café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

O caminho esotérico da educadora e poeta Cristina Siqueira

Cristina Siqueira é educadora, escritora, poetisa e decoradora. Paulista, tem seu Ateliê em Tatuí, interior do estado de São Paulo, onde passa alguns meses do ano.Tem raízes aéreas em Trancoso e Sorocaba onde vivem seus filhos e netos. Tem seis livros publicados e é formada em Estudos Sociais e Pedagogia com especialização no Método Montessori. Fez parte como membro correspondente da Academia Sorocabana de Letras e ministra palestras sobre poesia, sensibilização e transformação social.


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Encerrando nossa primeira temporada (2020), o #cafépósmoderno recebe Cristina Siqueira que irá responder 13 perguntas.

1- Quando você começou a escrever?

Creio que fui seduzida pela escrita desde menina, tinha seis anos quando recitei na Rádio Difusora de Tatuí o poema “A flor do maracujá” de Catulo da Paixão Cearense. Estudei em escola pública, nesta época os professores do Instituto de Educação Barão de Suruí constituíam um grupo de professores devotados ao ensino. Fui privilegiada por uma boa escola e por pais leitores.

Senti a iluminação da leitura, descobri o gosto pela língua portuguesa, podia criar com palavras.

Estudei no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos de Tatuí, nesta escola me abri para a sinfonia do mundo e minhas mãos tentaram o piano que dedilhei mais para fazer cena, adorava me sentir pianista. Ficou o ritmo e o gosto musical que compartilhava com meu avô ouvindo árias de operas.

Casar e ser professora foi o destino romântico que vivi nesta época. Levada pelo gosto de estudar, busquei a filosofia pedagógica de Maria Montessori como um novo foco de vida, retifico minha consciência corporal, harmonizo a delicadeza dos gestos, adoto a gentileza como uma condição de valor. Pela iniciativa de Montessori iniciou-se um movimento social a favor da infância e este aspecto de sua pedagogia me cativou.

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Concursada no Estado de São Paulo ingresso no magistério. Muito chão de terra a caminho de escolas rurais. Aprendo a ser mãe, tempo de certo abandono de mim, trabalho e crio filhos.

Na década de 80 abri asas. Descubro a vida e quero viver. E vivi um Bar Teatro de nome Água na Boca em Beagá, Minas Gerais. Escrevo nas paredes. Escrevo um cardápio poético e por ele recebo uma Menção Honrosa da Academia de Letras de Belo Horizonte, foi um incentivo. A vida amplia seu sentido, o ritmo é alucinante, coordenar filhos, casa e espaço cultural se tornou coisa de Alice no País das Maravilhas. Escrevo rios, cachoeiras, amores e romances. Natureza que se derramava sobre meu coração que ardia. Tudo intenso, tenso, ensaio bom gosto em tudo que faço. A criação desvendava o mundo em toda sua ambigüidade. Vivo e morro a cada instante. Perdi todas as certezas e descobri em mim a fortaleza dos instintos generosos a capacidade imensa de amar, a liberdade, a coragem. Escrevo amor e riso, caminhos. Escrevo dor. Aprendo o prazer. Um onda musical toma conta de mim sou Rolling Stones, PinkFloyd um clipe sem resolução final. Passei a ser alérgica ao convencional, não dava conta de ser além de um dia e sua noite. Era a semana de Arte Moderna inteira em um só dia. Me demiti do emprego e com o dinheiro do fundo de garantia comprei a coleção de long plays do Queen e uma roupa caqui cheia de bolsos e zíperes, traje esperto para viagens.

Rock in Rio, Suiça e daí o mundo. Tinha pernas para a terra inteira, bebia sons, devorava livros.

Descubro Trancoso, na época uma praia deserta no Sul da Bahia, geração beat, hippie perfumada em patcholi, saias longas de muitos panos. Abro as claves do posso tudo. Em vida torno-me viva.

Viajo muito, Minas Gerais, Bahia, Sampa, Estados Unidos, Europa. Adquiro latinidade Buenos Aires, Cuba. Tenho uma loja de belezas e ando pelos lugares garimpando maravilhamentos. Passo pelo mundo da moda rico em linguagens da história do tempo, sedutor em encanto.

Em meados da década de 90 transformei minha casa simples em um ponto de brilho cultural. Tatuí, na época, era uma cidade de forte tendência à música, a poesia, a começar pelo escritor tatuiano Paulo Setúbal pertencente a Academia Brasileira de Letras e pelo plantel do Conservatório. Aos poucos fui criando movimentos culturais, agregando poetas, escritores, músicos e artistas. No rol, hóspedes traziam vivências de outros lugares e diversas formas de trabalho. Vivia de Arte pela Arte.

