café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Capoeira, psicanálise e ficção”, o percurso do escritor Michel Ferreira Saraiva

Michel Ferreira Saraiva é um escritor de múltiplas facetas. Professor de Capoeira e Atualidades, instrutor, pós-graduado em Psicanálise, escritor de cantigas de Umbanda e Capoeira, pedagogo e músico. Conheça um pouco mais o “Indiano”.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Michel Ferreira Saraiva (também conhecido pelo seu nome na capoeira, Indiano) que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu comecei logo após aprender a ler e escrever. Eu devia ter por volta de seis anos. Foi um processo trifásico surpreendente (aprender a ler, ler em si e entender que eu poderia escrever). Isso mudou definitivamente minha forma de interpretar o mundo a minha volta. Nessa mesma fase eu escrevi uma “coleção de livros” e já sonhava em ser escritor. Nada muito elaborado, obviamente. Algumas frases, os desenhos como capa e algumas histórias baseadas no que eu lia, via e vivia.

São fios multicor que tecem a colcha da minha história. Minha maior formação foi a própria rua onde me criei e a capoeiragem que sempre foi presente em minha vida.

Mesmo sendo umbandista, lia a bíblia e me interessava principalmente pelo novo testamento. Isso me fez começar outro projeto de livro quando tinha por volta dos 15 anos de idade. Era refletindo em torno das parábolas bíblicas, muito influenciado pelo que eu lia na época – Osho e Krishnamurti, principalmente. Esse presente se perdeu quando o antigo computador do meu pai deu problema levando embora escritos meus e dele.

Já na adolescência comecei a escrever minhas primeiras cantigas de Umbanda e Capoeira, participei de alguns concursos com poemas e por vezes escrevia pensamentos considerados negativos por mim e os queimava. Quando acontecia algo que eu não conseguia expressar com palavras eu usava dessas mesmas palavras limitadas para tentar transcender e materializar o que eu sentia.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Tenho a tendência de acreditar que tudo na vida é muito mais consequência de transpiração do que inspiração. Porém eu mesmo não leio metade da quantidade de livros que gostaria. Acredito que tenha alguma porcentagem mínima de dom, de uma inspiração. A escrita enquanto processo catártico deveria ser praticada por todos e todas. A escrita enquanto registro de um olhar único que pretende ser eternizado é ambição de um grupo seleto que geralmente escreve para esse mesmo grupo. É um movimento que nos retroalimenta.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Osho e Krishnamurti foram e sempre serão marcantes na minha trajetória. Em minha adolescência li Rachel de Queiroz, Lima Barreto, Hilda Hilst, Gilberto Freyre, Aluísio de Azevedo, Assis Brasil, Monteiro Lobato, entre muitos outros. Foi o momento onde eu fiz um tour pelos clássicos e gostei demais. Porém sempre me interessei por questões filosóficas e psicológicas. Nesse âmbito citaria Nietzsche, Schopenhauer, Jung, Sartre etc.

Quando se fala em influência na minha escrita eu teria necessariamente que falar sobre música. Pois clássicos como Racionais MC's, Sabotage, RZO, MV Bill, Gabriel Pensador além das músicas da Umbanda e da cultura popular como a Capoeira, o Jongo, o Samba com certeza é onde existem os autores que realmente influenciaram não só minha escrita, mas minha maneira de me relacionar com o mundo.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Continuo muito na minha zona de conforto dentro da literatura filosófica e psicanalítica. Vez ou outra me aventuro por outras vertentes. Leio muito o pessoal que está por trás da página Rolé Literário, me divirto, aprendo e recomendo. Sou apaixonado pelos poemas da Viviane Mosé, Eliza Lucinda e da galera dos movimentos de Slam Resistência. Na área que estou trabalhando meu novo livro gostei demais do Giovani Martins e venho conhecendo outros autores e autoras contemporâneos, gradualmente, inclusive acompanhando este blog.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou relendo “Dom Quixote” e lendo um livro do Safatle que faz uma introdução ao pensamento de J. Lacan.

6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

O primeiro livro foi “Poemas Para Gingar” (2017) pelo selo Crianças Diversas.

O segundo foi “A Lenda do Maculelê” (2018) – pelo mesmo selo. Estes dois em parceria com Ana Carolina Lacorte.

Tenho dois contos publicados no livro “16 Contos Insólitos” (2018), uma antologia do selo Mundo Contemporâneo Edições.

E ao fim de 2018 organizei uma antologia que reunia contos, crônicas e poemas de alunas e alunos meus, do sexto ao oitavo ano, intitulada “Farofa Literária” (Metanoia Editora).

Após conhecer as queridas Malu e Léa da Editora Metanoia nada foi difícil, pelo contrário. Elas facilitam a vida de qualquer autor ou autora.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Essa pergunta é difícil, pois ainda estou fazendo experiências como autor. Aposto muito que encontrei uma marca particular com meu próximo livro, o “Divã de Favela”. Gosto muito dos poemas do primeiro livro, dos contos insólitos publicados no livro mencionado anteriormente e das crônicas que posto com regularidade no meu Facebook.

