café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

"As opressões me machucam", diz a escritora Maria Amélia Elói

Os prêmios Nestlé/MEC de Ensaios e Literatura para Todos do MEC já reconheceram o talento da escritora Maria Amélia Elói. Casada com o ilustrador e artista plástico André Cerino, ela prepara novos livros e mantém um belo canal no YouTube chamado "Turma do Caracol". Conheça um pouco mais sobre esta mulher socialmente engajada e muito criativa.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe hoje Maria Amélia Elói, que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Sou filha de professores, e eles sempre me incentivaram a ler e escrever. Tínhamos um bom acervo de livros infantojuvenis (Meu pé de laranja lima, Pollyanna, O menino do dedo verde, O pequeno príncipe, O estudante, A droga da obediência, entre outros, e aqueles das séries Vaga-Lume e Para gostar de ler, da Editora Ática), que eu adorava. Tínhamos também o disco com os poemas musicados da Arca de Noé, do Vinicius de Moraes, que eu escutava, sempre atenta às letras.

As últimas séries do meu 1° Grau — que correspondem ao 8° e 9º Anos do Ensino Fundamental de hoje — foram muito inspiradoras. Eu estudava num colégio público perto da minha casa, em Taguatinga, DF, e tinha uma professora que sempre pedia para os alunos lerem em voz alta, diante de toda a turma, as redações que haviam escrito. Eu me esforçava para não fazer feio e geralmente tirava nota máxima em Português. Lembro que eu era péssima aluna em Educação Física, e o professor sempre implicava comigo. Aí uma vez, numa reunião de professores, essa minha professora de Português leu para os colegas de trabalho um poema que eu havia escrito em defesa dos direitos dos professores grevistas. Era todo rimado e grandiloquente, com tom panfletário. A partir desse dia, o professor de Educação Física passou a respeitar minhas limitações como atleta e elogiar minhas competências linguísticas, como quem dissesse: “Coitada, não sabe jogar vôlei, mas até que escreve direitinho”.

Nessa época, eu já escrevia poemas e pequenas crônicas em folhas avulsas e agendas. Nunca mais parei. Por muito tempo, escrevi o jornalzinho da igreja, ajudei amigos nas dissertações do 2º Grau (Ensino Médio), redigi cartas, poemas, mensagens e discursos para homenagear gente querida.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Acredito que seja uma mistura de inspiração e transpiração, em porcentagens nada mensuráveis e num processo difícil de compreender.

A primeira ideia para um conto geralmente me vem como um sopro, como algo muito fácil e espontâneo. Mas, a partir desse primeiro lampejo, preciso pelejar muito para que o texto ganhe forma. Até que eu me satisfaça com ele e o tome como pronto, vai muito trabalho!

Quando participo de desafios e concursos literários ou de oficinas de escrita, por exemplo, me sinto impelida a produzir com qualidade e dentro do prazo. Às vezes os estímulos são externos, às vezes internos.

A autocrítica só funciona se eu já tiver um mínimo de bagagem de leitura de bons escritores, né? Às vezes me desespero e penso que li tão pouco ainda, que vivi tão poucas aventuras na vida, que sei tão pouco, mas essa própria consciência da falta de plenitude e da necessidade de ser melhor me leva a fazer literatura. E isso parece me confortar. Eu procuro sempre me aperfeiçoar como leitora, como revisora, como escritora, como cidadã. Cursei Letras e Jornalismo, estudei um pouco de Inglês e Francês, estudo piano clássico (a música é muito importante para o ritmo do texto), fiz um mestrado em Teoria da Literatura, participo de seminários e cursos ligados à arte literária, estou fazendo uma oficina muito legal de escrita criativa com o professor Jéferson Assumção, participo de clubes de leitura, de encontros com autores, participo dos coletivos Mulherio das Letras e Instituto Casa de Autores. Acompanho entrevistas, programas, lives, revistas e livros que tratam do processo criativo, converso sobre literatura com amigos que leem e escrevem...

Sei que o estilo literário, os personagens, os diálogos, as vozes narrativas, as verdades mais puras e autênticas... nada disso ainda está pronto nem consolidado no meu texto. Ainda não tenho uma obra coesa e forte. Ainda não alcancei uma unidade nem uma maturidade textual satisfatórias, que me diferenciem. Invejo os escritores que já chegaram a esse nível de superioridade. Mas, cá do meu jeito humilde, tenho um projeto de escrever cada vez mais e cada vez melhor, e sei que isso não virá de graça. Tenho de ler e estudar mais e mais, sorver as palavras certas, fazer a leitura atenta da literatura e do dia a dia, tenho de aprender com os bons mestres, entender melhor as pessoas e a sociedade, tenho de aperfeiçoar minha narrativa e até minha vida. Preciso beber de muitas fontes e também deixar fluir minha imaginação, liberar minha criatividade, minha forma própria de escrever. Sou dotada não de um grande dom para a escrita, mas de muita paixão pela língua portuguesa e pela literatura. Quero persistir.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

