café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

“Eu não escrevo para receber dinheiro” diz Sergio Martins

Sergio Martins habita na periferia do Rio de Janeiro (e do mundo) e faz deste lugar (geopsíquico) um espaço de criação para seus contos hiperrealistas e para sua poética lírica e demolidora.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebeu o escritor Sergio Martins que respondeu 13 perguntas e nos deixou um fragmento de degustação.

1- Quando você começou a escrever?

No quintal da velha casa de meus avós havia um quartinho. Meu vovô, querendo pôr freios em minha curiosidade, advertia-me a jamais entrar no quarto a pretexto de que eu bagunçaria seus valiosos pertences. Certo dia, aproveitando a distração do bom velhinho e mesmo temendo abrir a "Caixinha de Pandora", adentrei no quarto e fui surpreendido por uma vasta coleção de livros. Como resultado de minha desobediência, cada livro que eu abria, à medida que sua poeira subia, o espírito de seu respectivo autor dominava meu ser. Naquele instante, meus olhos se enfeitiçaram de uma enigmática poética, e o que o vovô temia aconteceu: ao entrar no quartinho, submergi num mar sem fundo, abri o portal de outra dimensão onde me vi sem noção do tempo e espaço, mergulhado num universo de encanto. A partir desse dia, jamais deixei de ouvir e traduzir minha outra razão: as vozes de um infindo mar e do novo Martins. Eu era criança nesse tempo e só comecei a escrever na adolescência. Na época, eu tentava produzir crônicas, poemas, letras para música e contos; tudo era um processo consciente de catarse. Eu lia tudo o que podia, daí, desejei produzir, inclusive, conteúdos didáticos, semelhantes aos que eu lia dos livros sobre Literatura e histórias infantis. Meus amigos me apoiam demais, aliás, foram eles que me “obrigaram” a publicar meu primeiro livro, o “Zé do Rio”, um trabalho infantil. O escritor Marcio Saraiva é o responsável pela publicação do “Cavaleiro Vermelho & outros contos da periferia e do mundo”, o doutor em Literatura Brasileira e em Teoria da Literatura, Valdemar Valente, incentivou-me a seguir no caminho da narrativa hiperrealista e a publicar essa nova aventura. Fora isso, eu conto com muitos amigos que leem meus textos e me ajudam a “filtrá-los”.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

No meu caso, escrever é um dom. Sinceramente, nunca tive aula sobre técnicas de produção textual e afins. Estou num processo de aprendizagem, isso nunca acaba, o que é muito saudável para mim, pois gosto de estudar e conhecer novos rumos para o segmento literário. O Rubem Alves, por muito tempo foi o meu mentor, aprendi com ele a explorar variados caminhos da literatura, como a capacidade de síntese apresentada em suas crônicas, o Antônio Carlos Viana, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca me ajudaram na técnica de captação do realismo grotesco, os quais, utilizo em meus contos hiperrealistas. Na universidade, deparei-me com os contos hiperrealistas, foi quando me permiti dar uma atenção melhor e seguir por esse caminho; foi quando surgiu a ideia de reunir meus contos para a publicação.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Gosto de ler os clássicos, de modo que repito a leitura, como nos casos de “A Hora da Estrela”, “Dom Casmurro”, “O Mulato”, “O pequeno príncipe”... Não sou capaz de questionar a crítica literária a respeito do cânone, mas eu tenho algumas obras que são canônicas para mim, isto é, dialogaram e dialogam comigo, mesmo não sendo consideradas literaturas históricas ou universais; por exemplo: “Tempus Fugit’, do Rubem Alves, “Cemitério de Elefantes”, do Trevisan, “Uma rua como aquela”, da Lucilia Junqueira de Almeida Prado... Nesse sentido, o cânone, atravessa os limites do universalismo e é concebido em caráter pessoal, ou seja, não é mais fechado ao caráter do todo que se configura no significativo registro de uma época a ponto de revelar novidades literárias, mas registra sua impressão na alma de um indivíduo...

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

O Rubem Fonseca faleceu há três meses, aos 95 anos, a mesma idade do Dalton Trevisan. O Geovani Martins tem 28 anos. Gosto muito de ler as obras desses escritores, pois dialogam com minha crítica social.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de Queirós e “A mãe”, de Gorki.

6- O que você já publicou até aqui?

