café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Não existem universidades para ensinar a ser escritor, graças a Deus!”, diz Krishnamurti Góes dos Anjos


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Krishnamurti Góes dos Anjos que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Não há, ou por outra, não deveria haver, escritor sem que antes tenha sido um grande leitor. Talvez o fato de ter nascido filho homem único, em uma família de 3 irmãs, tenha me levado desde o início da adolescência aos livros. Ocorre também que as tradicionais “brincadeiras de meninos”, como seja passar horas e horas correndo atrás de uma bola para fazer o gol de sempre, nunca foram grande atração para o meu espírito sempre muito curioso. Decorre dessas circunstâncias o fato de ter estado desde muito cedo inclinado à leitura. Um casamento prematuro e o consequente naufrágio, levaram o então jovem de 24 anos a abandonar a universidade onde já tinha cursado economia por 3 anos e resolvi dedicar-me à literatura, não ainda no sentido de ser escritor, mas de estudá-la com todo o ardor. Foi então que fiz novo vestibular para Letras vernáculas com inglês, e cursei seis semestres nos quais li tudo, tudo o que pude das literaturas portuguesa, brasileira, inglesa, norte-americana, russa e francesa. Acrescento que já tinha, também da experiência universitária anterior, a consciência da frustração que podem ser os cursos universitários para aqueles que desejam se especializar profundamente. Foi a gota d´água para o piparote que dei nesse curso, e aí sim, resolvi começar a escrever os primeiros textos ficcionais. Aqui estou 20 anos depois, trilhando a vereda literária com a consciência muito cristalina de eterno aprendiz.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Pelo que ficou respondido na pergunta anterior, não é difícil deduzir o que penso a respeito. Apenas acrescento que não desprezo o imponderável da inclinação natural com que já nascemos, mas talento só não basta, positivamente não. Há de se fazer um esforço gigantesco de leitura contínua para obter resultados minimamente razoáveis em textos literários. Uma coisa aliada à outra, talvez seja o grande fermento que propicia a inspiração. Quanto ao processo criativo e as coisas que me inspiram a escrever, decorrem evidentemente de tudo isto, e de uma observação constante da vida e dos homens. Literatura é arte que fala do homem e para o homem.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

A admiração muito acentuada por este ou aquele autor, tem levado alguns escritores à um desenvolvimento emperrado, porque muito circunscrito a tais ou quais obras e estilos. Creio que falo com alguma propriedade sobre o assunto, porque pude observar nos últimos 5 anos (em que venho exercendo também a crítica literária como ela é entendida hoje), que isto pode contribuir – eu disse pode contribuir -, para que o universo de leitura do candidato a escritor fique um tanto quanto restrito. Precisamos ter em mente que a Literatura é uma arte que se ergue e continua a crescer, sobre os ombros dos que nos precederam. O escritor deve sim, admirar suas preferencias, mas sem com isto esquecer de tantos e tantos outros autores que deram seu contributo para que chegássemos até aqui. Também acho, à propósito da pergunta, uma bobagem dizer que depois de fulano(a) ou beltrano(a), ninguém mais fará algo tão bom quanto, ou ainda melhor. Não creio que o bom caminho seja cultuar ídolos nesse sentido. Se fosse colocar aqui quais autores influenciaram a minha literatura, esta entrevista iria se transformar em inventário de tantas e tantas obras e autores maravilhosos que li e ainda leio. Uma coisa chata a mais não poder. Concluindo. O escritor deve ter sim autores de sua admiração, só e somente, na medida em que lhe ensinam algumas coisas e etc., mas deve procurar e encontrar com todo ardor o seu próprio caminho. Não existem universidades para ensinar a ser escritor, graças a Deus!

