café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

"Tenho fascinação por Dalton Trevisan", diz o contista Mário Sérgio Baggio

Contista e poeta, Mário Sérgio Baggio diz que "não dá para dissociar arte de política. Toda arte é política". E assume sua paixão pelo trabalho do contista Dalton Trevisan. Veja na entrevista recebida em junho de 2020.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe o escritor Mário Sérgio Baggio que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei, meio de brincadeira, quando fazia o curso de Jornalismo, nos anos 80, incentivado pela professora de Literatura. Ela notou minha facilidade para contar histórias e me estimulava com leituras, indicação de filmes e peças de teatro. Depois de um período de quase nada escrever, comecei a produzir de novo com as redes sociais. Vi ali um espaço a explorar. Pouco tempo depois criei meu blog e logo em seguida publiquei meu primeiro livro. Nunca mais parei. Hoje, que já não tenho compromissos profissionais, me dedico 100% à literatura. Publiquei três livros de contos e logo virá o quarto e o primeiro de poesia.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Eu acho que é uma combinação de tudo isso. Acredito que a pessoa já nasça com uma predisposição para escrever, para ler, para gostar de estar em contato com as letras, para conhecer livros e escritores. Eu, para falar por mim, nunca gostei de futebol, por exemplo, ao contrário de meu irmão mais velho, que é fanático por esse esporte. Desde criança eu sempre fui mais introspectivo, sempre gostei de estar com um livro na mão. Então eu acredito nessa predisposição, mas ela não seria nada sem o exercício constante da leitura. Quem escreve deve, necessariamente, ser um leitor contumaz. Não há outro jeito, a menos que a pessoa não queira se destacar ou produzir com qualidade. Então, ler é regra absoluta. O ato de escrever, num cenário de leitura, aparece como consequência. Aquele que lê, e admira aquilo que lê, sente uma espécie de compulsão para fazer igual, ou parecido, àquilo que está lendo. Eu quero escrever como os escritores que admiro, então eu vou ler esses escritores à exaustão, vou estudá-los, aprender com eles. Aí entra a transpiração, isto é, o trabalho, a dedicação, a assiduidade, as horas de estudo etc. O conteúdo do que escrevo vem da minha cabeça, das coisas que observo na vida, mas a forma certamente vem do que leio e estudo dos escritores que admiro, do que apreendo com eles.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita? Prosa e/ou poesia:

Adotei o conto como gênero literário predileto. Adoro os contistas. Tenho fascinação por Dalton Trevisan, o grande contista brasileiro. Eu leio e releio seus livros, que para mim são manuais de como escrever de maneira interessante, moderna, sedutora, arrebatadora. Há outros contistas que também leio sempre, porque são geniais: Rubem Fonseca, Ivan Ângelo, Luiz Vilela, Oswaldo França Júnior, Sérgio Sant’Anna, Caio Fernando Abreu, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luiz Borges, o espanhol Fernando Aramburu, a canadense Alice Munro. Esses são alguns dos contemporâneos que admiro. E tem os escritores de outros gêneros também, como Machado de Assis, Dostoievski, Juan Rulfo, Garcia Marques, Vargas Llosa, Camus, Guimarães Rosa, Josué Guimarães, Carlos Drummond de Andrade, Assis Brasil, Samuel Beckett, Philip Roth, Silvina Ocampo, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Autran Dourado, Pablo Neruda, Mia Couto e uma infinidade de outros.

No que se refere a influências, não pestanejo para citar Dalton Trevisan. Eu acho admirável a capacidade dele de definir, com uma única palavra ou com pouquíssimas palavras, toda uma situação, toda uma circunstância, todo um clima, toda uma personalidade. Ele escreve, por exemplo: “Cofiou o bigode. Unha compridinha do mindinho”. Aí está uma personagem, se não inteira, pelo menos um perfil, e ele fez isso com seis ou sete palavras. É admirável! Suas frases curtas, seus parágrafos enxutos, tudo isso é uma lição para mim. E eu procuro imitar.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica?

Admiro e indico Cinthia Kriemler, a contista Alê Motta, Maya Falks, Chico Lopes, Sandra Godinho, Laurentino Gomes, Deborah Dornellas, Itamar Vieira Júnior e muitos outros.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“Estados alucinatórios”, livro de contos do mineiro Eduardo Sabino.

6- O que você já publicou até aqui?

Publiquei três livros de contos: “A (extra)ordinária vida real” (Autografia, 2016), “A mãe e o filho da mãe e outros contos” (Autografia, 2017) e “Espantos para uso diário” (Coralina, 2019).

