café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“O engajamento do escritor é com a palavra”, diz o poeta Luiz Otávio Oliani

Formado em Letras pela UFRJ, o poeta carioca e professor de literatura Luiz Otávio Oliani recebeu recentemente o Prêmio Nelson Rodrigues (UBE/RJ) pelo seu livro de contos “A vida sem disfarces” (Editora Personal, 2019) e o Prêmio Zora Seljan por conta de seu livro de poemas “Palimpestos, outras vozes e águas” (Penalux, 2018). Em breve irá lançar seu 15° livro. Conheça-o mais nessa entrevista.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebeu Luiz Otávio Oliani que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei a escrever na infância. Semanalmente, o pai comprava gibis para mim; a madrinha me presenteava com livros diversos e minha avó paterna me deu, aos seis anos de idade, a coleção completa dos Irmãos Grimm. Ela lia as histórias para mim. Foi ela também quem me apresentou a Monteiro Lobato. Naquela época, iniciei os rascunhos dos primeiros textos, por volta de nove, dez, onze anos. Escrevia em prosa e usava cadernos diversos. Mais tarde, passei a utilizar uma máquina de escrever da minha mãe, uma Olivetti. Produzia contos, novelas e esboçava alguns poemas. Minha avó gostava de ouvir o que eu escrevia, afinal eu lia os textos para ela, até o dia em que brigou comigo por discordar de um capítulo de uma novela, na qual havia uma cena de um casamento e outra de um despejo. Lembro que chorei, quis rasgar os textos todos, mas minha mãe impediu e eu nunca mais li nada para minha avó, que faleceu sem saber que eu continuava escrevendo.

No colégio, tive excelentes professores de Português e Literatura e presto homenagens a essas referências em minha vida literária: Lena Jesus Ponte e Claudia Manzolillo, ex-professoras do Colégio Pedro II, onde estudei, e também escritoras, que muito me influenciaram no estímulo para literatura. Cheguei a participar de oficinas de poesia com Lena Jesus Ponte e venci concurso de poemas e de crônicas no CPII. Um pouco antes de fazer o vestibular, conheci a escritora Teresa Drummond, em 1997, e participei da oficina de poesia ministrada por ela, durante cinco anos. Foi uma atividade fundamental para aprimorar meus conhecimentos sobre a arte poética.

Cursei Letras na UFRJ e já participava das reuniões do POETA SAIA DA GAVETA, evento criado em 1993 e comandado até hoje pela fundadora, Teresa Drummond, e pela coordenadora, Neudemar Sant´Anna. Trata-se de um encontro mensal aberto para os amantes da literatura, da música e das artes plásticas. Ocorre no Restaurante Casa do Bacalhau, Rua Duas da Cruz, 426, Méier, Rio de Janeiro. Mas, com a pandemia da Covid-19, foi interrompido, ocorrendo apenas virtualmente.

A partir de então, circulava pelos eventos do Rio de Janeiro. Depois, alcei voos aos outros estados e ao exterior, tudo para divulgar minha obra em curso.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Escrever é uma vocação, um dom com o qual algumas pessoas nascem. Não se fabrica um escritor. Não se produz um escritor. Assim como há quem tem habilidades para a música, a dança, o esporte, entre outras áreas. Por isso, se alguém tem a habilidade natural ao ofício da palavra, deve desenvolvê-la com muita leitura e escrita. Será necessário se dedicar integralmente, ou boa parte do tempo, à atividade para a qual se destina, senão tudo penderá ao fracasso. Um escritor necessita de muita leitura, tem de ser um curioso, um interessado em tudo. Ler muito é fundamental para escrever bem. Quem não lê tem dificuldades de expressão oral e escrita. E é preciso escrever e muito. Escrever, escrever, escrever, reescrever, reescrever, pois só com a prática terá condições de produzir uma obra literária e, posteriormente, publicá-la, afinal nem tudo o que se escreve é publicável. O texto precisa sempre de uma maturação, tal qual um bom vinho.

No que se refere ao processo da criação artística, há um mistério sobre a inspiração. No meu caso pessoal, escrevo movido por algo indefinido. Às vezes, uma palavra; uma cena que visualizo; uma imagem; um verso; qualquer situação pode me inspirar e aí escrevo um poema, um conto, ou outro gênero. Pode ocorrer de um poema sair pronto, sem que necessite de modificações, mas isto é raro. Na maioria das vezes, a transpiração se faz necessária. É o ato de polir o texto e, aqui, termino por me identificar com o eu lírico do poema “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, no qual fica evidente o trabalho do poeta, comparado ao ourives, porque há a declaração de que “Torce, aprimora, alteia, lima/ A frase”, isto porque é preciso trabalhar a palavra com exaustão, para que traduza o real efeito desejado pelo escritor.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Se me permite, mesmo correndo risco de omissões, valorizo apenas a prata da casa. Dos romancistas brasileiros, cito meus clássicos: Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, embora confesse, aqui, minha predileção por todos da geração de 1930; dos poetas, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecilia Meireles , João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar e, no conto, Rubens Fonseca e Dalton Trevisan, os melhores!

