café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

“Nunca foi tão importante combatermos as desigualdades sociais” diz o poeta português Pedro Vale

Admirador das obras de Hemingway, Kafka, James Joyce, Marcel Proust e Fernando Pessoa, o poeta português PEDRO VALE abre a série de entrevistas do CAFÉ PÓS-MODERNO com escritoras e escritores da comunidade internacional de língua portuguesa.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe o poeta PEDRO VALE que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Aconteceu de forma natural a minha escrita, aos 34 anos. Como muito do que acontece hoje-em-dia, ocorreu numa rede social, o Facebook. Agradava-me o facto de me poder exprimir linguisticamente sempre que sentia esse impulso e de receber um retorno instantâneo do outro lado. Meia dúzia de amigos foram-me dando cada vez mais força para continuar e aqui estou já como autor de um primeiro livro.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Acredito que seja uma mistura de ambos, mas inclino-me mais para a importância da leitura e da transpiração. Os dons têm forçosamente de ser trabalhados. Ainda tenho um longo percurso a percorrer, mas não poderia ter imaginado um início tão impactante da minha possível carreira literária. Aos onze anos iniciei-me como leitor e fui-me interessando cada vez mais pelo universo dos livros. Estou habituado desde então a dar muito valor à forma como uma história é contada e a todos os pormenores que a envolvem.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Curiosamente, poucas terão sido as obras literárias em verso que mais me marcaram, para além de ”O Livro do Desassossego” de Bernardo Soares e da “Comédia” de Dante. Lembro-me de ter lido “As Minas de Salomão” traduzido por Eça de Queirós, bem como do romance “Jane Eyre” de Charlotte Bronte e ter ficado muito impressionado com estas duas obras aos 12 anos. Mais tarde, pelos 15, deixei-me fascinar pelo romance-rápido-americano de autores como Jack London, Charles Bukowski e Jack Kerouac, especialmente “Pela Estrada Fora”. Recordo-me também de ter lido o “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov” de Dostoiévski e dos contos de Pushkin, Tchekhov e Gogol por volta dos 18. Mais na idade adulta, mergulhei nos japoneses Mishima e Kawabata e destacaria dois autores americanos - Norman Maclean e Joseph Mitchell – nos quais descobri linguagens que me interessaram imenso. Mas os cinco autores que mais admiro são Hemingway, Kafka, James Joyce, Marcel Proust e Fernando Pessoa, que tem a capacidade de adivinhar os meus sonhos. Destacaria também Sophia de Mello Breyner, Virginia Woolf e Hannah Arendt nas autoras que mais importância tiveram no meu crescimento intelectual. Adoro ler mulheres.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Vou referir poucos autores, uma vez que leio mais os clássicos. Gostou muito dos dois primeiros romances da escritora indiana Arundhati Roy, do atento Michel Houellebecq, de António Lobo Antunes, que estou finalmente a compreender, do inimitável Chico Buarque de Holanda. Que me perdoem os poetas contemporâneos, mas ainda estou a conhecê-los.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou sempre a ler e reler imensas obras. Tirando as mais técnicas para a universidade, referiria “Lolita” de Nabokov, “Coração Solidário Caçador” de Carson McCullers, a “Lírica Completa” de Camões, a “Obra Poética” do moçambicano Rui Knopfli, o “Don Quijote” e o “Cien Anos de Soledad” em castelhano, “Deserto” de Le Clézio, “Um Dia Na Vida de Ivan Denisovich” do russo Alexandre Soljenitsin e toda a obra poética de Vasco Graça Moura, assim de memória…

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6- O que você já publicou até aqui?

Só publiquei um livro - “Azul Instantâneo”- em dezembro de 2017. Porém, tenho vários poemas e breves narrativas publicados em blogues literários e de arte de vários países da lusofonia, em sítios de literatura e, há um mês, vi sete poemas do “Azul Instantâneo” inseridos na 3ª edição da revista de literatura e artes “Uso” de São Paulo. No ano passado um poema azul foi escolhido para encerrar o nº4 da revista literária independente “Tlon” e já em fevereiro deste ano também participei no livro “Mundo(s), uma coletânea de poesia lusófona, com seis poemas.

