletário e de não resistir à prova do tempo. Particularmente, não acho que isso signifique uma “escolha de Sofia” e, entre um extremo e o outro, há uma infinidade de modos de engajamento aos quais se pode aderir sem que a literariedade da obra seja comprometida, sob qualquer aspecto.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Quando cursava o mestrado em Escrita Criativa, na PUCRS, me inscrevi numa disciplina intitulada “Teorias para Criação de Texto Infantil e Juvenil”. Foi quando decidi desengavetar e mostrar ao professor os primeiros capítulos de um projeto iniciado mais de uma década antes, mas que, por diversos fatores, entre eles a insegurança, eu havia praticamente abandonado. A recepção foi tão positiva que me encorajou a retomar o trabalho, resultando no meu romance de estreia. Acho que foi aí que, finalmente, comecei a acreditar em mim como escritor.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Na verdade, são duas: “Qual é a importância da criatividade (e, consequentemente, do escritor) no ambiente acadêmico? Existe lugar para a figura do pesquisador-escritor ou escritor-pesquisador”? Estas talvez sejam, atualmente, as questões que mais me motivam a encontrar respostas no âmago do meu próprio trabalho. Há muito tempo presencio um fenômeno que muito me incomoda e desconsola: alunos de Letras que passam os quatro anos de curso com uma espécie de síndrome do pânico, simplesmente porque não dão conta da análise de textos literários. Era assim há 25 anos e não mudou quase nada, apesar de toda a tecnologia e o acesso a informação disponíveis nos dias de hoje. Mesmo quando conseguem romper as dificuldades iniciais dessa tarefa, os resultados quase sempre refletem interpretações superficiais, repletas de lugares-comuns. Ensinos básico e médio deficientes, cultura geral limitada e uma quase que total falta de incentivo à leitura são alguns dos fatores que se encontram na raiz deste problema, sabemos bem. No entanto, o modo como o tema é tratado em sala de aula também contribui para que esse abismo subsista. Como fazer para estreitá-lo? Minha experiência com o curso de mestrado na PUCRS me faz acreditar que esta seja a função (e, portanto, o lugar) da criatividade (e do escritor) na via acadêmica. O que quero dizer é que a incorporação dos princípios da Escrita Criativa ao cotidiano de um curso de graduação em Letras pode fornecer ao estudante ferramentas que o auxiliem a entender a carpintaria literária do ponto de vista do artesão, daquele que trava com as palavras a luta vã de que falou Drummond. E, assim, quem sabe, o aluno possa participar dos dois lados desse espetáculo: como espectador/leitor e como ator/escritor. Isso sem dúvida transformaria sua concepção do que é e para o que serve a literatura, aproximando-o de uma experiência total, se é que se pode assim dizer, com o texto.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Estou trabalhando simultaneamente em dois romances (um deles o meu projeto de tese de doutorado), nenhum para este ano, infelizmente.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

Vou deixar um poema, inédito, a ser possivelmente publicado num livro que, por enquanto, ainda é só ideia.

(do perdão)

relevar

é velar

a raiva

que nos

vigia

é sangrar

à revelia

pelo que

se revela e

se esvazia

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Onde encontrar Marcelo Maldonado?

HP: https://maldonadomm1.wixsite.com/marcelomaldonado

Facebook: https://www.facebook.com/aqueleabraco17/

Instagram: https://www.instagram.com/maldonado.mm/?hl=pt-br

E-mail: [email protected]

Como comprar o livro?

Mande mensagem inbox através do Facebook do livro: https://www.facebook.com/aqueleabraco17/ ou pelo e-mail [email protected]

CRÉDITOS DAS FOTOS:

Foto 1: Andrea Nestrea

Foto 2: Acervo do autor

Foto 3: Marco Rocha

Foto 4: Mônica Nobre

Foto 5: O Globo – Caderno Tijuca – 23/11/2017


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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