café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Nunca sei se minha poesia está pronta para um livro”, confessa Angela Zanirato

Apaixonada por livros, plantas e gatos, a poeta Angela Maria Zanirato Salomão possui graduação em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e especializou-se em Sociedade, Trabalho e Cultura no Ocidente pela Unesp e Patrimônio Cultural e Memória Social pela Universidade de Maringá.


zanirato 1.jpg

Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe hoje Angela Maria Zanirato Salomão que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Não fui a menina que começou a escrever em diários. Não gostava de expor minha vida em papéis. Eu escrevia dentro de mim. A pena literária era pesada. Depois de muito tempo os entalhes internos vieram para o externo.

Comecei escrever há pouco tempo. Para mim isso não mudou nada, se pensar na questão do tempo visto por Kant, como um único tempo, onde acontecem milhares de coisas. Minha mãe faleceu em 2002, e isso mexeu muito comigo. Fiquei depressiva por um bom tempo. Um dia, olhando uma foto dela na beira de um rio, com minhas irmãs, veio um texto inteiro em minha cabeça. E eu escrevi, e amei, fiquei comovida! Às vezes posto nas redes sociais e todos gostam. Digo brincando que foi como uma psicografia. Não parei mais de escrever. É um vicio que cola na pele, nos dedos. A escrita me possui.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Olha, na minha família tem muita gente que escreve. Além de mim, mais cinco irmãs e ainda alguns primos e primas. Nesse sentido posso dizer que é dom. Por outro lado, tive um pai muito culto, lia muito e também escrevia. Fazia teatro, dirigia espetáculos de teatro, canto e dança, em parceria com uma professora de música, trazia para casa livros, discos e revistas. Isso tudo incentivava muito para que lêssemos. Digo que somos um raro caso de escrever por uma questão de DNA e pelas circunstâncias que citei. Mas muitas vezes me vejo transpirando!

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Comecei lendo literatura estrangeira. Tudo que meu pai ou minhas irmãs liam, eu lia também. Aos dezesseis anos li tudo de Herman Hesse, li muito Hemingway, Somerset Maugham, Pearl S. Buck e Saint-Exupéry. Muitas vezes li livros impróprios para minha idade, mas eu lia escondido: Adelaide Carraro, por exemplo.

Comecei a ler os clássicos da literatura brasileira na escola. Li Machado de Assis, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade. Hoje percebo a ausência da literatura feminina no colégio. Talvez por isso hoje leio e incentivo a leitura de autoras mulheres.

Na infância ganhávamos livros de presente de Natal .Lembro de Zuzuquinha, a história de um elefante rosa que voava, As Aventuras do Barão de Munchausen, Eu, Christiane F. Drogada e Prostituída, Foge Nicky, Foge e o clássico As Aventuras de Tom Sawyer . Li muitos gibis e revistas de fotonovelas. Li também um pouco de filosofia oriental: Jiddu Krishnamurti e Confúcio, e o poeta indiano Rabindranath Tagore.

Como costumamos dizer entre nós irmãs: nos empanturramos de leitura.

zanirato hh.jpg

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Gosto muito de Hilda Hilst, Adélia Prado, Clarice Lispector, Orides Fontela, Matilde Campilo Jarid Arraes, Conceição Evaristo, Tito Leite, Milton Hatoum, Alice Munro, Lisa Alves, Cinthia Kriemler , Mar Becker, Rosângela Vieira Rocha, Lia Sena, Chris Herrmann, Isabela Penov ,minha irmã Máyda Zanirato, e duas poetas amigas que, assim como eu não tem livros publicados: Ivy Menon e Amanda Helena Gimeno de Souza.

As leituras mais impactantes foram as da Matilde Campillo e Mar Becker. Me inspiram e comovem.

zanirato hilda.jpg

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, da Svetlana Aleksiévitch e relendo “Mulher Submersa”, da Mar Becker. Não dá para ler a Mar Becker uma única vez. É muita profundidade.

zanirato mar.png

6- O que você já publicou até aqui?