Pedro Vale e seu livro.jpg

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Pela leitura do livro “Azul Instantâneo” (basta enviarem-me uma mensagem ou um email a solicitar o arquivo digital). O sítio “Pedro Vale” também está em construção e, brevemente, será finalmente lançada a edição digital no Amazon.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Prefiro ler contos e romances e escrever poesia, mas nos últimos anos comecei a devorar poesia como nunca o havia feito!

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sou professor de adultos (de alfabetização e português para estrangeiros) e de crianças (clubes de incentivo à leitura) numa escola de primeiro ciclo e estudante universitário de Cultura na ilha da Madeira. Vai dando para pagar as contas, mas será muito difícil viver só da escrita. Tenho essa noção, claramente.

10- Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e política?

A política é transversal à sociedade. Não poderia deixar de estar relacionada com a literatura e vice-versa. Tenho procurado, à minha maneira, encontrar formas de ativismo social. Posso referir duas muito simples: partilhando o meu primeiro livro de forma gratuita com milhares de leitores e visitando escolas, onde incentivo os jovens a serem mais criativos, partindo do exemplo do livro “Azul Instantâneo”. Sempre que me é possível, apoio artistas locais também. Em suma, creio que nunca foi tão importante combatermos as desigualdades sociais que encontramos nestes dias.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Ainda não o senti verdadeiramente. Reconheço que quando fui apresentado como escritor na primeira visita a uma escola aqui da ilha isso me soou estranho, mas aos poucos vou aceitando melhor, estando plenamente consciente das responsabilidades que tal designação acarreta.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Aquela questão que remete o autor para a sua infância. Tive a sorte de poder fugir livremente para os campos ou para os montes sempre que me aborrecia dos outros. Ainda hoje o faço!

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Não faço ideia e, sinceramente, não estou nada ansioso por voltar a publicar. Há ainda um longo caminho a percorrer no que diz respeito ao “Azul Instantâneo”.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

Gostaria de partilhar dois poemas de dois jovens poetas madeirenses: Maria Fernandes e Dinarte Vasconcelos:

“e há o estado possível

à criação :

(após o visionar

de longas horas

é apenas possível a mera

contemplação do estado líquido das coisas)

nisto, o poema :

- nauseabundo e austero

(surpreende-me depois da curva angular da rua do Espanto de me saber)

nisto, o poema

o eremita

que se sabe de tons carmim

murmura ora o rito profundo

da morte inaugural de todos os dias.

e há, o estado possível à disseminação do sonho :

(eremitas em toneladas abruptas fecundam máquinas-ardor-mundo)”

MARIA FERNANDES, In processo continuous: poemas mecânicos, 2019, Poética Edições

**********

“exórdio

dois versos aqui e a jugular cortada de vertigem

a arriba minada pela abrasão

um poema com a guilhotina do relógio por cima do bestunto

como quem recebe a ordem para dedilhar pela sua vida

uma melodia barroca de que só ouviu uns resquícios opacos

um poema por nada por dedos nervosos

como quem dá a ordem sem um sentido

uma melodia que se reinventa no fio do monitor

a melhor poesia é a da tristeza

fica pelo menos assim o intróito

redime-nos de resto a intenção

de sermos tristes a bem da arte

DINARTE VASCONCELOS, In “a viagem – a casa”, 2012, Edição independente

Onde encontrar Pedro Vale?

e-mail: [email protected]

Facebook, clique aqui.

Instagram: https://www.instagram.com/pedro.vale.1293/

Twitter: https://twitter.com/livro_azul

O seu livro é distribuído gratuitamente, basta acessá-lo pelas redes sociais e pedir o arquivo em PDF.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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