O “Zé do Rio”, uma história infantil, foi o meu primeiro trabalho publicado, em 2012, com ajuda de amigos que me presentearam, ou seja, não tive nenhum custo com a confecção feita de forma artesanal e independente. Explorando gêneros sociais, romance, prosa, poesia, crônicas e outros, publico desde 2010 no blog AS VOZES DO MAR (clique aqui). Este ano, lancei o “Cavaleiro Vermelho & outros contos da periferia e do mundo” pelo selo Mundo Contemporâneo Edições (pertencente a Editora Metanoia). É um trabalho que contém quarenta contos hiperrealistas.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Eu sempre indico o meu blog, pois é lá que eu exponho variados gêneros literários.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

É difícil dizer minha preferência, pois num tempo eu me inclino a um caminho literário e assim que esse tempo acaba eu me direciono a outro. No momento, estou voltado aos contos e ao romance.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Eu não escrevo para receber dinheiro, aliás, meu compromisso sempre foi com a literatura e como isso retorna a mim em forma de divertimento e de compartilhamento de saberes com meu público. Publicar meus textos nunca foi uma meta, e sim, mostra-los aos amigos num sarau, numa conversa, por e-mail... A ideia de publicar sempre foi dos amigos. Hoje, eu não espero nenhum pedido para a publicação, pois tenho um compromisso para com o meu público, e isso é mais que o bastante, pois me deixa muito feliz, realizado. Fora a diversão, eu leciono Língua Portuguesa e Literatura em escolas e em cursos particulares para pagar minhas contas.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

O meu engajamento é ser no mundo. Minha existência e modo de viver são o meu maior protesto e meus textos são a síntese do que penso e sinto sobre essas questões. Todos os meus contos assumem a dimensão da crítica social, mantendo um posicionamento político ácido contra as opressões sofridas pelas minorias.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Quando os amigos me presentearam com a publicação do meu livro infantil, em 2012, eu pensei: “eles acreditam que sou escritor e gostam do que eu produzo, então, eu vou me esforçar para pensar a mesma coisa”. Desde então, eu venho me encorajando para acreditar no que os meus leitores creem.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Nenhuma.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Eu tenho três obras infantis e um trabalho de crônicas existencialistas e de cunho social prontos para a publicação; além de um livro de contos hiperrealistas quase pronto.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Ganha-pão

Zezinho detestava estudar pela manhã, mas às segundas-feiras acordava bem cedo para ir à aula de Educação Física. Essa era a única disciplina que gostava, pois lhe dava a oportunidade de exercer seu talento para o futebol. O pai pediu a ele que não demorasse a trazer o pão, temendo atrasar-se no trabalho. O garoto, sabedor que ali na favela sempre faltava merenda na escola, tratou logo de garantir sua primeira refeição do dia. Na saída da padaria, um cachorro magrelo e esfomeado abanava a cauda aspirando um pão.

– Xô, cachorro!

O cãozinho parou, abaixou a cabeça, mas insistindo conquistar seu bocado diário, retornou assim que Zezinho deu as costas.

– Xô, cachorro!

Os carros da Polícia subiam velozes o morro. Assustado, o moleque encostou-se à parede, desceu devagar, sentou-se no chão; recolhido do mundo horripilante.

– Xô, cachorro! Gritou um policial para o menino.

O menino se levantou. Notando a distração do garoto, o vira-lata saltou, conquistando um pão.

– Xooooooooooo, pulguento!!! Gritou mais fortemente o policial.

O moleque correu em disparada. O esquelético cãozinho, orgulhoso de vencer mais uma batalha, correu pelo canto da viela exibindo o alimento entre seus dentes como um troféu.

– Xô, cachorrada! Ladravam os cães do Estado.

A roda de vadios espalhou-se em debandada, aos xingamentos e latidos de vira-latas. A matilha se dispersava pelos becos e sumiam pelo morro acima. Os “raivosos de raça” vinham logo atrás, disparando o terror, num lastro de projéteis e estampidos de guerra.

Já no portão de casa, Zezinho driblava os policiais que rodeavam os corpos estirados pelo chão. Um policial fez a revista. Lançou os pães no chão para conferir se havia alguma droga no saco, os cachorros famintos abocanharam tudo. Com muito esforço, o guri convenceu o policial a deixá-lo passar pelo portão.

No barraco, sem os pães, o pai surrou o garoto, sabido que perderia o seu ganha-pão porque os policiais não o deixariam sair, e outra vez chegaria atrasado no serviço, o que o seu patrão lhe avisara ser imperdoável.

Hostilizada pelos favelados, a brutalidade canina do poder público se retirava do morro e, alimentada de vingança, exibia os corpos vencidos que pintavam aquele solo barrento de um vívido vermelho-Brasil. Os porta-malas mal cabiam de tanta presa. Certamente, um dia muito proveitoso, o delegado se orgulharia da matéria na TV com tantas apreensões e mortes de vagabundos, o que agradaria seus chefes.

À noite, pelas vielas, de pouco em pouco surgiam outros cachorros em busca do ganha-pão de todos os dias.

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Onde encontrar Sergio Martins?

Instagram: @sergio_.martins 2

Facebook: https://www.facebook.com/sergio.martins.752

E-mail: [email protected]

“Cavaleiro Vermelho & outros contos da periferia do mundo” pode ser adquirido nos seguintes endereços:

Loja Metanoia, cliquei aqui.

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Americanas, cliquei aqui.

Magazine Luiza, cliquei aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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