café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“O Brasil precisa se conhecer, valorizar o que é feito aqui”, defende Maya Falks

Maya Falks já publicou “Depois de tudo” (2015), “Histórias de minha morte” (2017), “Versos e outras insanidades” (2017), “Poemas para ler no front” (2019) e “Santuário” (2020). Versátil, criativa e sensível, a premiada escritora nos conta sobre carreira, grana, livros, preferências, política e faz uma defesa apaixonada da literatura brasileira.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Maya Falks que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Minhas primeiras aventuras literárias aconteceram aos três anos quando, impossibilitada de escrever minhas próprias histórias, eu as ditava para minha mãe. Tão logo fui alfabetizada, ganhei um caderno e um lápis para me jogar de vez nesse universo, escrevendo a pequena narrativa “Amor eterno”, sobre um jovem casal que se apaixona na infância, precisa se separar e se reencontra adulto para, enfim, viver sua história de amor. Essa trama foi inspirada em Mônica e Cebolinha, então talvez dê pra dizer que tudo começou com Turma da Mônica.

Depois disso, aos dez, escrevi “A vingança”, um romance policial onde um serial killer se vinga de um grupo de detetives particulares que garantiu sua captura anos antes. Foi por essa idade que comecei a trabalhar com poesia, escrevendo “Vampiro” depois de assistir ao filme Entrevista com o vampiro no cinema. Nunca mais parei.

Pela escrita fui trabalhar com comunicação, pela escrita hoje trabalho com literatura.

Desde o início tive minha mãe ao meu lado, bem como minha avó e minha madrinha, que sempre deram muita força – me emociona que minha avó viveu o bastante para ler meu primeiro romance publicado, embora não o tenha visto ser lançado.

Na minha juventude, vendia redação na escola; embora fossem meus clientes, meus colegas de escola não viam com bons olhos e não raro eu era tida como a esquisita, “louca”, por estar escrevendo poemas no verso das provas.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Não acredito em dom, mas em inclinação, aquele feeling artístico que pode fazer a diferença no resultado. Dom traz muito a ideia de que não é necessário esforço para se desenvolver alguma coisa, e isso está longe de ser realista. Embora eu tenha começado a escrever muito cedo, também comecei a ler muito cedo, e isso fez muita diferença entre quem eu era como adolescente que escreve versinhos na agenda e a escritora que começa pouco a pouco a ganhar o respeito do mercado, com cinco livros publicados e uma boa soma de prêmios.

Escrever envolve a ideia, sim, mas também envolve muito trabalho, muita pesquisa, muita responsabilidade e, principalmente, muita aceitação à crítica. Ouvir que um texto é ruim é doloroso, mas igualmente importante para o crescimento. Já se foi o tempo em que o ego do escritor vinha antes da obra. Estamos na era da comunicação, em que é mais fácil para mostrar seu trabalho, há muita gente ótima produzindo e sendo vista, como nunca antes; o autor que vive do ego acaba atropelado por quem tem qualidade e humildade.

Literatura é paixão, é trabalho, é diálogo, é pesquisa.

Mas, principalmente, literatura é diálogo com a sociedade, é se abrir para receber o que o outro tem a oferecer, é escuta, é atenção. Nenhuma história vem por iluminação divina, tudo é fruto daquilo que vemos, ouvimos, aprendemos, vivemos.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Sou absolutamente apaixonada por Gonçalves Dias, até escrevi um livro-reportagem sobre ele. Tirando ele, confesso que nunca prestei muita atenção em autores considerados cânones, aqueles que é bonito citar em entrevistas mesmo quando quase nada se conhece. Me apaixono por boas histórias, clássicas ou não.

Por exemplo, um autor que teve um papel de extrema importância na minha formação como escritora foi Pedro Bandeira, autor infantojuvenil que eu devorava lá nos meus 11, 12 anos. Cheguei a enviar uma carta imensa a ele com uma sugestão de história para um futuro livro; recebi dele um retorno muito especial: “acho que você deveria ser escritora”. Mais do que qualquer currículo pomposo de autores lidos, é o contato com o que mexe com a gente que faz a diferença.

Hoje estou muito focada na literatura brasileira contemporânea; não há clássicos por ali porque é tudo novo, mas já tenho meus palpites de quem não será esquecido pela história.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Só para meu projeto Bibliofilia Cotidiana (conheça-o aqui), resenhei, em um ano, mais de cem livros de autores brasileiros contemporâneos, então essa pergunta é certamente a mais difícil de responder, porque de todos tirei seus aspectos positivos. A nossa cena literária atual é riquíssima, recomendo muito a todos que a descubram; o Bibliofilia mesmo é um buffet de boa literatura contemporânea brasileira.

