café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

O cosmopolitismo do escritor norte-rio-grandense Theo Alves

Vencedor do Prêmio Nacional Ignácio de Loyola Brandão de Literatura, o norte-riograndense Theo G. Alves é poeta, contista e fotógrafo. É autor de “Loa de pedra” (poesia), “A casa miúda” (contos), “Pequeno manual prático de coisas inúteis” (poesia e contos) e “A máquina de avessar os dias” (poesia). Em 2018 publicou “Doce azedo amaro” (poesia) e agora “Por que não enterramos o cão?” (contos).


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Theo Alves que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei a escrever poesia nos primeiros anos da adolescência. Era um jovem leitor ávido e instintivo, que gostava do som das palavras e das possibilidades de combiná-las de maneira diversa.

Só alguns anos depois comecei a escrever prosa. Lembro-me de quando senti a necessidade de escrever assim pela primeira vez: depois de ver Julieta dos Espíritos, filme de Fellini, e me ver completamente tomado pelo deslumbramento que aquela experiência tinha me provocado, vi surgir a necessidade avassaladora de criar imagens. Como não era possível fazer isso de nenhuma outra forma, só me restaram as palavras e comecei a escrever para atender a minha incompetência de criar imagens.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Olavo Bilac entendia o poeta como um ourives, um sujeito bafejado pelas musas e que era capaz de produzir pequenas joias com as palavras. Eu nunca fui bafejado por musa alguma e morro de inveja de quem é. Muito menos faço joias com as palavras. Eu encontro minhas palavras abandonadas em monturos ou no meio das bocas de muita gente, eu lido com os nervos do entulho, como dizia o poeta José Gomes Ferreira.

Eu trabalho muito para escrever. Não sou um engenheiro das palavras como João Cabral de Melo Neto. Antes disso, sou um peão, um pedreiro, na melhor das hipóteses um mestre de obras que luta todos os dias para vencer a incapacidade e a morte por sufocamento das palavras.

Eu vejo as coisas, o mundo, o que é miúdo, que não faz brilho nem grandiosidades, as pessoas dedicadas ao silêncio e a partir disso componho o que preciso. É a vida miúda e a arte feita pelos outros que me provocam, que me convidam a escrever. Toda a minha vida é um chamamento do que está ao meu redor.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Eu gosto e leio muitas coisas. As primeiras leituras, que foram fundamentais para encaminhar meu amor pelas palavras, foram formadas por André Gide, Fernando Pessoa, Machado de Assis e Jean Genet. Depois fui me encantando com outras figuras, como Kafka e Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, Drummond e Manoel Bandeira. Mais tarde ainda vieram cometas como Orides Fontella, Hilda Hilst, Valter Hugo Mãe, Manuel António Pina, Alberto Bresciani e muito especialmente Juan Rulfo... e há um grande interesse meu em outras áreas fora da arte literária como a sociologia, por nomes como Byung Chul Han e Richard Senett, além de leituras de pensadores indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Entre os contemporâneos, o americano Jonathan Safran Foer, o português Valter Hugo Mãe e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche e os brasileiros Alberto Bresciani, Ricardo Terto, Cinthia Kriemler, Adriana Gama de Araújo, Viviane Santiago, Luiz Ruffato, Cristóvão Tezza, Iara Carvalho, Wescley J. Gama, etc.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Eu leio um monte de coisas ao mesmo tempo. E embora isso possa parecer dispersão, não o é. É mesmo um sentimento de avidez pelas coisas. Acabo de terminar o belo “As Dez Marias”, de Viviane Santiago. Também estou lendo/contemplando o belíssimo livro de fotografia de Claudia Andujar chamado “A Luta Yanomami”, além dos ensaios de “Silêncio”, de John Cage.

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6- O que você já publicou até aqui?

Oficialmente eu publiquei os livros de poesia “Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis” (2009), “A Máquina de Avessar os Dias” (2015) e “Doce Azedo Amaro” (2018). Acabo de lançar um livro de contos chamado “Por que não enterramos o cão?”, pela Editora Patuá. Quando digo “oficialmente” é porque antes destes havia lançado alguns livros artesanais uns poucos anos antes: “Loa de Pedra” (poesia) e “A casa miúda” (contos). Além deles, participei de algumas coletâneas e antologias de contos e poemas.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Eu adoraria poder sugerir começar pelo “Pequeno manual prático de coisas inúteis” e vir seguindo a cronologia das publicações, mas esse e o segundo livro estão esgotados. Então é possível começar pelos livros mais recentes, “Doce azedo amaro” na poesia e “Por que não enterramos o cão?” na prosa.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Eu sou um leitor de muita coisa e as preferências não se dão em gêneros para mim. Eu gosto de bons livros sejam do que for. Na contabilidade final, acho que leio mais prosa do que poesia, mas tudo muito parelho.

Quanto a escrever, sou um poeta mais frequente do que prosador, ainda que nos últimos anos tenha me dedicado aos dois com quase a mesma frequência.

Enquanto vou publicando livros, sigo trabalhando em aventuras diferentes, por isso já há um livro de poemas pronto para ser lançado em 2021 ou 22, a depender do mercado, de editoras e coisas assim. E também tenho trabalhado em outras linhas que ainda não chegaram ao ponto de serem mencionadas.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Eu sonho diariamente em pagar boletos usando literatura. Cheguei a me decidir por parar de escrever há algum tempo porque não conseguia mais admitir que a literatura fosse um trabalho tão exaustivo sem remuneração alguma. Me dói muito pensar no fazer literário como um hobby elegante de um homem nordestino de classe média.

