café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

“Aprendi a ter persistência”, diz a escritora Sabina Anzuategui

A escritora Sabina Anzuategui apresenta suas preferências literárias e sua obra com simplicidade e docilidade (e assim é sua bela escrita). Ela que é acadêmica e conhecida no YouTube por compartilhar dicas literárias, deixa-nos um fragmento de seu novo romance.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe hoje Sabina Anzuategui que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Na adolescência, aos 13 ou 14 anos. Fazia histórias em quadrinhos, depois um jornal cômico na escola, inspirado na revista Mad. Tentava escrever contos mas não conseguia. O primeiro conto que consegui completar, e fiquei razoavelmente satisfeita, foi aos 16 ou 17 anos. Meu pai publicava histórias em quadrinhos nos jornais do Paraná, e minha mãe era professora, lia muito. Tínhamos muitos livros em casa e sempre fui apaixonada por bibliotecas: no colégio, na escola de inglês, e a biblioteca pública do Paraná, no centro de Curitiba.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Acho que existe um dom, ou uma facilidade maior, mas só isso não é suficiente. Como professora, todos os anos vejo quatro ou cinco alunos que escrevem muito bem. Mas não significa que terão a vontade ou persistência para serem escritores. Li em algum lugar que um escritor precisa de três coisas: talento, persistência e necessidade de expressão. No meu caso, acho que aprendi a ter persistência pela necessidade de me expressar. Tive que me treinar, porque queria muito escrever e percebi como era difícil. A escola foi fácil pra mim, eu tirava boas notas sem me esforçar muito. Escrever foi a coisa mais difícil que aprendi na vida.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

São muitos, cito alguns deles: "Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá", de Lima Barreto; "Minha vida", de Tchekhov; "Em busca do tempo perdido", de Proust; "Minha Antônia", de Willa Cather; "Léxico familiar", de Natália Ginzburg; "Em louvor da sombra", de Junichiro Tanizaki.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Gosto do Paul Auster, da Svetlana Aleksiévitch, da Alison Bechdel, do Ricardo Domeneck, da Bell Hooks. Gostava muito do Peter Handke, suas obras dos anos 1970 e 1980, antes das posições questionáveis que ele assumiu. Tento me manter atualizada, na literatura brasileira e estrangeira. Há muita gente que admiro, mas nem tudo bate fundo. Há uma diferença entre admirar e sentir que aquilo faz parte de você.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou relendo "Macunaíma" [do Mario de Andrade] e "O caderno rosa de Lori Lamby" [de Hilda Hilst].

6- O que você já publicou até aqui?

O principal são dois romances, "Luciana e as mulheres" e "O afeto ou Caderno sobre a mesa", e um quase-romance, "Calcinha no varal". Também publiquei minha tese de doutorado, alguns contos em revistas literárias, peça de teatro, roteiro de cinema, artigos em jornais e revistas. A lista completa está no meu currículo Lattes.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Meus romances estão disponíveis em e-book no Kindle, além das edições impressas. Se alguém tiver curiosidade, sugiro ver as sinopses e ler as amostras, pra ter uma ideia dos temas e do estilo. Leitura é muito pessoal, cada um sabe o que gosta de ler. Tenho também um projeto de quadrinhos no instagram, chamado "Pérolas Perdidas". Eu escrevo as histórias e meu amigo Bruno Weber desenha.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

A novela, ou romances curtos, são meu formato preferido.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Quando era mais nova, pensei em viver de literatura, mas hoje já não tenho esse sonho. Acho difícil vender algo que é tão pessoal. Quero que as pessoas leiam, mas misturar isso com a necessidade de sobrevivência seria complicado pra mim. Trabalhei muitos anos como roteirista de cinema e aprendi bastante com a experiência. Hoje sou professora, na área de roteiro audiovisual, e gosto desse trabalho. Conhecer os alunos e ler seus trabalhos é estimulante.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político, outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acho que a literatura é uma arte que fala da vida humana, então é impossível ignorar a política ou temas sociais, ainda que nas obras isso apareça nas entrelinhas. Não acredito que a vida seja só sentimento, intimidade, contemplação ou sensorialidade. Talvez na juventude as questões sentimentais ou eróticas fossem mais fortes, mas na maturidade a vida social me interessa mais, ou tanto quanto a intimidade. Mas literatura não é panfleto. Política e questões sociais aparecem misturadas e submersas nos mistérios existenciais das personagens.

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

No sentido íntimo, de uma vocação ou maldição, acho que foi muito cedo, com uns 18 ou 19 anos. Uma certeza de que eu precisava escrever algo, ainda que não soubesse o que seria. Mas ser reconhecida publicamente (ou ter confiança pra dizer isso, sem sentir que era pretensão) demorou bem mais; talvez só quando terminei meu terceiro romance, "Luciana e as mulheres".

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

"Você é feliz escrevendo?" - "Sim."

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Estou terminando um romance, chamado "Uma mulher sem ambição". Na sequência, estou planejando uma série episódica, para ser publicada online, em capítulos.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Um trecho do meu romance novo, "Uma mulher sem ambição":

"Pra sair da Lapa à noite pego o 875H - Vila Mariana. O ônibus entra na avenida Sumaré, segue em alta velocidade, ultrapassando todos os faróis abertos. Eu me sinto uma contrabandista numa lancha carregada de mercadorias, cruzando o rio à noite enquanto a polícia dorme.

Jurei que iria purificar meus hábitos, depois de um ano de cervejas e bares quase todas as noites. Em 2009 “passei o rodo”, como se diz. Estava em pleno direito de pisar na jaca, depois de dez anos casada, cumprindo meus votos de dedicação e fidelidade. Acho que os alunos não usam mais essa gíria, "passar o rodo". Mas gosto de rodos de cozinha.

Você joga água e carrega tudo que está no caminho. O ônibus sobe uma ladeira e atravessa o viaduto na direção da Paulista. Imagino o que Ricardo diria se me visse de calça jeans e sapatilha-tênis neste ônibus numa quinta-feira às onze da noite. Nunca o vi dentro de um veículo de transporte público."

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Onde encontrar Sabina Anzuategui?

Instagram @perolasperdidas

Twitter @SabinaAnz

Email: [email protected]

YouTube de Sabina com dicas de escrita e outros vídeos, clique aqui.

Sobre os livros de Sabina:

Os e-books estão disponíveis para Kindle. As edições impressas podem ser compradas na Livraria Simples, Livraria da Travessa e na Amazon.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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