Viajo à Itália em busca das minhas raízes, escrevo nos trens, parques, nos jardins, nas bibliotecas. Em Taormina leio Goethe e Pirandello.

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Mudança de paradigma, torno-me transcendente, sou a roseira do quintal. Adentro coisas, casas e paredes, estudo decoração. Vivo de Arte. São Paulo exige esforço, estudos, dinheiro, metrôs e rodovias. Estudo e me inicio nas Artes Divinatórias, Runas, Tarô, Feng Shui, Reiki, Angelologia. Conheço Claudine Camas, mestra em cristais e juntas viajamos para Sedona nos Estados Unidos em uma viagem espiritual, escrevo um diário, “O livro Sagrado da Sacerdotisa”, adentro aos mistérios. Meditações do Osho com Gabriel Saananda e Avibasha. Sou a mulher que se fez pelos caminhos, o oculto não tem fim. Sou energia circulante. Crio o Espaço Santa Fé aberto à palestras, terapias, meditações e vivências.

Meus pais, após um longo período de despedida falecem no mesmo ano. Escrevo a dor. Sou a dor, cortada na alma. Sofremos juntos, eu e meus filhos.

Apenas sou.

Vida que segue.

Escrevo poemas mínimos e longos em produção acelerada, a poesia vai se transformando, entra pelos caminhos da tecnologia e depara-se com a criação dos homens robôs, sintéticos. É neste Universo que busco encontrar saídas, entrar na corrente veloz e voraz do que é ser humano e romper a dualidade com o insensível ser, não humano. Vivemos o caos e somos atacados por um vírus maldito que mescla todas as cruezas do mundo. Demos de cara com a morte. Neste período de pandemia trabalho à exaustão, abro todas as gavetas e me proponho a organizar meus escritos e um acervo de fotos, cadernos de originais e documentos do caminho.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Se considerarmos que escrever é um dom estaremos falando de uma qualidade inata que alguns desenvolvem com naturalidade e prazer. Então escrever é um dom, mas não só, é uma rendição. Uma expectativa constante, uma aspiração que se alimenta de muita leitura e gosto pelos livros.

É um ofício de fazer e refazer. Tenho a mente borbulhante, a alma contemplativa, a cabeça desmanchada, leve, e a coragem que me leva a renovar meu pacto criativo com a vida. Leio muito e de tudo. Transpiração só se for de prazer pela escrita. Sigo meus impulsos de vida. Este todo, tudo é minha substância construtiva. Tudo que me toca é poesia. Escrever é um súbito.

3- Quais os “clássicos” da literatura que você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Admiro a genialidade de Fernando Pessoa em seus desdobramento em heterônimos, Clarice Lispector por sua linguagem fluida e profunda, Manoel de Barros e seu estilo minimalista, a literatura mágica de Gabriel Garcia Marques, José Saramago, Mário Vargas Llosa, Carlos Castañeda, Virgínia Woolf, Ken Follett, Bob Dylan, Julio Cortázar, Thomas Mann, Adélia Prado, Wislawa Szymborska, Machado de Assis e recentemente li “O Homem que amava os cachorros” de Leonardo Padura e “Máquinas como eu” de Ian McEwan.

Muitos escritores influenciaram minha escrita, fui me fazendo deles em cada fase da minha vida.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

É muito difícil escolher entre os bons escritores e poetas que circulam no Facebook, mas acompanho e gosto da poesia de Lourença Lou, Luís Augusto Cassas, Maria Teresa Mascarenhas de Moraes, Agueda Magalhães, Elke Lubtiz, Cláudia Manzolillo, Marcus Mendonça Danin, Lucia de Moura Chamas, Iolanda Lucena, Chris Herrmann, Alberto Bresciane, Jose Couto, Ivy Menon, Angela Zanirato, Baltazar Gonçalves, Antônio Torres, Gouveia de Helias, Marco Antonio Guahyba Justo, Linaldo Guedes, Ricardo José Daiha, Lucia Dibo, Cely de Cecy, Flora Figueiredo, Lazara Papandrea, Lia Sena, Wander Porto, Adriane Garcia, Joca da Costa, Tuca Zamagna e Cesar Roberto Brixner, Carla Andrade. Passo boa parte do tempo no Facebook e vou encontrando pares que admiro.