Não vou citar nomes para não correr o risco de ser injusta, mas desejo fortemente que o leitor brasileiro descubra a literatura nacional.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“O privilégio dos mortos”, de Whisner Fraga.

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6- O que você já publicou até aqui?

De livros foram:

  • Depois de tudo (2015)
  • Histórias de minha morte (2017)
  • Versos e outras insanidades (2017)
  • Poemas para ler no front (2019)
  • Santuário (2020)

Participações em antologias:

  • Vírus Z
  • Concurso Anual Literário de Caxias do Sul – 2015
  • Concurso Anual Literário de Caxias do Sul – 2017
  • IX Prêmio Escriba de Contos
  • Carnavalhame 2ª edição
  • 70x Caio
  • III – A hora morta
  • Crianças na guerra
  • Marielle
  • Porque somos mulheres
  • Mulher – 2ª edição
  • Ruínas
  • Quem dera o sangue fosse só o da menstruação – 2ª antologia

E em revistas:

  • Gueto
  • Ruído Manifesto
  • Germina
  • Literatura & Fechadura
  • Mallarmargens
  • Literatura RS
  • Como eu Escrevo
  • Escrevo
  • QG Feminista
  • Ser MulherArte
  • Próximo Parágrafo
  • Amaite Poesias
  • Revista Sepé
  • The Quarentena
  • Conexão Jornalismo
  • Revista Úrsula
  • Post Literal
  • Revista Toró

É possível que sejam mais antologias e revistas, mas não tenho por hábito guardar, acabo perdendo coisas no caminho.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Sou muito versátil, então, embora misturar drama e comédia seja uma de minhas assinaturas, cada obra é diferente da outra. Considerando que “Depois de tudo” e “Versos e outras insanidades” estão esgotados, entre as três opções que restaram vai mais do gosto do leitor: os “Poemas para ler no front” são sobre guerras e outras tragédias; “Histórias de minha morte” é um romance de drama que relata o pós-morte da narradora/protagonista Leandra, que revisita momentos-chave de sua breve e trágica existência para compreender sua história; e “Santuário” é um híbrido entre romance e conto, já que cada história pode ser lida separadamente, mas o conjunto forma uma narrativa de situações que acontecem em uma minúscula cidade de interior, misturando comédia, tragédia e realismo mágico.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Tudo. Pra escrita realmente gosto de tudo, até texto jurídico já fiz nos tempos em que estagiei em escritório de advocacia. Penso como poeta e prosista, não consigo focar mais em um ou em outro, cada um me preenche à sua maneira.

Como leitora, embora seja fã de Gonçalves Dias desde a adolescência, sempre gostei mais de romance. Foi com o trabalho no Bibliofilia Cotidiana que me obriguei a expandir esses horizontes para ler de tudo, e foi um exercício maravilhoso. Hoje não tenho mais preferências para a leitura, realmente leio de tudo. O que eu gosto mesmo é de livro que me provoque, que me encante, que me dê vontade abraçar ou surrar o autor, e isso tem em todos os estilos. Livros que me causam indiferença é que eu não curto muito.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Na realidade, uma boa parte da minha renda provém de ajuda de leitores que apreciam meu trabalho. Recentemente criei o Escritório Literário, no qual ofereço serviços de leitura crítica, resenha, mentoria e oficinas, e hoje é desses serviços que tiro parte do meu sustento. Digo parte porque o valor que consigo com esses serviços não é o bastante para efetivamente me manter, porém, a outra parte das minhas necessidades de subsistência está sem cobertura de qualquer fonte de renda.

Acaba sendo sempre um jogo de cintura; não raro algumas coisas de que preciso acabo recebendo como cortesia de alguém, e assim a gente vai indo. Não reclamo de como a vida tem sido, mas é um sonho que um dia os artistas sejam efetivamente valorizados.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político, outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Arte é política, fazer arte num país que trata artistas como vagabundos é um ato político. As pessoas confundem muito política com questão partidária, mas a política vai muito além disso. Um romance meloso de banca de revista que tem uma protagonista que se emancipa está sendo político. Não consigo, sinceramente, dissociar literatura de política ou de causas sociais porque a literatura é retrato e reflexo da sociedade; ou seja, as causas sociais estarão ali querendo ou não. Mesmo na literatura de entretenimento, elementos sociais estão presentes. Inclusive a própria escolha do autor de não incluir indivíduos de grupos minoritários em suas obras é uma escolha política.