É muito difícil, porque sou bem volúvel nesse sentido. Geralmente estou apaixonada pelo livro que estou lendo ou que acabei de ler. Outro problema é que tenho a memória fraca. Esqueço muito rapidamente os detalhes das obras. Às vezes sei que um título X me impactou profundamente quando o li, há alguns anos, mas preciso relê-lo em outro momento para me lembrar por que ele me impressionou tanto. Vou citar apenas alguns “clássicos”: Morte e vida severina (João Cabral de Melo Neto), Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector), O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Márquez), Uma vida em segredo (Autran Dourado), Senhora (José de Alencar), O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Dom Casmurro (Machado de Assis), Homem comum (Philiph Roth), Os amores difíceis (Ítalo Calvino), Ensaio sobre a cegueira (José Saramago), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), A alma encantadora das ruas (João do Rio) e A máquina parou (E.M. Forster), entre outros.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Li nestes últimos anos, amei e recomendo fortemente: Fique comigo (Ayobami Adebayo), A gorda (Isabela Figueiredo), O irmão alemão (Chico Buarque), O peso do pássaro morto (Aline Bei), Mulheres empilhadas (Patrícia Melo), Rio Paris Rio (Luciana Hidalgo), Por cima do mar (Déborah Dornellas), O indizível sentido do amor (Rosângela Vieira Rocha), Terra sonâmbula (Mia Couto), A louca da casa (Rosa Montero), Enclausurado (Ian McEwan), Ainda estou aqui (Marcelo Rubens Paiva), A oração do carrasco (Itamar Vieira Júnior), O negociante de inícios de romance (Matéi Visniec), Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino), Cordilheira (Daniel Galera), Allegro ma non tropo (Paulliny Gualberto Tort), Larva (Verena Cavalcante), Mulheres que mordem (Beatriz Leal), Desesterro (Sheyla Smanioto), Crônicas pra ler em qualquer lugar (Gregorio Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá), O voo da guará vermelha (Maria Valéria Rezende), Tudo que morde pede socorro (Cinthia Kriemler), Sinfonia em branco (Adriana Lisboa), Azul-planalto: haicais candangos (Luiz Antônio Gusmão), Velas na tapera (Carlos Correia Santos), Quarto (Emma Donoghue), Cantigas de ninar dragões (Rogério Bernardes), À cidade (Mailson Furtado), e A falta que você me faz (Joyce Carol Oates), entre outros.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Todos os nossos ontens, romance da Natalia Ginzburg; Olhos d’água, contos da Conceição Evaristo; Para ler como um escritor, de Francine Prose; e Sem trama e sem final, 99 conselhos de escrita, de Anton Tchékhov.

6- O que você já publicou até aqui?

Um milagre para cada corcova (crônicas, Editora Penalux). Também participo da coletânea de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux) e de várias antologias do coletivo Mulherio das Letras, entre outras.

Minha dissertação de mestrado, "Ideias a Mais!: a crítica literária no JB e na Folha de S.Paulo no ano 2000", foi adaptada e premiada no Prêmio Nestlé/MEC de Ensaios.

Fui premiada, em 2009, na terceira edição do concurso Literatura para Todos do MEC, com o livro de poemas Poesia torta. Conforme o edital, as obras selecionadas seriam impressas e distribuídas para milhares de alunos com mais de 15 anos e adultos recém-alfabetizados; mas, infelizmente, a cláusula não foi cumprida e o MEC não chegou a publicar esse livro.

O catálogo As Mensageiras – Primeiras escritoras brasileiras [leia aqui], que elaborei para exposição histórica de mesmo nome, na Câmara dos Deputados, em 2018, também me deu grande alegria.

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Publico mensalmente na revista literária Samizdat (revistasamizdat.com) e às vezes em outras revistas eletrônicas como a Ruído Manifesto e a Revista Ser MulherArte.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Pelos textos que tenho publicado na revista eletrônica Samizdat. Geralmente me autopublico nesse espaço literário no dia 26 de cada mês.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Ultimamente tenho lido e escrito mais prosa que poesia. Mas há tanta beleza na literatura, né? Pra que preferir só uma coisa, sem direito a hibridismo? Principalmente hoje em dia, quando está tudo tão misturado, vale a pena conhecer de um tudo. Não é preciso colocar rótulos ou barreiras nem há necessidade de dar nome para o gênero que se lê ou que se escreve. Há tanta novidade e experimentação, tanta gente boa criando maravilhas, inclusive experiências multimídias. Adoro ler e fazer prosa poética, poesia prosaica. Sendo bem feito, tudo merece ser degustado (conto, crônica, reportagem jornalística, novela, romance, poema, biografia, carta, filme, peça de teatro...).