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Pergunta interessantíssima esta, cheia de implicações outras. Não indico absolutamente ninguém em particular. Já mencionei acima, que há cinco anos me dedico à critica literária, e volto a dizer, como ela é entendida e sobretudo “possível” e viável nos dias de hoje. Muito bem; escrevi e publiquei até aqui exatamente 260 resenhas. E acrescento ainda que os textos que escrevo sobre tais obras, estão sempre ali na casa de 2 ou 3 páginas cada, onde procuro investigá-las e refletir com profundidade. 90% dessas resenhas de autores brasileiros que estão aí vivinhos da silva e produzindo, muitos deles, obras com inquestionável qualidade. E fico aqui a me perguntar com uma tristeza imensa, porque a maioria do público brasileiro (o reduzidíssimo público que realmente lê neste país), não lê ou ao menos sabe da existência de uma literatura da melhor qualidade que existe aqui mesmo, e que é produzida por brasileiros e brasileiras!? Se você der uma olhadinha no que nossos jovens andam lendo em uma Rede Social como o Skoob por exemplo, a esmagadora maioria, faz posts e elogia a não mais poder nomes como os de Joanne Rowling, Mark Manson, Hal Elrod, Dale Carnegie, Carol S. Dweck, Charles Duhigg, Napoleon Hill e ainda a imbatível Jojo Moyers aquela jornalista britânica que vende livros às carradas. Parece que estamos na Inglaterra ou nos EUA! Quer isto dizer que não se produz literatura no Brasil que mereça ser lida? E a esta altura, inopinadamente, me vem a memória aquele verso lá da música do Caetano Veloso em podres poderes: “Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica?”, inclusive no que diz respeito à Literatura? Pergunto eu. Veja-se quantas questões estão aí implicadas nestas poucas linhas. O público brasileiro continua a não conhecer a literatura brasileira... Triste, muito triste. E faço duas últimas observações. Primeira. Sei que há um ou outro brasileiro – sobretudo os do passado e que nem mais vivos estão - nas listas dos mais vendidos ou mais lidos, o que não quer dizer a mesma coisa. Todavia a desproporção é imensa. Segunda observação. Esta coisa de indicação de autor A ou autor B, é de extrema relatividade. Cada leitor deve se dar ao trabalho de procurar sim, com seus próprios olhos ouvidos e sua sensibilidade, o que lhe convém ler porque lhe acrescenta de fato algo, literatura não é mero entretenimento (embora também possa servir como). Um horror você comprar e ler um livro porque fulaninho(a) “super recomenda”. O buraco é bem mais embaixo.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Neste momento há em cima de minha mesa de trabalho 5 envelopes com livros que chegaram recentemente para resenha. Não sei nem quais são ainda.

6- O que você já publicou até aqui?

Quando comecei a publicar, ali pelo idos dos fins dos anos 90, ser publicado, ou mandar imprimir um livro com recursos próprios, era empreendimento que equivalia a quase o preço de um carro. Dá para acreditar numa coisa assim? Pois é, muito difícil. Hoje com o desenvolvimento gigantesco dos meios de produção gráfica, qualquer adolescente, mal saído do ensino médio, pode publicar um livro em plataformas, ou por gráficas rápidas, ou ainda por editoras de pequenas tiragens e etc. O meu percurso literário é este: livros publicados: “Il Crime dei Caminho Novo” – Romance Histórico, “Gato de Telhado” – Contos, “Um Novo Século” – Contos, “Embriagado Intelecto e outros contos”, “Doze Contos & meio Poema” e “À flor da pele” – Contos. Participei de 28 coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos meus traduzidos e publicados em revistas na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Meu último romance publicado pela editora portuguesa Chiado, – “O Touro do rebanho” – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. E finalmente, colaboro regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Em abril deste ano foi publicado pela Editora Laranja Original, de São Paulo, meu mais recente livro “À flor da pele” – contos. Os demais estão esgotados. Uma curiosidade digna de nota. Dia desses procurei comprar um exemplar do meu romance “O touro do rebanho”, publicado pela Chiado de Lisboa em 2014. Só consegui encontrar em sebos por um valor tão exorbitante, que nem eu mesmo podia comprar. Veja-se o que passa o autor brasileiro...

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

O conto e o romance são as minhas preferências.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sem sombra de dúvidas, não se pode viver de literatura no Brasil. Ainda não. Antes do curso de economia de que falei acima, passei 4 anos em uma escola técnica federal em Salvador onde me graduei como Técnico em Edificações. Depois, com o passar do tempo, me especializei em Planejamento de obras pesadas e trabalhei por todo o Brasil e no exterior com esse tipo de construções que abrangem portos, rodovias, ferrovias, aeroportos, hidroelétricas e etc. Com a derrocada da indústria da construção civil que assistimos recentemente, passei a atuar com consultoria na área de planejamento de obras. É como ganho o pão de cada dia.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político, outros defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política? Você prefere falar apenas de literatura ou engaja-se em causas sociais? (pobreza, desigualdade, racismo, misoginia/machismo, homofobia, esquerda versus direita, gordofobia etc.).