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Destaco aqui uma tríade de nomes talentosos, os quais se dedicam à poesia e à prosa, com incursões na crítica literária, no ensaísmo, percorrendo também outros gêneros: Igor Fagundes, Alexandra Vieira de Almeida e Diego Mendes Sousa. Representam, portanto, o que há de melhor na literatura brasileira hoje. Além de escritores exponenciais, são meus amigos e meus contemporâneos.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Destaco três contistas fenomenais e respectivas obras de cabeceira, no momento: “Deus não protege os certinhos & outros contos impuros”, de José Eduardo Degrazia, Penalux, 2020; “Espantos para uso diário”, de Mário Baggio, Editora Coralina, 2019 e “À flor da pele”, de Krishnamurti Goés dos Anjos, Laranja Orginal, 2020. Cada um com um estilo muito particular, mas grandes contadores de histórias, brilhantes! Na poesia, estou lendo “Envolver na criação (45 poemas preferidos do autor)”, de Rogério Salgado, Editora Costelas Felinas, 2020 e “Hidrovião”, de Alberto Bresciani, Patuá, 2020; isso sem contar outros títulos aqui.

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6- O que você já publicou até aqui?

Até o presente momento, publiquei 14 livros, sendo 10 de poemas, 3 peças de teatro e um 1 livro de contos: “Fora de órbita”, Editora da Palavra, Rio de Janeiro-RJ, 2007; “Espiral”, Editora da Palavra, RJ, 2009, "A eternidade do dias”, Multifoco, RJ, 2012; “Entre-textos”, 2013, Prêmio Vicente de Carvalho, concedida pela UBE / RJ (2014); “Entre-textos 2”, 2015; “Entre-textos 3”, 2016, Vidraguás, Porto Alegre / RS; “A vertigem da horas”, Belém, Pará, PA, 2016; “A persistência da memória”, Oficina, RJ, 2017; “Tríade”, em coautoria com Cláudia Brino e Vieira Vivo, Editora Costelas Felinas, São Paulo 2017; “Triste Fim de AHFT” (teatro), em coautoria com Maria Rosa César, Editora Costelas Felinas, SP, 2017; “Over the smile of death” (teatro em inglês), Editora Costelas Felinas, São Paulo 2017; “Com a mão na botija” (teatro), Editora Costelas Felinas, SP, 2017; “Palimpestos, outras vozes e águas”, Penalux, São Paulo, 2018,Prêmi o ZoraSeljan, UBE / RJ, 2018 e “A vida sem disfarces” (contos), Editora Personal, RJ, 2019, Prêmio Nelson Rodrigues, UBE/ RJ .

Também já participei de mais de 200 livros coletivos nacionais e estrangeiros como poeta, cronista, contista ou autor de prefácios, orelhas, resenhas críticas, depoimentos e notas. Tive textos publicados em mais de 600 jornais, revistas, alternativos e periódicos, institucionais ou não: Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional; Revista da Academia, da Academia Brasileira de Letras, ABL; Jornal Rascunho; Revista do Escritor Brasileiro; Revista Renovarte, UBE; Revista Poesia para Todos; Jornal de Letras; O Capital; Revista Literária Plural; O Bembé m; Gent e de Palavra; Poesia Viva; Letras em destaque; Panorama; Literatura & Arte; Correio de Poesia; Jornal Rio e Letras; Sulfato Ferroso; Literarte; Revista O Grito; Leiamigos; Jornal Maringaense; Radar; Jornal O Nheçuano; O Literário; Jornal Calçadão Ideal; Notas Literárias; Liriconcreto; Revista Papangu; A Tribuna do Escritor; Jornal Tipo Carioca; Papo & Poesia; Momento de Pausa; Jornal O Sábio; Boca Suja, Contagia Poesia; O Mundo não me entende; Jornal A Cidade; Diário da manhã; Revista do Grande Meyer; Bali / Letras Itaocarenses; O Boêmio; Jornal A Voz; Nozarte, Poetizando; Jornal do Enéas; Correio do Sul; APPERJ; Revista Ponto Doc; Jornal Cultural Mensageiro; Escritos, SPN; Revista Renovarte; UBE, Revista Literária Plural; Jornal de Poesia / Revista Agulha; Letras Santiaguenses; Nikkei Bungaku do Brasil; O Bembém; ArtPoesia; Manuelzão; Revista Z; Revista Expressões, entre muitas outras. Consto, ainda, em inúmeros blogs e páginas virtuais e tive poemas vertidos para algumas línguas.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Como já publiquei dez livros de poemas e alguns títulos se esgotaram, pretendo compilar, em breve, minha obra poética. Por isso, por enquanto, a quem tiver interesse, sugiro o meu livro de contos “A vida sem disfarces”, Personal, 2019. Trata-se de obra que recebeu o Prêmio Nelson Rodrigues, União Brasileira dos Escritores, Rio de Janeiro, no mesmo ano. O livro teve prefácio de Tanussi Cardoso, orelha de Cairo de Assis Trindade e coordenação editorial de Daniel Trindade. Faço uma ressalva, aqui, de que este volume foi publicado depois que passei a frequentar uma oficina promovida por Cairo Trindade. Nela, estudávamos o conto, trabalhávamos o conto, isto porque as oficinas de literatura não ensinam ninguém a escrever, apenas fornecem subsídios técnicos, para que os interessados se dediquem com mais afinco à arte da palavra. Afinal, o estudo é fundamental para o aprimoramento intelectual em qualquer atividade.