Indico alguns autores que andam circulando pela minha estante, Mia Couto, Yuval Noah Harari, Leonardo Padura, Orhan Panuk, Haruki Murakami, Raduan Nassar.

cs lourença lou.jpeg 5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“Vida, Amor e Riso” do Osho. “A casa das Belas Adormecidas” de Yasunari Kawabata. E relendo “Haja Luz” da Fraternidade Branca e os livros da Ponte para Liberdade.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Sinto que publicar hoje não é o mais difícil, temos muitas e boas ofertas de editores que favorecem o que está surgindo agora e acompanham o trabalho da edição com profissionalismo e acolhimento aos poetas e escritores. Sigo o trabalho destas editoras, mas também considero sempre a possibilidade da publicação independente. Sinto dificuldade ao preparar o material para editar e valorizo os especialistas envolvidos em todo processo editorial desde o agente até a publicação e distribuição do livro físico e digital. É fundamental a figura daquele que acompanha o trabalho escrito com distanciamento crítico e imparcialidade. O surgimento de novas editoras pequenas favoreceu muito as publicações.

Livros Publicados

  • “Papel” e “A Carne da Noz” pela Editora Scortecci
  • “Livro de Rua” e “Por Trás dos Muros” (independente pela Lei Rouanet)
  • “Prisma” (independente através de crowdfunding)

Também tenho um CD (“Se houvesse amor a vida seria carícia”) independente, produzido em estúdio e com músicos do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos de Tatuí.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Na estante Virtual e na Livraria Saraiva é possível encontrar alguma coisa. “Papel”, “A carne da Noz”, “Prisma” e o CD (“Se houvesse amor a vida seria carícia”) é diretamente comigo.

Assino alguns blogs que estão pausados neste momento e faço publicações em notas e postagens no Facebook e Instagram. Tem também Revista Quaisquer dentre outras que não me recordo agora, além de entrevistas, poemas, crônicas em jornais e, recentemente, na Revista digital “Ser Mulher Arte”. Tenho alguns vídeos no Youtube e IGTV que foram publicados no Facebook e no Instagram.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Gosto de ler tudo. Tenho lá meus momentos de poesia e outros de prosa. Gosto de ler policiais, biografias, romances históricos e literatura esotérica. Poesia é a degustação de todos os dias. E os clássicos são os clássicos.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Para quem vê a poesia no ar diria que sobrevivo de vento.

Já tive trabalho formal. Durante 17 anos trabalhei na área de educação com muita dedicação e prazer, contudo meu espírito livre não se ajustou às exigências do casamento e ao compromisso formal de servir à educação acadêmica. Dei-me conta que queria viver mais e a vida passou a ser minha paixão correspondida. Ousei. O difícil não foi virar a mesa, mas mantê-la virada, segurando a onda na voz das próprias convicções. Passei por todas as faltas que a falta de dinheiro traz. Paguei todos os preços e fui me fazendo de rebeldia e marcando presença no mundo.

Inconstante na economia, eu já tive loja, espaço cultural, espaço místico, projetos literários que me mantiveram por um tempo.

Vivo de projetos de decoração, harmonização de espaços com técnicas de Feng Shui, desenvolvo projetos esporádicos, mas que me sustentam. Tenho uma rede de afetos com quem compartilhei a vida que estão sempre de portas abertas para me receber, assim viajo muito e vou escrevendo por onde passo. Quando em Trancoso trabalho com o Tarô Mitológico Grego, um trabalho que exige muita disposição energética, vivência, conhecimento e serenidade, é o que ofereço.

Hoje meus filhos são meus maiores patrocinadores, vibro alto com suas conquistas e sinto imensa gratidão pela família que construí e da qual me orgulho. Sou uma mulher de fé, de espiritualidade profunda, preservo valores de princípios familiares. Uso a minha bússola e respeito a natureza, meu altar, amo a sofisticação do simples. Amo estar em casa, meu todo, meu relógio sem ponteiros, meu agora.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sócio político. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Na política, hoje desacredito. Está caótica, uma monstruosa narrativa de fake news, um desserviço, pouco se salva. Máquina trituradora da escrita com opinião, embaralharam tanto as mentiras de todos os lados até o povo se perder da verdade. O poder e o povo a cada dia mais distantes. A miséria, a ignorância e o nada humano. Paz neste meio parece palavrão. A soberania de tudo lá e nada cá.

Sou observadora e analiso todo este movimento de disputa entre dinossauros caquéticos que ocorre no mundo. Em momentos desoladores chego a rir tal o tamanho dos disparates.

Sou pelas buganvílias, as tartarugas, os bichos do mangue, os pássaros livres de gaiolas e estilingues. Sou pelos cães. Sou pelo homem do campo, da cidade, dos astros.

Sou pela poética que revitaliza o ser humano, o faz crer na vida, lhe faz pensar, desenvolver o pensamento crítico e desperta a possibilidade de ser um ser consciente. Defendo minha posição humanista, espiritualista e cósmica. Penso em futuro, felizes os que vierem depois de nós para colher o que plantamos ou não. Sempre é hora da boa semente.

