café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Toda estética é (sempre) também uma ética”, relembra o poeta Patrício Alves do Nascimento

Escritor, poeta e professor de Literatura em escola pública de São Paulo, Patrício Alves do Nascimento abriu sua alma e falou sobre seus poemas, preferências literárias e trajetória de vida. E tem livro novo para sair do forno. Leia e compartilhe literatura brasileira.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Patrício Alves do Nascimento – nós aqui o chamamos de PAN – que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu escrevia no ensino médio e na faculdade de letras. Mas eram coisas mais pessoais, que todo mundo faz em algum momento. Depois, eu passei só a ler. Me esqueci da escrita. Fiz um mestrado na área da literatura e comecei um doutorado em filosofia. Segui a minha vida como professor de escola pública. E pai. No segundo semestre de 2015, eu comecei a escrever algumas coisas que se pareciam com poemas (todos os dias, no ônibus, na sala de aula, no banheiro). Desse surto, nasceu o meu primeiro livro e a maioria dos poemas do segundo. Eu sou um escritor de cinco anos.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Eu me preparei a vida toda para escrever. Passei a maior parte do meu tempo de vida lendo, buscando ler os autores que todo mundo falava que eram os melhores, ou os autores mais obscuros e “especiais”, todas as “novidades”. Mas nunca escrevia. Apenas projetava. Daí, os poemas “apareceram”. Os projetos de livros começaram a sair do papel. Mas todo poema ou trecho de texto que aparece é lido e relido obsessivamente (mexido, mesmo que invariavelmente volte para a forma inicial, mais espontânea e próxima).

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

O Proust, que releio de tempos em tempos. Kafka. Bandeira, minha primeira e permanente paixão. Fernando Pessoa. Clarice, que foi objeto do meu trabalho na filosofia. Machado. Guimarães. Raduan Nassar. Alguns romancistas americanos. Os russos. Shakespeare. Sófocles e Kaváfis. Rilke. Baudelaire e Rimbaud. (Falo isso olhando para os meus livros, enumerando nomes, não querendo deixar ninguém de fora – mesmo sendo pedante – mas os nomes não são capazes de dizer da quantidade de prazer e vida contida nessas páginas).

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Quando eu lia, não escrevia. Agora que eu tento escrever, venho lendo muito pouco, quase nada. Mas li os poemas do Marcelo Luz, que serão publicados em breve, e que me trouxeram uma sensação de proximidade bem grande, e do Pedro Vale, um livro muito bonito. E os contos de Engenho de Dentro, do M. S. Saraiva, que me fizeram pensar no nosso jeito de falar e de pensar: nós, os suburbanos.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Acabei de ler o “As alegrias da maternidade”, de Buchi Emecheta, natural de Lagos (Nigéria) e radicada em Londres. Muito bonito e triste. E sigo tentando terminar a versão em espanhol de “Nietzsche e o círculo vicioso”, do Pierre Klossowski.

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6- O que você já publicou até aqui?

Em 2017, publiquei o livro de poemas “Possessão” (Chiado Editora). Também participei de algumas coletâneas de poesia. Tive um conto publicado na coletânea de contos fantásticos “16 Contos Insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), e outro na revista digital “Recorte Lírico”. Nas minhas páginas, no Facebook e no Instagram, eu publico os meus poemas, diariamente.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

É uma bagagem leve. Tem o meu livro de poemas, “Possessão”, e os dois contos publicados. E tem também as minhas páginas nas redes sociais.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Divirto-me mais lendo e escrevendo prosa. Mas acho que sou um poeta fazendo isso. Como leitor, adorava jogar aquele calhamaço gigante em cima da mesa na sala dos professores (“Graça infinita” e as suas quase mil e duzentas páginas de cor laranja, que êxtase!). E prosa dá mais assunto. Poesia é.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Eu sou professor de língua portuguesa da rede pública estadual de ensino de São Paulo, na E. E. Eliza de Oliveira Ribeiro, em Itapevi. Gosto de brincar dizendo que dou aula (há 18 anos) na última escola da última estação da linha do trem da Grande São Paulo. É a minha segunda casa. Rodeado pelos jovens que eu conheci crianças. E as novas crianças. É uma alegria. Uma alegria difícil.

10- Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Toda estética é (sempre) também uma ética. Gosto de falar de literatura, analisar, pesar, pegar a palavra na mão, adivinhar a beleza de uma história. Mas tudo isso não é ignorar a ligação de toda forma com a vida. Toda forma é a encarnação de uma necessidade. Quem pode escrever algo hoje ignorando a sociedade ressentida em que vivemos? Como ignorar a eleição de 2018 (com seus antes e depois)? A pandemia e a necropolítica? Testemunhar é imprescindível. Ao mesmo tempo, estamos no terreno da beleza, só vai sobreviver ao momento e ao fim da fala, a forma que conseguir “ser” esse momento em que vivemos.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Eu ainda não digo que sou poeta em voz alta. Escrevo, mas não digo.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Apesar de ser professor, não consigo pensar em mais perguntas.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Nos últimos anos, na base do “tudo ao mesmo tempo agora”, eu venho trabalhando em um segundo livro de poemas (“Lobo – Do desejo, das coisas”, que irá ser publicado por um selo da editora Metanoia), um livro de contos (que é uma mistura de contos “fantásticos” sobre a nossa realidade e uma espécie de outra história da filosofia e da literatura, nos moldes das “Vidas Imaginárias”, de Marcel Schwob, e do Borges) e duas novelas (uma sobre o poeta Fernando Pessoa e o carnaval e outra em que misturo o cotidiano de um coordenador pedagógico de uma escola pública, questionamentos sobre a brasilidade e a gambiarra e um mistério sobre a vida do João Gilberto). E quero escrever um livro sobre o eterno retorno do Nietzsche.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

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“Arte é o que se faz com esse corpo que grita” Da exposição Sudários, do artista plástico João Bosco de Camargo Millén.

Do corpo

Tornado

ONÇA

Depois

Do corpo

Tornado

ÂNSIA

Depois

Do corpo

Ficado-

REI

(poema do livro “Lobo – Do desejo, das coisas”)

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Onde encontrar o PAN?

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Comprar o livro "Possessão", aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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