Também indico o livro de poemas “Palimpsestos, outras vozes e águas”. A obra foi publicada em 2018 pela Editora Penalux. Teve orelhas de Adriano Nunes, prefácio de Diego Mendes Sousa e quartacapa de Antonio Carlos Secchin. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Zora Seljan, União Brasileira dos Escritores, Rio de Janeiro.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Tudo, mas há um momento específico para escrever um poema, conto, romance ou crítica literária.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Minha formação acadêmica é em Letras e Direito. Meu cotidiano profissional é dedicado integralmente ao trabalho com a palavra. Sou professor do vernáculo e leciono Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Produção Textual, Leitura, Compreensão de Texto em diversos estabelecimentos de ensino, entre os quais o Colégio EME, em Nova Iguaçu e o PVCSJ (Pré-vestibular comunitário São José, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, onde pratico o voluntariado há muitos anos). Ministro aulas particulares e trabalho em editoras, prestando serviços avulsos de revisões de texto em livros, dissertações, teses, entre outros materiais. Também escrevo profissionalmente prefácios e resenhas de livros, além de me dedicar à criação de minha obra literária.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Toda arte é política no sentido pleno da palavra. Não há como escrever um livro desvinculado de um tempo histórico e de uma sociedade na qual se insere. Por isso, a palavra é uma arma que tanto pode ser usada para bem ou para o mal, como se lê no meu poema “Lição:” “a força da palavra / está na adaga /que me assassina //a força da palavra /está no punhal /que me trespassa //a força da palavra /está no revólver /que me liquida // a força da palavra /está no canivete /que me sangra // a palavra / dispensa artefatos de fogo /armas brancas /qualquer utensílio /que cause dor//a palavra /também / é flor / exige apenas / sabedoria /de quem a usa”. Por todo o exposto, o engajamento do escritor é com a palavra e, por meio da literatura que produz, pode escrever sobre qualquer tema.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Conforme já dito, a paixão pela literatura começou na infância, assim como o ato da escrita, seguido por um desejo de publicar. Dessa forma, todo o caminho a seguir confirmou minha trajetória como escritor.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Nada a declarar, a entrevista foi ótima.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Próximo projeto literário? Eu tenho inúmeros projetos em andamento: livros de contos, poemas, crítica literária e ensaio, literatura infantil, um romance em andamento e muito mais. Só que prefiro não divulgar os nomes dos livros novos, tão logo venha a lançá-los. Trata-se de um resguardo que crio em relação ao que escrevo. Em breve, lançarei o meu 15º livro que foi postergado em virtude da pandemia, o segundo título de contos.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Seguem dois contos do livro “A vida sem disfarces”, Rio de Janeiro, Personal, 2019.

RECEPÇÃO DE REI

O ladrão teve muita sorte ao entrar naquele palacete. Foi recebido com três tiros. Morreu sobre um tapete persa.

UM GESTO DOCE

Na loja de doces, o menino esconde um sonho no bolso. Ao sair, dá de cara com o dono do estabelecimento que o olha firme. Julgando-se descoberta, a criança retira o sonho do bolso. Diz que o tinha esquecido ali.

O velho sorri. Faz de conta que me engana...

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Onde encontrar Luiz Otávio Oliani?

E-mail: [email protected]

Facebook: luizotavio.oliani

Instagram: @luizotaviooliani

Você pode adquirir os livros diretamente com o escritor.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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