Diria pra começar pelo que já tem aí na pista e esperar, pois virão coisas diferentes e, assim penso, interessantes.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Como leitor, a minha preferência é prosa, mas leio um pouquinho de tudo. Já como autor, eu estou perambulando pelas diversas possibilidades e me testando. Estou gostando muito dessas experiências. Acredito que vou continuar como contador de histórias. Crônica, conto, romance, novela e tudo que me der na cabeça.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Nesta quarentena, eu estou sobrevivendo-dependendo do auxílio emergencial, bicos e aulas de atabaque que continuo ministrando online. Mas ganho meu dinheiro como professor, principalmente de Capoeira. Eu fiz Pedagogia, me especializei em Psicanálise, Cultura e Clínica. Sou formado Instrutor e ministro aulas de Capoeira há dez anos. Meu dinheiro vem através da prática de educador. Viajo por aí lançando os livros de Capoeira, fazendo palestras e lançando meu CD que também é de Capoeira. Mas essa prática, por enquanto, me possibilita dar um rolé de vez em quando. Tenho que suar pra bancar meu desejo de escrever.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Como não sou eremita, tudo que sai de mim é político, seja em níveis conscientes ou inconscientes. Até o eremita Zaratrusta foi extremamente político. Enfim, tem gente mesmo que defende isso? A “arte pela arte”? A arte é sempre política. Sou contra é fazer da literatura panfletagem.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Lembro-me de ter sentido isso antes dos dez anos quando escrevi minha “primeira coleção”. Quando publiquei o primeiro livro senti algo que me remeteu a essa infância distante e sempre presente. Na participação dos “16 Contos Insólitos” me reinventei e senti isso novamente. Já no “Farofa Literária” eu escrevi apenas a apresentação. Acredito que foi a melhor sensação que eu tive, mas não era essa de me sentir escritor. Era possibilitar que jovens crianças sentissem que são escritorxs. Acredito que essa coisa de “sou escritor” acontecerá novamente quando eu lançar o “Divã de Favela”, mas não é algo que se estabilizou ainda. É uma sensação que vai e volta. Mas uso “escritor” para definir as profissões onde atuo.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta. Por que ser lido?

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Provavelmente, esse ano ainda, lançarei um livro que coorganizei e reúne diversos relatos de professoras e professores que trabalham a Capoeira e dialogam com outros campos do saber. Neste livro terá um artigo meu intitulado “Capoeira e Psicanálise: O corpo, o Mestre e o falo.” O “Divã de Favela” ficará para 2021. Penso na possibilidade de lançar o “Fruto do Desejo” (“livro infantil”) também no próximo ano.

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Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

Vou deixar o último conto que escrevi:

AMOR, SEJA FRANCA!

Juan estava casado com Raquel há três anos. Conheceram-se no churrasco da mulher do Julinho, seu amigo de infância.

A cada dia que passava se incomodava com o quanto não sabia do passado de sua amada. Por mais que buscasse, não encontrava vestígios.

A mulher de Julinho o conhecera um ano antes na loja do Shopping que trabalhavam. A mãe de Raquel morava em Nova Iguaçu onde ele cresceu e se criou. E antes do casamento, sua então noiva, morava em Santa Tereza. Parecia ter poucos amigos.

Ele tentava sondar-lhe os segredos mais íntimos falando os seus. Há três anos essa tática não dava certo e ela sabia praticamente de sua vida toda e ele nada sabia da dela.

Resolveu jogar limpo e a chamou para uma conversa franca.

- Amor, estava aqui pensando, e eu não sei praticamente nada da sua vida antes da gente se relacionar.

- E qual a importância disso Juan?

- Confiança Raquel. Assim como já te contei minha vida toda, gostaria que você confiasse em mim e me contasse sobre a sua vida também.

- Juan, é necessário calar verdades para existir. Você quer mesmo que eu seja franca?

- Claro que quero amor. Não importa o que você fez ou deixou de fazer. O mais importante é falar pra que eu tenha certeza que você se sente a vontade para contar tudo pra mim.

- Então tá bom. Pode perguntar o que quiser.

- Com quantas pessoas você já transou antes de mim?

- Não tenho ideia. Mas deve ter passado de cem.

- Cem, amor?

Julinho sentiu-se desconfortável. Raquel tomava um gole de água, plena. Ele fingiu não se incomodar e seguiu.

- Tudo bem. Você já transou com mais de um homem ao mesmo tempo?

- Já transei com cinco de uma vez na minha adolescência e no dia anterior que eu te conheci eu transei com dois caras que eu tinha acabado de conhecer enquanto tomava uma cerveja na Lapa, antes de subir a escadaria pra casa.

- Que isso Raquel? Você estava doidona?

- Eu não. Mas eles estavam. Demoraram tanto pra gozar que no outro dia pra andar foi complicado. Só fui naquela festa porque gosto muito da Thayssa.

- Eu não tô acreditando. Você está mentindo.

- Quer parar por aqui ou tem mais perguntas a fazer?

Deu mais um gole na água enquanto curtia Juan andando prum lado e pro outro no pequeno apartamento da Tijuca.

- Você já transou com alguém que tivesse o pau maior que o meu?

- Juan, meu amor. Na época das olimpíadas eu transei com aquele corredor queniano. De onde você tirou que seu pau é grande?

- Não é possível que isso seja verdade. Você está me trollando. Você já traiu algum namorado?

- Já.

- Porra, Raquel! Que caralho é esse? Vamos dormir. Não quero saber mais nada. Nada! Ouviu bem? Nada!

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Onde encontrar Michel Ferreira Saraiva?

Facebook: Michel Indiano Saraiva

Instagram @indianocapoeira

E-mail [email protected]

Seus livros...

Poemas para Gingar, clique aqui.

A Lenda do Maculelê, clique aqui.

16 Contos Insólitos, clique aqui.

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Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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