café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

O sucesso de Alê Motta com “Velhos”

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de “Interrompidos” (Editora Reformatório, 2017) e “Velhos” (Editora Reformatório, 2020).


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O #cafépósmoderno conversou com Alê Motta que respondeu nossas 13 perguntas.

1- Quando você começou a escrever?

Desde criança comecei a escrever estórias e muito cedo queria ser escritora. Mas morava numa cidade pequena onde não existia livraria e não conhecia nenhum escritor. Assim que aprendi a ler eu lia a Bíblia e os livros que a minha mãe, professora de escola pública, recebia de editoras pelo Correio. Era uma alegria inexplicável quando o carteiro entregava os livros.

Eu perguntava para as pessoas como poderia fazer para me tornar escritora, mas ninguém sabia explicar. Então caminhei para outro lado que me atraiu – a Arquitetura. Fiz um concurso e passei para o curso técnico de Edificações na Escola Técnica Federal de uma cidade vizinha. Tive que morar na casa dos meus tios para fazer o curso nessa escola. Depois tentei vestibular e mudei para o Rio de Janeiro para cursar Arquitetura na UFRJ. Os anos se passaram, trabalhando com execução de obras, mas nunca deixei de ler muito e escrever muito. Mas tudo que escrevia era de modo muito desorganizado, perdendo os textos nas gavetas e arquivos no computador, tablets e celular. Era a arquiteta que vivia dentro das obras e gostava muito de ler e escrever. Isso mudou em 2015 quando fiz a Oficina Literária por hangouts com a Adriana Lisboa.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Escrever é maravilhoso. Para mim é impossível não escrever. E não acredito que aconteça sem esforço, sem dedicação. E muita leitura. Também acho essencial atentar para o que acontece no mundo, com as pessoas. Coisas maravilhosas e tenebrosas. Situações absurdas e encantadoras.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Pergunta complexa. Quando eu era adolescente passei um tempo de imensa paixão por Dostoiévski. Hoje já não o leio como naquela época, mas ainda gosto muito. Posso dizer que fui e sou influenciada por muitos e maravilhosos escritores.

Adriana Lisboa, João Carrascoza, Marcelino Freire, Rubem Fonseca, Gonçalo Tavares são autores muito marcantes para mim.

alemotta adriana lisboa.jpg 4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Eita, temos tanta gente incrível! Já peço desculpas porque vou esquecer de muitos, mas posso citar alguns. Itamar Vieira Júnior, Cinthia Kriemler, Adriane Garcia, Ney Anderson, Nara Vidal, Lucas Verzola, Sérgio Tavares, Morgana Kretzmann, Carlos Eduardo Pereira, Juliana Leite, Andre Timm, Rodrigo Tavares, Jorge Filholini, Paulo Salvetti, Aline Bei, Natália Timerman. Temos muita gente incrível e que vale a pena ler. E estou esquecendo de vários. A literatura nacional contemporânea é maravilhosa.

alemotta kriemler.jpg 5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“Suíte Tóquio” da Giovanna Madalosso e “O avesso da pele” do Jeferson Tenório.

alemotta suite.jpg 6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

“Interrompidos” em 2017 e “Velhos” em 2020, ambos pela editora Reformatório e alguns contos em revistas e sites.

Esta pergunta é interessante porque o “Interrompidos” nasceu de um convite do meu editor, o Marcelo Nocelli. Num trajeto de generosidade - os originais do meu “Interrompidos” saíram das mãos da incrível Adriana Lisboa, foram para o querido Carrascoza e este os levou até o Marcelo que leu e me convidou para publicar.

Eu era leitora e admiradora do Carrascoza. E sabia que o Marcelo era um editor muito cuidadoso. Mas não conhecia nenhum dos dois. Fiquei surpresa e muito feliz. Ter o meu “Interrompidos” e o meu “Velhos” na editora Reformatório é uma honra. Uma valente editora, que batalha pela literatura contemporânea brasileira. Os dois livros têm trazido grandes alegrias pra mim. Leitores vem conversar sobre suas impressões, muitas análises foram e são feitas. E mesmo o “Velhos”, lançado no início da pandemia – lançamento on-line, pois não pudemos fazer os lançamentos presenciais que havíamos programado com tanto carinho e são momentos tão gostosos - têm trazido retornos lindos de leitores e resenhistas.