Sou do clube das “deslivradas”. Não tenho livro solo. Sou muito cobrada nesse sentido. Sou virginiana, portanto, muito perfeccionista. Penso que minha poesia precisa amadurecer mais. Já fui publicada em muitas Antologias, Revistas e Sites. No final de julho, uma importante revista feminista entrou em contato comigo para publicar alguns poemas e em 2015 fui para a final no concurso Mapa Cultural Paulista, na modalidade conto (que nem é muito a minha praia). Fui publicada nessa edição em formato e-book.

Temos uma Antologia familiar, escrita por nós, irmãs, e é o nosso legado poético para filhos, netos e todos os que virão.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Pelo meu Facebook ou coloque meu nome no Google ["Angela Zanirato" poema] que irá aparecer quase todas as revistas e sites com meus poemas.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Poesia, para escrever. Para ler, prefiro poesia e contos. Mas não dispenso os outros gêneros. Sou compulsiva por livros, compro mais do que posso ler, em termos de tempo. Tenho livros na estante, no quarto, na sala de TV. Os livros ,assim como as plantas e gatos, são minhas paixões.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Jamais recebi um centavo com literatura. Mas ganhei amizades e experiências, além de um novo modo de ler o mundo, coisas que o dinheiro não compra. Sou professora da rede estadual e de uma universidade. Minha sobrevivência vem desses trabalhos.

Não penso em ganhar dinheiro com a escrita, mas tenho o desejo de que as pessoas conheçam meus rabiscos.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Escrever é um ato político. Mesmo que não levante bandeiras, o escritor é um ser político. Eu vejo política nos livros de autoajuda, nos livros infantis, nos eróticos e religiosos. Não falo de bandeiras políticas, mas do fato de que o ser humano é político por natureza.

Conheço poetas que são ativistas na escrita, que escrevem sobre temas emergentes como feminicídio, homofobia, racismo, miséria e sobre o contexto político atual no Brasil.

Minha escrita privilegia o universo do feminino em quase todas as suas vertentes. Por trás de toda pena literária deve haver chamas de um vulcão, um Galileu Galilei inconformado, uma Carolina de Jesus com todas as suas fomes e coragem.

A arte é um fenômeno político. Para o bem ou para o mal. Não podemos esquecer que o nazismo foi fundamentado na arte. O documentário “Arquitetura da Destruição”, do diretor Peter Cohen, deixa bem claro essa afirmação.

zanirato arquitetura.jpg

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

Em nenhum momento. Não me sinto escritora. Embora eu escreva cotidianamente. A questão de não ter livro editado talvez seja um dos motivos.

Quando fui finalista na edição do Mapa Cultural Paulista, minha irmã me disse: agora você é uma escritora! Mesmo assim não me convenci.

Preciso me enquadrar no meu conceito do que é ser escritora. Por enquanto digo que sou rabisqueira.

12- Existe espaço para sua poesia no mercado editorial?

Eu nunca sei se minha poesia está pronta para um livro. Não penso em publicar e depois ficar oferecendo para as pessoas comprarem. Eu não sei vender nem rifa! Não publicaria para satisfazer meu ego. Eu quero ter publico que goste do que escrevo.

13- Qual é seu projeto literário?

Lapidar minha poesia. Enveredar no campo do conto. Quando passar a pandemia quero levar poesia ao Abrigo de Idosos de minha cidade. Isso é um projeto já no papel.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Deixo uma poesia recente, confessional

Ensinamento pelos ossos

todos os dias

alguém entregava fios de cabelo

que eu perdia no caminho da escola

todos os dias eu sonhava com perucas

e dez quilos à mais

a anorexia me comia por dentro

e por fora

é câncer ?

é aids?

leite

água

era

o

que

descia

e minha filha pequena

aprendendo a contar

de um a cinco

em minhas costelas.

zanirato 2.jpg

Onde encontrar Angela Zanirato Salomão?

Facebook entre aqui.

Cinco poemas na revista Mallarmargens, leia-os aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Marcio Sales Saraiva