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11- Em que momento da vida você sentiu... Eu sou escritora!

A primeira vez foi quando o escritor Caio Porfírio de Castro Carneiro, vencedor do Prêmio Jabuti em sua 17a Edição, presidente administrativo da União Brasileira dos Escritores (UBE), prefaciou meus primeiros livros “Papel” e “A carne da noz”. Parece que ele me autorizou a me sentir poeta.

Depois, por ocasião do Projeto “Livro de Rua” que reúne uma série de cartões postais (poesia que voa) que foi o que resultou de poemas escritos pelos muros da cidade de Tatuí.

O livro “Prisma” foi uma celebração. Neste trabalho, a cidade interagiu através de entrevistas semanais publicadas no jornal “O Progresso” (Tatuí) onde trabalhei como articulista durante 10 anos. Sendo “easy rider”, coletei a fala de pessoas comuns e figuras públicas de Tatuí e do Brasil compondo este Prisma, o reflexo de luz de cada um. Levava a coluna jornalística na mala. Este trabalho culminou em um super evento, com noite de autógrafos concorrida, onde todos brilharam e veio gente de todos os lados do Brasil e do mundo.

Às vezes em que me senti escritora foi através da resposta do povo, de todas as classes sociais, desfrutando juntos os frutos da poesia.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Marcio, você fez perguntas que esperava que alguém me fizesse um dia, principalmente pela fase de vida em que me encontro hoje. À você minha gratidão pela disponibilidade generosa de produzir este trabalho que, sei, exige muito do entrevistador.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Ainda este ano seria impossível, pois já estamos finalizando 2020, um ano imprevisível. Aproveitei o largo tempo da pandemia e o confinamento para organizar todos meus escritos, fotos, documentos. Um trabalho insano, mas necessário para entender um panorama total do que fiz até hoje. Agora já finalizando penso em editoras para os próximos livros.

Tenho um projeto grande que vem se arrastando faz tempo e que pretendo concretizar em 2021.

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Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”.

Um ser isento

  • Não sei nem mais porque como
  • só pelo hábito de viver talvez
  • prefiro olhar a luz do prisma
  • correndo pela janela
  • quero me manter de cor
  • comer a luz do sol
  • morar dentro de arvore
  • banhada em água
  • exalada em suor
  • rico em sais
  • cais de mim
  • meu alimento
  • auto sustento
  • vacinada com o ar
  • contra a fadiga
  • amiga de borboletas
  • joaninhas e formigas
  • um ser isento.

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Sol na noite escura

  • Naquele dia tudo era ouro
  • O sol nascente
  • O loiro trigal
  • Nuances de vento
  • Mesmo de ponta cabeça
  • Tudo estava perfeito
  • Num mundo redondo
  • Tanto faz
  • ter a cabeça lá em cima
  • ou cá embaixo
  • Segurava ela
  • a mão do filho
  • queria lhe dar o sol
  • aliviar com o trigo
  • Sua sede de fortuna
  • Acordá-lo
  • Depois da partida das estrelas
  • Apagar a sombra
  • Acender a luz
  • Mas nada
  • Nada mesmo
  • o tirava daquele torpor infinito
  • daquela dor de não sei onde
  • Difícil chorar
  • disseram que homem
  • não chora
  • Ele em si
  • era o mergulho
  • em sinuoso abismo
  • Com lacre para milagres
  • Difícil estava viver
  • O homem partido em dois
  • O que ia
  • O que ficava
  • Ela tentava
  • e de nada lhe adiantava
  • esticar o cordão umbilical
  • e com jeitinho
  • Dar um laço
  • O colo
  • Um abraço
  • Seu rosto
  • Vincado de cansaço
  • A mãe
  • no querer
  • de um novo parto
  • Do profundo
  • queria trazer o filho
  • sem dor
  • com sentido
  • para um novo mundo
  • Não há amor que resista
  • ao imperativo
  • do monstro cruel
  • Devorador do sol
  • do trigo
  • do calor
  • Ela, mãe
  • emana em luz
  • a crença no possível
  • Dá-lhe a mão
  • A chama do coração
  • A própria vida
  • E pouco a pouco
  • Ela se funde ao filho
  • Louca de amor
  • Forte em fé
  • lhe oferece cores
  • em doses miúdas
  • Abre a janela do quarto
  • E ouve o que ele diz:
  • - olhe mãe, hoje tem sol.

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Onde encontrar Cristina Siqueira?

Facebook entre aqui.

Instagram: @cris_luz_siqueira

Youtube entre aqui.

Cinco poemas de Cristina Siqueira na Ser Mulher Arte. Leia aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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