café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“O mundo seria intragável se a arte fosse apenas bibelô estético“, polemiza Chris Herrmann

A escritora Chris Herrmann foi marcada pelos livros ”Perto do coração selvagem“ e “A hora da estrela” de Clarice Lispector, “Os Corvos” de Allan Poe, “Os miseráveis” de Victor Hugo e pelos poemas de Ana Cristina Cesar, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Fernando Pessoa. Conheça um pouco mais sobre esta brasileira versátil residente na Alemanha.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Chris Herrmann que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Costumo dizer que já nasci escrevendo. Na verdade, com a idade de três anos e meio, comecei a escrever pelas paredes da nossa casa. Quando meus pais viram, quase infartaram! Quando pequena adorava ler e escrever. Foi quando comecei a escrever poemas, mas eram só para mim. Com o tempo, foi tudo para o lixo. Na adolescência foi quando comecei a ter a noção de que escrever não era apenas um desabafo, mas algo mais profundo. Assim também foi com a leitura. Fui me interessando mais e mais. Minha mãe foi artista plástica e curadora de eventos artísticos no Rio de Janeiro, e na idade de 18-19 anos, aproximadamente, ela me incentivou a guardar e organizar meus poemas para participar de uma exposição mista de artes. Meus poemas foram espalhados pela exposição e teve uma excelente resposta dos visitantes. Um de meus poemas era em homenagem ao Raul Seixas e a irmã de criação dele, na época, visitou a exposição e fez questão de me conhecer. Eu senti aquele momento como um sinal de que eu estava no caminho certo e que um dia seria uma escritora ”de verdade”, e não apenas nos meus sonhos.

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2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Eu acredito que temos algo a mais dentro de nós que colabora sim. Mas sem a leitura e a transpiração, não há inspiração que se sustente sozinha. Eu sempre fui muito curiosa e inquieta em todos os projetos dos quais me dediquei. No caso da escrita, me decidi ainda muito cedo que, ou seria professora ou escritora, ainda que trabalhasse em outras áreas simultaneamente. Além de estudar Letras (UFRJ) e Música (CBM), estudei línguas (Oxford, VHS e autodidata) e diversos cursos a nível técnico, como telex, programação Basic, marketing (ESPM), administração básica (FGV), taquigrafia, estenografia, webdesign (Unicarioca) e outros. Quando vivia no Rio de Janeiro, trabalhei como professora particular de português, piano para crianças, secretária bilíngue e tradutora. Na Alemanha trabalhei com traduções, webdesign, design gráfico e musicoterapia. Paralelamente, escrevia muito e depois do “boom“ da internet, eu já vivia na Alemanha. Em 2001, comecei a escrever em blogues, participar e organizar antologias. Mas somente em 2009 publiquei o meu primeiro livro solo de poesia - uma coletânea de haicais.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Foram muitos os livros que me marcaram. A lista é grande, mas citarei alguns. De quando eu era criança, destaco “O menino do dedo verde“, “O pequeno príncipe“, “O meu pé de laranja lima“ e “Os meninos da rua Paulo”. A partir da adolescência, li muitos livros de poemas e romances, tantos nacionais, quanto os traduzidos. Clarice Lispector, por exemplo, exerceu uma forte influência sobre a minha escrita. Eu amava a forma como ela mergulhava em seus personagens femininos. Destaco ”Perto do coração selvagem“ e “A hora da estrela”. Amei ler “Os Corvos”, de Allan Poe.

Um livro que me tocou profundamente e me fez refletir muito sobre a política e as injustiças sociais foi o romance “Os miseráveis”. No gênero poesia, destaco “A teus pés“ de Ana Cristina Cesar, “Antologia poética“ de Drummond, “Cânticos“ de Cecília Meireles, ”Poemas completos de Alberto Caeiro”, de Fernando Pessoa.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

A lista de escritores da atualidade que admiro é imensa, tanto na leitura que fiz em livros, quanto nas mídias eletrônicas. Mas citarei alguns nomes de mulheres e homens de quem já sou fã: Rosângela Vieira da Costa, Líria Porto, Adriane Garcia, Henriette Effenberger, Maria Valéria Rezende, Micheliny Verunschk, Gisele Mirabai, Adri Aleixo, Lia Sena, Adrienne Myrtes, Kátia Borges, Lázara Papandrea, Valéria Tarelho, Amanda Vital, Marília Kubota, Cinthia Kriemler, Tadeu Sarmento, Wanda Monteiro, Paulo Pignanelli, Nuno Rau, Alexandre Guarnieri, Leila Míccolis, Maya Falks, Divanize Carbonieri, Nic Cardeal, Esther Alcântara, Luh Oliveira, Claudia Manzolillo, Mara Magana, Claudia Gonçalves, Roberta Gasparotto, Tere Tavares, Silvana Conterno, Ádlei Carvalho, Wander Porto, Sonia Nabarrete, Vera Molina, Marcia Denser, Marcia Barbieri, Nara Vidal, Mariana Basílio, e muitas outras e outros!