Encontrar pessoas que descobrem as narrativas curtas e começam a se encantar com a leitura das mesmas é algo que me deixa muito entusiasmada.

alemotta interrompidos.jpg 7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Recomendo que leia os dois - o “Velhos” e o “Interrompidos”. Pode ler na ordem que desejar. O leitor decide (risos).

alemotta velhos 2.jpg 8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário?

Opa! Sou eclética nas minhas leituras, mas sem dúvidas leio mais prosa que poesia. E escrevo prosa.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Infelizmente não dá. Seria maravilhoso viver só de literatura. Um sonho!

Sou arquiteta, especializada em execução de obras. Não gosto da teoria, do escritório. Gosto da prática - do canteiro de obras, onde as coisas dão erradas e precisam ser resolvidas. A vida é bem mais interessante com desafios e surpresas não acha?

Sou casada, tenho um filho e um marido que são espetaculares e me apoiam muito. Meu marido foi quem me incentivou a fazer a Oficina da Adriana Lisboa em 2015 e meu filho é um dos meus primeiros leitores quando começo um novo projeto.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Eu acho que todas as vezes que escrevemos, direta ou indiretamente falamos um pouco de tudo o que vivemos, sentimos. No momento, por exemplo, vivemos dias nada fáceis.

11- Em que momento da vida você sentiu... eu sou escritora!

Sempre desejei ser, mas sentir mesmo só depois de ter os livros editados. Depois de começar a receber retornos de leitores, comentários, observações. Quando um livro nasce, ele é um pouco dos que o carregam nas mãos e não sabemos para onde ele vai e os incômodos e sensações que causará. Todo um misterioso percurso inicia. É uma aventura linda que me deu coragem para afirmar que sou escritora.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Você caprichou nas perguntas (risos).

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Está em andamento. O tempo, só Deus sabe (risos).

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista:

Um dos textos do meu livro “Velhos”...

“Esqueci o que fui fazer no quintal. Tenho esses momentos de esquecimento, todos os dias.

Vou para a cozinha e não faço ideia do que ia fazer com a peneira grande e a colher de pau que tenho nas mãos. Saio para a rua e constato que não sei o meu destino.

Esqueci de tomar banho algumas vezes, no mês passado. Ou talvez não tenha esquecido. Não posso afirmar.

Tem alguma coisa acontecendo comigo. Desconfio que seja deficiência de vitaminas. O problema é não lembrar o quanto já tomei, quando tomei, para que finalidade tomei. Fico tensa desde o momento em que acordo, até a hora em que me deito para dormir. Todos os dias são assombros, espantos.

Ontem fui parar no meio da rua. Uma caminhonete prata buzinou e eu saltitei para a calçada. Tive que abraçar um poste, porque fiquei tonta.

Hoje acordei e o dia está lindo, um céu azul maravilhoso, trinta graus. É meu aniversário de sessenta e cinco anos. Fiz tapioca para o café da manhã.

Um, dois, três... Dezessete pessoas aqui na minha casa.

Toda família está na minha sala e na minha cozinha. O relógio da parede marca 19:25h.

Trouxeram bolo, risadas e salgadinhos.

Não lembro nada do que aconteceu desde o café da manhã. Olho para a bancada e não há indícios da frigideira e da tapioca. Todos conversam, tem música tocando. Meu ombro esquerdo está dolorido de tanto tapinha de Eeee, parabéns!, estou comendo uma coxinha deliciosa, rodeada de netos lindos.

Devo ter uma doença terminal. Nunca fizeram uma festa assim para mim – com toda a família. Se fizeram, não lembro”.

Esquecimentos | Alê Motta

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Onde encontrar Alê Motta?

Facebook entre aqui.

Instagram: @alealb Para comprar “Interrompidos” (Editora Reformatório) entre aqui.

Para comprar “Velhos” (Editora Reformatório) entre aqui.

22 minutos com Alê Motta (entrevista). Veja aqui.

Resenha dos dois livros de Alê Motta no Canal Acrópole Revisitada. Entre aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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