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Há 15 anos, sou servidora da Câmara dos Deputados. Atualmente trabalho em projetos culturais (Encontro com o Autor, Clube de Leitura, revisão e redação de catálogos de exposições artísticas, curadoria de exposições históricas, organização de livros, dicas culturais na Rádio Câmara, etc.). Também faço edição e revisão de textos para a editora Ninho da Palavra, redijo roteiros de gibis e cartilhas.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

O momento sociopolítico é tão inacreditavelmente vergonhoso, que a gente não consegue se isentar. Não dá para simplesmente viver nas nuvens ou encastelada, ignorando os absurdos do Brasil. Quanto mais a gente enxerga injustiças, retrocessos, desigualdades, feiuras e absurdos, mais a gente se envolve em causas importantes, como o feminismo e o antirracismo.

Sinto-me uma mulher privilegiada, pois nunca passei fome, tenho um emprego, tenho uma família amorosa, um casamento feliz, filhas saudáveis, vivo em contato com a arte e não experimentei grandes sofrimentos. Mas sou sensível à dor dos outros. As opressões me machucam também, e os oprimidos me pedem alguma reação. Então, nos meus personagens e nas minhas narrativas, tenho buscado chamar a atenção para problemas como o machismo, o consumismo, o racismo, o subemprego, a violência, a falta de educação, a miséria, o desamor, a negligência para com as crianças... Ando bem pessimista diante da realidade, mas geralmente tento imprimir nos meus textos alguma esperança, uma pincelada de gentileza, a possibilidade de um futuro melhor. Na verdade, eu queria mesmo era ter o poder de salvar essas pessoas da carência e da tristeza não só na ficção, mas principalmente na realidade.

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor(a)”.

Já senti e deixei de sentir isso várias vezes. Geralmente me sinto só uma insegura candidata a escritora, mas de vez em quando acontece de eu me sentir uma escritora de verdade. Ser premiada, ser publicada, ser lida, ser elogiada... Isso é fundamental para mim. Eu não queria ser assim, mas acho que sou movida a comentários, atenção, críticas. Uma escritora dependente de algum tipo de aceitação.

Ah, sim, noutro dia, quando o clube de leitura Lendo Contos, da TAG Águas Claras, leu e debateu meu conto “As duas irmãs”, da coletânea Novena para pecar em paz, eu me senti escritora de verdade. E quando o Marcio Sales Saraiva me convidou para esta entrevista no Café Pós-Moderno, também pensei: “Não sei se sou, mas pelo menos devo estar parecendo escritora”.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Ah, só queria orgulhosamente contar que participo, com a minha família, de um projeto de musicalização infantil chamado Turma do Caracol. Lançamos um livro-CD ilustrado, com as letras de 24 canções inéditas cifradas, temos várias outras músicas gravadas, um site e um canal no YouTube [clique aqui] com clipes musicais animados e historinhas.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Estou lançando, até setembro de 2020, o meu primeiro livro infantil, Primeira formatura (Editora Ninho da Palavra), lindamente ilustrado pelo artista plástico e marido André Cerino. Estão em fase de edição o meu primeiro livro de contos, Sem cabimento, e o meu segundo livro infantil, Certa lavra de palavras. Comecei a rascunhar os primeiros contos para um futuro livro destinado a adolescentes.

Pela Edições Câmara, estou organizando uma antologia sobre a vida e obra das maiores escritoras brasileiras. E também na Câmara dos Deputados, pelo Centro Cultural, estou envolvida em atividades culturais interessantes (exposição, catálogo, postais...) em razão do centenário de Clarice Lispector e do centenário de João Cabral de Melo Neto.

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Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Trecho do conto “As duas irmãs”, da antologia Novena para pecar em paz (Editora Penalux):

“Renata tem 11 prontos; Ritinha, quase 10. O pai foi embora quando ainda usavam fralda. Não me espere, Leonora; eu não volto nem por decreto. Não adianta exigir pensão ou troco, porque você nunca mais vai ver o meu cheiro.

A mulher chorou um pouco, mais de fome que de saudade, mais de despeito que de paixão, mais de raiva que de amor; e não desistiu das meninas. Elas sempre foram minhas. É claro que dou conta. E honrou toda a coragem e responsabilidade que herdou da mãe, das primas, das tias, da avó, das tias-avós. Aquelas Oliveiras não envergavam pra caroço nenhum. Os homens saíam de casa; e elas iam adiante, decididas a não morrer, sangrando e lançando flor.

O dia em que o recenseador bateu à porta de Leonora com o questionário, pouco tempo depois do descasamento, ela até que se orgulhou da própria situação. Lamentar é pra gente murcha. Esse negócio de vítima não é comigo. Minha única doença é ser mulher, mas não quero cura.”

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Onde encontrar Maria Amélia Elói?

No facebook e no instagram: Maria Amélia Elói

E-mail pessoal: [email protected]

Livro “Um milagre para cada corcova”, à venda pelo site da Editora Penalux.

Livro “Primeira formatura’, à venda pelo site da editora Ninho da Palavra ([email protected])


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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