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo o rascunho de uma obra poética belíssima que será editada em formato digital em Setembro pelo selo da Revista Ser MulherArte (do qual sou editora), mas ainda não posso revelar o título. Estou gostando muito porque é de uma poeta que eu já conheço o trabalho e sempre admirei seu talento.

6- O que você já publicou até aqui?

Começarei pelos livros solos que lancei:

  • 1. Voos de Borboleta, coletânea de haicais - Protexto, 2009 (impresso)
  • 2. Na Rota do Hai y Kai, haicais com ilustrações do artista plástico chileno Leo Lobos – Tubap books, 2015 (digital)
  • 3. Voos de Borboleta 2ª ed. – Tubap books, 2015 (digital)
  • 4. Gota a Gota, poesia – Scenarium, 2016
  • 5. Borboleta – a menina que lia poesia, romance – Patuá, 2018
  • 6. Cara de Lua, poesia – Sangre editorial/Mulheres emergentes, 2019
  • 7. Peccatum, romance – Arribaça, 2020
  • 8. Entre Amoras e Amores, minicontos – Ser MulherArte Editorial, 2020

Antologias impressas das quais apenas participei foram muitas: da ASES (Bragança); várias do Congresso Brasileiro de Poesia, várias do Mulherio das Letras (poesia e prosa) e outras diversas no Brasil e no exterior (Portugal, Espanha e Estados Unidos).

Antologias de poesia nas quais trabalhei na organização e também participei como autora:

  • 1. Poetas do Café (várias edições), em parceria com o Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves, nos anos de 2006 e 2007.
  • 2. Trovadores Noturnos, também em parceria com o Congresso.
  • 3. Pássaros Poetas, idem acima.
  • 4. Sobre Lagartas e Borboletas, 1ª ed. Digital, Tubap books, 2014. 2ª edição impressa com a Scenarium.
  • 5. Porque Somos Mulheres, do selo Ser MulherArte Editorial, 2020 (digital)

Tive diversos blogues onde escrevia em prosa e poesia solo ou em parceria e também publicava outros autores, como o meu pessoal (que ainda escrevo); Boca a Penas e Tempestade Urbana (em parceria com Adriana Aneli); O Ícaro e a Borboleta (em parceria com o cantor e poeta Byafra); Nosso Haikai (em parceria com Jiddu Saldanha); Trovadores Noturnos, Pássaros Poetas, Café Filosófico Das Quatro (começaram em forma de comunidades virtuais, passaram para blogues e, por último, livros impressos).

Na minha primeira coluna online no portal Blocos Online, publicava tudo sobre arte que coletava de informações através do antigo Orkut. A coluna se chamava “Orkultural“, nome também de uma das comunidades virtuais que eu criei no Orkut. A comunidade recebeu um prêmio do Governo do Estado de São Paulo por incentivo e divulgação da cultura.

Colaborei com algumas revistas eletrônicas (poesia e prosa), como ”Algo a Dizer”; “Zona da Palavra”; “Revista Plural”; “Blocos Online”, e outras.

Tenho textos (na maioria, poemas) publicados em vários sites, blogues e revistas eletrônicas, como “Ruído Manifesto“; “Mallarmargens”, “Germina”; “Mirada”; “Caliban”; “Marianas”; “Literatura & Fechadura”, “Zalmak”; e naturalmente, em todas as outras com as quais colaborei ou editei em parceria. Obviamente, também na “Revista Ser MulherArte“, onde sou a editora.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Sugiro que comece pela poesia, porque é o gênero literário pelo qual iniciei a escrever. Como nem todo mundo se interessa ou gosta de ler haicais, então recomendo o livro ”Gota a Gota” (Scenarium, 2016), de poesia contemporânea. Tenho imenso carinho por esse livro. A edição artesanal da Scenarium ficou um espetáculo e cada poema foi ilustrado pela artista plástica mineira Cristina Arruda. Cada desenho dela é como um novo poema, uma releitura do meu. Todos que adquiriram o livro ficaram encantados.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Na escrita, se você tivesse feito essa mesma pergunta para mim até 2017, diria que é a poesia. Mas depois que “embalei“ no primeiro romance, no segundo, e por último o livro de contos, sinto que já não importa o gênero, mas o mergulho e a viagem. Na leitura, sempre gostei de todos os gêneros, porém com uma leve inclinação para romances. Talvez porque fosse o meu ”ponto fraco”, o que acreditava ser, até então, “inalcançável” na escrita.

9- Ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sempre trabalhei muito paralelamente à minha paixão pela literatura e a música. No Brasil, trabalhei muitos anos como secretária bilíngue em empresas multinacionais. Também trabalhei um pouco com traduções e aulas particulares de piano e português.