A última palavra da pergunta me provocou frouxos de risos aqui. Que caralho afinal é gordofobia? Nojo ou aversão a pessoas gordas? Minha resposta começa justamente por aí. Veja-se a que ponto a humanidade chegou. Terminamos nos dividindo a tal ponto, que até pessoas gordas ou magras são objeto de motivação literária. (?) Olha, sinceramente, eu não tenho nenhuma preocupação em escrever ou me ocupar com as ditas maiorias ou minorias. Importa-me o ser humano e as questões que o afligem desde sempre, não importa se ele está no Alaska, ou no Congo, se nos sertões nordestinos ou em uma aldeia indígena da Amazônia. Se é de direita ou esquerda. Se homossexual ou heterossexual. Creio e trabalho inclusive para mostrar isto em minha literatura, que somos todos nós oriundos da mesma fonte, mesmo que alguns não admitam. Não importa também se somos muçulmanos, ou católicos, ou protestantes. E me parece óbvio também que, se eu vivo sob uma ditadura, naturalmente essa condição há de ser fazer presente em meus textos, sem que para isto eu tenha que torcer o texto para esta ou aquela opção política. Óbvio que sob uma ditadura o ser humano é tolhido em seu pensamento, óbvio que sob um sistema capitalista safado como é o brasileiro, ninguém pode progredir economicamente sob o ponto de vista ético como deveria ser, e mais óbvio ainda. Que se há de identificar muito bem explícita ou implicitamente. Uma sociedade racista sempre vai estar lá nas linhas ou entrelinhas de um texto literário que se preocupe com o aspecto eminentemente humano que deve balizar uma obra literária. Óbvio repito, não precisa bater panela, nem agitar bandeirinhas, nem ficar gravando vídeo. Todo mundo saca!

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Em um belo dia em que senti um aperto no peito a me dizer. Sem fazer literatura não me interessa viver em um meio como este em que eu vivo.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

O que fazer para estimular e desenvolver de fato a literatura brasileira? E eu responderia: Muita coisa há de se fazer. Aspectos já batidos e rebatidos por muita gente. Nenhum segredo. Quem começar a pesquisar um pouquinho que seja, vai descobrir fácil, do que necessitamos nessa seara. Entretanto duas questões me preocupam particularmente. Certa feita fui convidado a participar de um encontro de escritores no Instituto Brasil-Alemanha aqui em Salvador. Em dado momento, levantaram a questão do porque as grandes editoras brasileiras não estendem sua atuação para outros mercados regionais no Brasil, e particularmente para a Bahia. E então, a minha resposta que paralisou de um certo mal estar o auditório, foi: “sim, eu sei que há interesses de mercados que querem manter e etc., mas isto é a ponta do iceberg. A questão fulcral não é esta. É simplesmente o fato de que ninguém lê nessa porra!” Referia-me então, com exagero proposital e intencional de chocar mesmo, ao fato de a leitura não ser, nunca foi, objeto de apreço entre nós. Mesmo em centros como São Paulo ou Rio de Janeiro, ou mesmo no Sul do País, o GROSSO da população não aprecia a leitura como o faz com o carnaval ou o futebol (para citar somente o que me ocorre de momento agora). E por quê? Aí, recaímos em outra velha história. Não fomos educados e não educamos nossos filhos, via estímulo constante para tanto. Essa me parece a grande questão sempre em tempo de ser trabalhada. Positivamente não se vende livros, (sim porque ainda é preciso vendê-los), em um ambiente de demanda baixíssima. É preciso gostar e querer ler, na certeza de que a literatura, muito para além de entretenimento, possui um poder libertador de consciências, porque reflete com profundidade sobre a vida e os entraves que impedem a própria vida de desenvolver-se plenamente.

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13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Não. Aí não. Agora estou dando um tempo, porque mesmo com pandemia e etc. e tal, nos últimos meses trabalhei muito intensamente na divulgação do meu último livro e de outros escritores(as) também. Vou dar um tempinho, acho que mereço... logo volto à carga com alguma loucura nova.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria...

Trecho do conto “Samirah e a noite dos longos punhais”, que está no meu último livro, “À flor da pele”:

“— É excelente, e devo dizer que é um dos livros que engendram distopias. Ou seja, cria um ambiente ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação. Sim, leia-o, e pense nisso. Livros como esse servem para fazer pensar um pouco mais além do aqui e agora, claro que intuindo tendências a partir do presente. De certa forma, antecipam o futuro. Depois, se você gostar, pegue o 1984 ou o Admirável Mundo Novo. Tenho-os ali mesmo, na prateleira em que você pegou esse. Há nessas obras um ponto em comum, o qual é muito importante entender ou pensar: em nossos dias, em que parece que perdemos a perspectiva de futuro, a liberdade dos indivíduos é tolhida, e consequentemente, convertida em escravidão. No entanto — e é nisso que devemos pensar em profundidade — é por meio de mecanismos sócio-políticos que a escravidão é ressignificada como liberdade, de modo que, mesmo tendo a sua liberdade cerceada, os indivíduos pensam gozar plenamente dela. Você pode ver nesses livros que, embora a maior parte da população esteja acomodada e aceite com enorme facilidade os absurdos, existem outros indivíduos que se permitem compreender as relações e ousam lutar contra a ordem estabelecida. Isso não é fácil, pois, claro, é muito mais fácil se acomodar que enfrentar a realidade e todas as consequências que arcamos quando decidimos sair da caverna.”

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Onde encontrar Krishnamurti Góes dos Anjos?

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Para a compra de “À flor da pele", clique aqui. Conheça todas as 260 resenhas que ele escreveu aqui no Skoob.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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