Os meus livros sempre trazem personagens de grupos sociais minoritários porque o termo “minoria” se refere à representatividade política (e, aí sim, partidária) desses grupos, e não do número de indivíduos dentro do total da população; por exemplo, temos no Brasil uma maioria numérica negra, me soa até estranho quando um romance se passa em regiões que não sejam totalmente de colonização europeia sem herança da escravidão em que nenhum personagem é negro. Não é um retrato da sociedade ignorar esses grupos, e se a trama se passa em territórios reais, o mínimo que eu espero é encontrar traços da sociedade que habita esses territórios.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

É interessante isso porque, como eu escrevo a vida toda, parece que ser escritora é algo que está em mim desde que nasci, mas não foi assim. Eu me lembro com perfeição da situação: foi em 2015, eu já tinha alguns prêmios e já tinha lançado meu primeiro livro, escrito oito anos antes, mas foi ao voltar de uma cerimônia de mais uma premiação que eu posicionei o troféu sobre o livro, sentei na minha cama e fiquei olhando para aquela cena. E, então, eu me emocionei. Foi naquele momento, exatamente naquele momento, no começo de junho de 2015, que eu falei pela primeira vez para mim mesma: eu sou uma escritora.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Creio que cabe mencionar com mais ênfase a grandiosidade da literatura nacional. Existe um preconceito inexplicável contra a nossa literatura; é preciso quebrar esse ciclo de autodesprezo para conhecer a arte maravilhosa que se produz nesse país.

Temos livros em todos os gêneros possíveis e imagináveis, autores de altíssimo nível que em nada perdem para autores estrangeiros, pelo contrário, temos a chance de ler grande literatura nossa sua língua natal, sem perdas de tradução, o que enriquece muito as narrativas.

O Brasil precisa se conhecer, valorizar o que é feito aqui. Tenho certeza que muitos leitores avessos à literatura brasileira se surpreenderão se efetivamente lerem nossos livros.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Já tenho um romance aprovado para publicação no próximo ano, acabo de integrar a plataforma Vida de Escritor e já estou trabalhando em um romance novo. Por aqui a roda está sempre girando. Se me fizeres a mesma pergunta em um mês, é provável que eu tenha mais coisas a contar!

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

BOLETO (CRÔNICA PREMIADA)

Certa vez minha mãe me disse que a única coisa na vida que é inevitável é a morte. Acreditei nisso até atingir a idade adulta, quando descobri que a morte é apenas a última coisa inevitável. Antes da morte, para quem não se vai jovem demais, vem o boleto.

A inevitabilidade do boleto é tão concreta quanto a morte. Embora a morte ainda seja, enquanto entidade com uma foice na mão, imensamente menos concreta do que aquele maldito código de barras que, uma vez sob o leitor, nos coloca em um espiral de desespero que só pode ser descrito por Augusto dos Anjos. Ou talvez Kafka, na agonia excruciante da transformação de Gregor Samsa em inseto, igual sente nosso âmago na transformação do débito na aniquilação de sonhos, no esvaziamento feroz e sádico de nossas contas bancárias, na usurpação maligna de 22 dias úteis do nosso suor.

Há quem tenha medo da morte sim, e não os condeno, mas nada pode ser mais aterrorizante que o boleto. A taquicardia que marca os dias que antecedem o vencimento somada à noite insone em pranto incessante depois de realizada a transação. Clonazepam na veia. Mês que vem tem mais. E no outro. E no outro.

O boleto é a morte mensal, a morte a conta-gotas, a morte à moda Jack, o Estripador – pedacinho por pedacinho. Vamos padecendo do mal moderno das promessas nunca cumpridas de que, findado esse boleto, não nos colocaremos outra vez nessa mesma teia de tensões digna de um filme de terror. E lá estamos nós, na vitrine. Mês que vem o leitor fará seu “bip” e nosso primeiro “inevitável” rirá da nossa cara, com seus dentes de risquinhos finos, grossos, finos, grossos, para nos provar que inevitável não é a morte, é a vida.

mf final.jpg Foto: Angela Nadin

Onde encontrar Maya Falks?

Facebook:

https://www.facebook.com/maya.falks

https://www.facebook.com/escritoraMayaFalks/

Instagram:

https://www.instagram.com/mayafalks/

Email: [email protected]

Comprar os livros de Maya Falks: (dois estão esgotados)

“Histórias de Minha Morte”: direto com a escritora.

“Poemas para Ler no Front”, aqui.

“Santuário”, aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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