Acho que publicar não é tão difícil, desde que você caia nas graças de um editor ou tenha recursos próprios para bancar a empreitada. O difícil é fazer o livro cumprir o seu destino: ser lido. Chegar ao leitor, ser comentado, ser recomendado, ganhar alguma visibilidade, botar o chifre pra fora e acima da manada, virar uma referência, por mais pálida que esta seja. Alcançar o leitor é o grande desafio. Note que não falo em viver da literatura, ganhar dinheiro com literatura. Falo em ser lido, chegar ao leitor. Essa é a maior dificuldade.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Como só tenho três livros publicados, sugiro começar por qualquer um deles. O meu blog (www.homemdepalavra.com.br) também pode ser uma boa porta de entrada para a minha escrita.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

O conto. Acho fascinante contar/ler uma história em poucos parágrafos. Gosto de ser desafiado como leitor e de desafiar quem me lê. Gosto da ideia de deixar que o leitor imagine o que as palavras não contam, só deixam entrever. Gosto de ler romances, embora não creia ser capaz de escrever um (quem sabe no futuro?). Mas a minha paixão é escrever e ler contos. Estou me abrindo mais para a poesia há poucos anos, não tinha o hábito de ler poemas. Agora até já escrevi um livro de poemas, veja só!

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sou aposentado, então tenho uma renda mensal sempre garantida, por pouco que seja. Fiz carreira no mercado financeiro e consegui construir uma vida financeira confortável, sem luxo, apenas confortável.

Saí da casa de meus pais, em Ribeirão Claro, Paraná, aos 17 anos, e desde então vivo por minha conta. Sempre trabalhei e banquei meus estudos e minhas despesas. Formei-me em Jornalismo, fiz pós-graduação e consegui ter minha casa própria. Moro sozinho em São Paulo há 4 décadas e, com a aposentadoria, minha única atividade é escrever.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política? Racismo, homofobia, gordofobia, machismo...

Acho que não dá para dissociar arte de política. Toda arte é política. Toda arte está inserida num ambiente político, é feita por alguém que está inserido num contexto político, então não dá para separar. Se o autor elege escrever sobre este ou aquele tema, ele está fazendo uma escolha política. Em meus textos eu falo de todos esses temas que você citou, e isso é uma escolha política. Na minha opinião, o cuidado que se deve tomar é não fazer panfleto (não desmerecendo quem o faz). A arte panfletária tem o seu lugar, sua razão de ser e seu sentido, mas a literatura ou qualquer outra manifestação artística tem outra conotação. Eu posso falar do voo de uma andorinha e fazer disso uma manifestação política sem ser panfletário. Se eu escolho contar uma história de amor eu estarei contando, de alguma forma, uma história que tem muito de político, pois o amor acontecerá entre duas pessoas que têm, necessariamente, uma história pessoal, e isso não está, de forma alguma, dissociado da política, pois as personagens falarão de um modo específico, revelarão ideias e pensamentos com um viés específico, enfim, mesmo sendo de amor, a história tem que narrar a vida de personagens de verdade, e isso passa pela política. É um equilíbrio delicado que se deve buscar. Além disso, o atual momento do Brasil, com essas convulsões sociais todas, exige que o artista se posicione, e esse posicionamento vai se refletir em sua produção de alguma maneira.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor(a)”.

Ah, quando tive na mão o meu primeiro livro. Quando vi meu nome impresso na capa pela primeira vez. Foi muito emocionante.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Está tudo certo, acho que falamos sobre o que importa.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Tenho dois livros praticamente prontos, um novo de contos e um primeiro de poesia. Espero publicá-los ainda este ano.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

Vou deixar um pequeno conto do meu último livro “Espantos para uso diário”:

A proposta

Eu lhe darei cinquenta mil reais em dinheiro vivo, livre de impostos, se você permitir que eu ligue agora para sua mãe e informe que você sofreu um terrível acidente de trânsito. Que seu carro ficou acabado e que você está preso nas ferragens, correndo risco de morrer. Ou que foi atropelado por um táxi em alta velocidade. Qualquer tragédia serve, desde que verossímil. Fingirei que sou um agente policial e direi a ela que não sei se você poderá se salvar. Que uma ambulância já está no local e vai levá-lo para o hospital mais próximo.

Você só tem que aguardar duas horas depois que eu ligar para ela. Duas horas apenas, sabendo que alguém quase morre de angústia, dor e sofrimento por conta de uma mentira. Passado esse tempo, você poderá se comunicar com quem desejar. Poderá ir à casa de sua mãe e lhe contar os detalhes desse nosso trato. Poderá falar que tudo não passou de uma farsa, enquanto ela olha para você com os olhos rebentados de tanto chorar. Poderá fazer o que quiser depois, desde que respeite as duas horas combinadas. Duas... intermináveis... horas.

E então, o que me diz? Quer o dinheiro?

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Onde encontrar Mário Sérgio Baggio:

Facebook https://www.facebook.com/mariosergio.baggio

E-mail [email protected]

Seus livros: (links para compra) Para adquirir “A (extra)ordinária vida real” e “A mãe e o filho da mãe e outros contos”:

www.autografia.com.br

Para adquirir “Espantos para uso diário”:

www.editoracoralina.com.br


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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