Acabo precisando relegar a literatura para os intervalos dos trabalhos que me pagam as contas como servidor público e professor de língua portuguesa, inglesa e literatura.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Eu só consigo conceber a arte como manifestação humana, portanto social, histórica e política. Mesmo que não seja panfletária, a literatura é sempre política. Esquivar-se da política, inclusive, não deixa de ser uma postura.

Escrever sobre o mundo, sobre pessoas, os acontecimentos é uma escolha artística política.

Se eu escrevo sobre um homem consumido pela depressão, incapaz de lidar com o tempo e com o trabalho, com a vida cotidiana, estou escrevendo sobre o mundo absurdo que criamos e isso é política.

Essa história de poeta alheado pela arte não me conforma. Eu detestaria fazer qualquer coisa que me despisse do papel de cidadão e se compreendo a arte como ferramenta de sentir, de refletir, não tenho como me furtar à política.

Quem quiser mentir, que minta. Eu sou político mesmo quando pareço não falar de política.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Creio que tenha sido quando comecei a ser lido. No começo dos anos 2000, eu tinha um blog em que publicava pequenas histórias que escrevia nos períodos de ócio no meu emprego à época. Esse blog se chamava O Centenário e era quase uma brincadeira, mas ele começou a angariar leitores pelo país a fora e me rendeu amigos e leitores que seguem fiéis e queridos até hoje.

O blog teve um alcance interessante até que me cansou e desisti dele. Mas ali eu já entendia que era um escritor, ainda que pouco lido, que escondido numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, eu era de fato um escritor.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Eu gostaria muito de falar longamente sobre fotografia, sobre culinária, sobre o que representam os sonhos para a nossa cultura, sobre como o trabalho nos escraviza e não nos dignifica neste modelo que temos. Mas acho que todas as perguntas foram muito pertinentes e precisas sobre literatura e fico muito honrado em poder respondê-las.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Neste ano tão estranho, quero dedicar estes últimos meses à divulgação do meu livro novo de contos, chamado “Por que não enterramos o cão?” Sou paciente e não gosto muito de misturar as coisas.

Para 2021 tenho um livro de poemas inédito e que ainda não tem editora. Enquanto isso, sigo produzindo. Há alguns projetos com fotografia, que é uma das coisas que mais me encantam na vida, para depois da pandemia, se ela um dia terminar por aqui. Há também outras coisas com literatura, mas como são ainda muito embrionárias, convém esperar antes de falar sobre elas.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria:

Este é um trecho do conto que dá nome ao meu último livro.

por que não enterramos o cão?

quatorze foram os anos em que ela esteve em nossa companhia. nos últimos meses, o peso de seu corpo parecia maior que a disposição de suas patas e deitava-se por toneladas sob a goiabeira. a coleira e a corrente a limitarem-lhe os movimentos e o sol a castigá-la sobre o pelo. deixou-se morrer mais do que morreu. cansou-se e foi parando de funcionar aos poucos, como um relógio a definhar cada vez mais lentamente às últimas voltas da corda. não se levantou mais. e só descobrimos sua morte após dois ou três dias, a julgar pelo cheiro e pelas moscas que se começavam a juntar. quatorze anos findos sem dignidade. ao menos, arrefecia-me o peso da culpa pensar que os cães não se importam com dignidade e a vida divide-se em estar vivo ou não. invejo os cães que vivem sem arrastar o peso do passado e sem antecipar a apneia do futuro. depois de quatorze anos, o cão estava morto e isso era tudo. o vizinho encarregou-se de levá-la até a ponte e deve tê-la lançado de cima para o matagal e a pouca água que por debaixo dela corria. depois de quatorze anos, o cão estava morto e não lhe demos minimamente um enterro. a coleira continuava presa ao pé-de-goiaba que já não dava frutos. haveria morrido com o cão? no entanto, esta não era a pergunta. não é ainda o que me pergunto. mas por que não enterramos o cão?

por que não enterramos o cão?

empurro a ossatura do hipopótamo sonolento sobre a cama até que ele esteja de pé, mesmo ainda pouco firme e nada consciente. conduzo-o até o chuveiro, mas sua pele parece impermeável, grossa e bruta como remendos em uma lona de caminhão. os comprimidos ainda não acordaram o animal, que se veste lenta e pesarosamente como quem se apronta para o enterro do pai. desce as escadas lentamente, cansado, sufocado pela tira gasta de sua coleira e o peso das correntes que o atavam ao pé-de-goiaba, sob o sol escaldante de uma cidade feita só de limites e memórias, mais pesada e cansada que o hipopótamo atado.

por que não enterramos o cão?

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Onde encontrar Theo Alves?

Facebook, entre aqui.

Instagram: @theoalvesphoto

E-mail: [email protected]

Site, entre aqui.

Para comprar “Por que não enterramos o cão?” entre aqui na Editora Patuá.

Para comprar “Doce azedo amaro” entre aqui na Editora Moinhos.

Os livros podem ser comprados na Amazon.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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