Depois que cheguei na Alemanha em 1996 não sabia como fazer ainda para entrar no mercado de trabalho alemão. Fiquei um pouco assustada. Preferi trabalhar em casa com traduções, webdesign e design gráfico. Registrei-me como autônoma e até achava interessante, mas não me trazia uma renda mensal regular. Então resolvi fazer cursos ligados à terapia com idosos (fiz vários, de curta e de longa duração) e também a pós-graduação ”Musikgeragogik” (Educação Musical e Musicoterapia junto a idosos), o que me possibilitou a trabalhar regularmente em asilos na Alemanha. Porém, o desgaste mental era imenso, principalmente como um deles ou delas morriam. Não porque isso fosse inesperado. Sabíamos e até fizemos cursos para poder lidar com isso no trabalho. Ainda assim é difícil. A gente se afeiçoa demais com os idosos tão carentes de atenção e que começa a nos ver como integrante da própria família. Além disso, a pressão interna (conflitos entre terapeutas e profissionais da enfermagem) também causa desgastes. Não são tudo flores quando se trabalha nessa área. Em 2017 resolvi fazer pausa e em Dezembro do mesmo ano recebi o diagnóstico de câncer. Como meus filhos já são independentes e meu marido insistiu para que eu me tratasse sem me preocupar com trabalho fixo, aceitei cuidar da minha saúde sem essa pressão. Felizmente, me curei e decidi a voltar a trabalhar só em casa, mesmo sem um salário fixo. Comecei a desenvolver design de camisetas para um site, fiz artesanato (gravatinhas e afins, para gatos) em parceria com uma amiga alemã, mas não foi para frente, infelizmente. Agora estou me dedicando à Revista Ser MulherArte de forma voluntária, com o apoio da Divanize Carbonieri como editora adjunta, e diversas colunistas e colaboradoras. Recentemente, comecei a trabalhar remuneradamente por livro digital editado pelo selo da revista. Sei que não ficarei rica com isso (risos), mas é um recomeço diante das dificuldades de saúde e profissionais que enfrentei nos últimos anos.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

A política está em tudo que vivemos e fazemos. Não consigo dissociar a política de nada, inclusive da arte. Muito pelo contrário, vejo na arte uma forma de expressar o que sentimentos, desejamos, sonhamos, imaginamos, odiamos, e tudo isso passa pelas nossas posições políticas. A diferença é que alguns artistas preferem ignorar que isso aconteça. E ao ignorar, estão fazendo política também. Eu não ignoro. Faço “de caso pensado“. Na minha forma de pensar, seria um desperdício não usar das minhas ferramentas artísticas para denunciar tantas mazelas, preconceitos e injustiças sociais que assolam nosso planeta e, em especial, nosso Brasil. E foi com esse pensamento que criei a Revista Ser MulherArte, para abrir mais um espaço para a arte das mulheres, não importa se sejam ricas, pobres, renomadas, lésbicas, trans, drags, etc. O mundo seria intragável se a arte fosse apenas uma espécie de ”bibelô estético“ sem qualquer significado e ligação com a vida no nosso planeta, em todas as suas nuances positivas e negativas, e principalmente, as aquelas que precisam e podem ser melhoradas pela humanidade.

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

O sentimento começou quando eu ainda era criança, mas sem a maturidade necessária para compreender e aceitar o desafio. Entretanto, no final da minha adolescência, quando participei com meus poemas de uma exposição de artes (mista) organizada pela minha mãe, percebi que o que parecia algo distante ou até mesmo um hobby, era na verdade a escritora que estava despertando em mim, de verdade.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

As suas perguntas foram tão boas que não imagino o que tenha faltado. Mas aproveito o espaço extra para dizer que a Revista Ser MulherArte sempre esteve dentro de mim sem que eu ainda soubesse como se concretizaria. Eu tinha um sonho antigo de fazer algo que destacasse as mulheres no cenário artístico, mas ainda não sabia bem como e quando fazer isso. O que me fez adiar ano a ano, é o fato de saber que exigiria de mim esforço, dedicação e tempo. Era um projeto abstrato, sem nome, mas que foi ganhando forma na minha cabeça no final de 2019. No início deste ano de 2020, mesmo sem ter ideia de que iríamos enfrentar uma pandemia mundial, a Ser MulherArte aconteceu e desde então está florescendo. É uma realização que tem me deixado muito feliz, porque nós mulheres ainda enfrentamos o machismo em todos os campos das nossas vidas. O projeto começou comigo, mas já é de todas nós do coletivo.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

No pensamento, tenho vários. Mas concretamente, tenho um livro de haicais prontinho que vou desengavetar, acertar as arestas e publicar. Só não sei se sairá ainda este ano ou no início de 2021.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

  • "A poesia de outono
  • Começa na folha que cai,
  • mas não para por aí.
  • Ela continua na folha
  • que ainda está para cair."

Fragmento do romance “Borboleta – a menina que lia poesia”, Patuá 2018

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Onde encontrar Chris Herrmann?

Instagram: @_chrisherrmann

Facebook: www.facebook.com/chris.m.herrmann

[email protected] (e-mail)

Site pessoal: www.christinaherrmann.com

Site da revista e editora: www.sermulherarte.com

Recadinho dela: “Como tenho vários livros publicados, sugiro que vejam no meu site ou no meu facebook, onde e como comprar”.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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