café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

Autor de “Mu{l}tilado”, Solano Guedes é um artista múltiplo

Artista plástico, prosador, poeta, frasista de primeira, criador de tirinhas em quadrinhos e depois de muitas loucuras, um pacato cidadão de família. Conheça um pouco mais sobre Solano Guedes.


Solano 1.jpg

Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe o artista plástico e escritor SOLANO GUEDES que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei escrevendo bilhete para as minhas namoradinhas de infância, já havia poesia ali. Pedia para a minha mãe comprar uma rosa no caminho da escola e no bolso, guardado, o bilhete para Tatiana. Já havia poesia ali e instrumentalizada, a serviço da sedução. Mas eu tinha seis anos apenas. Aos onze já lia livros e comecei a fazer poemas para a minha mãe, também numa tentativa de sedução incestuosa, um Édipo de frente que me ajudou a me familiarizar com os versos, com a poesia, ou melhor, com a captura da poesia porque a poesia de verdade vive muito longe da estática das letras arrumadas impressas em papel. E por fim, minha longa carreira de escritor de redações no Colégio Franco Brasileiro, tendo inclusive uma de minhas redações transcrita, datilografada (coisa antiga) e passada como texto de interpretação para a minha turma. Esta foi a primeira vez que me reconheci como autor. A redação chamava-se “O mundo às avessas” e era uma total inversão de valores sociais e emocionais, acho que minha mãe deve ter uma cópia, era um bom texto e eu tinha treze anos, se tanto. A partir daí sempre mantive cadernos e cadernetas com textos, ideias, poemas, isso sempre fez parte de mim e acho que foi assim que comecei a escrever.

Solano e beijinhos.jpg

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Posso afirmar que conheço muitas pessoas que tem muita leitura e podem transpirar à vontade que não vão escrever. Minha mulher leu todos os clássicos antes dos vinte anos e se atrapalha pra fazer uma postagem no Facebook, então não é por aí, pelo menos pra mim. Não gosto da palavra ‘dom’, o ser dotado de certa graça, não me entusiasmo com esse tipo coisa. Escrever para mim é uma vocação e como toda vocação exige trabalho, a questão é que a cada escritor você irá se deparar com um novo método e, portanto, com uma nova forma de trabalhar e, portanto, com outro trabalho e a pergunta acaba reduzindo essas possibilidades. É ótimo para o ego dizer que o seu trabalho advém de muita leitura e transpiração e de uma falsa modéstia completa fingir que se ignora o próprio talento. Escrever tem muito a ver com inventar para mim, no que eu faço, esse é o meu compromisso. Trabalho o tempo todo e escrevo super pouco, maquino ideias por dias, algumas por meses, outras por anos, faço anotações e num determinado momento eu sento e executo. Como um franco-atirador. Meu estande de tiros é o Facebook.

Solano e familia 2.jpg

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Meus clássicos são outros. É preciso que fique claro que eu não fiz ainda o percurso literário sugerido a quem quer ser tido por escritor, sendo assim, eu tenho muitas lacunas em minha formação, rejeitei a academia, corro por fora desde jovem. Mas ainda assim me lembro de “A metamorfose”, “O artista da fome”, “Carta ao pai” e “O processo”, todos de Kafka. Na minha memória, tem algo de angustiante e sombrio nesses títulos.

O livro que mais me marcou e que balizou a minha vida enquanto ia trabalhar como designer em Madureira, “Cartas a um jovem poeta” do Rilke. Esse livro me ensinou o que um artista precisava ter, e é belíssimo. Indo para outro estúdio onde trabalhei, em Jacarepaguá, viagem longa, ia lendo “A história da riqueza do homem” (Leo Huberman), horrorizado, e poderia citar sem medo Monteiro Lobato que li na infância e também Ziraldo com ênfase para “O menino quadradinho” que é melhor que “O menino maluquinho”. Outra coisa que fez parte da minha formação foram os jogos de RPG, Dungeon & Dragons e GURPS, ambos tinham livros que norteavam as regras do jogo e eu adorava passar a tarde lendo o módulo básico de GURPS e imaginando aventuras... era bem bom. Mas minhas referências, os meus “clássicos”, vão de “Caverna do Dragão”, passando por “Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction” e pode incluir muito filme de máfia, “O poderoso chefão”, “Os bons companheiros”, “Cassino”, “Era uma vez na América”, tudo isso alternando entre ouvir Tim Maia Racional e Black Alien.

Solano eu que nao sabia.jpg

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Acompanho Bogado Lins há anos no Literatura Cotidiana, o cara tem umas crônicas fantásticas. Eu cheguei a ser chamado, e pago (o cara se tornou paulista) para compilar o primeiro livro dele e fazer o prefácio. Eu fiz e acho, inclusive, que ele gostou. São crônicas simples, sem firulas, bem escritas, que te pegam pelo sentimento, ora pelo humor, ora pela análise social já que é sociólogo por formação. Eu não perco, pois o trabalho do Bogado é realmente muito bom, e se não me engano, ele fez uma orelha de um dos livros do Ricardo Labuto Gondim, acho que o “Deus e o labirinto”. Vale a pena.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo um catálogo do CCBB sobre Quentin Tarantino.

Solano revolta das vogais.jpg

6- O que você já publicou até aqui?

Bom, já publiquei no Literatura Cotidiana, site do Bogado Lins, e publiquei três livros por Vieira e Lent Casa Editorial, a chamada Trilogia das entrelinhas, são eles “A história dos três pontinhos” (2009) “A revolta das vogais” (2011) e “O eu que não sabia ser eu” (2016), aproveito aqui para agradecer a Cilene Vieira. Mais recentemente tive a sorte de publicar um livro de prosa poética pela Metanoia Editora [selo Mundo Contemporâneo Edições]. O meu “Mu{L}tilado” saiu em 2019. Facebook vale?

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Recomendo começar por “A história dos três pontinhos”.

Solano tres pontinho.jpg

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Sempre li mais prosa, no entanto, escrevi mais poesia.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Eu tive sorte, pois já ganhei um bom dinheiro com literatura nos bons tempos da Vieira e Lent, mas nunca tive estabilidade. Sobrevivo trabalhando com minha mulher que é cozinheira, fazendo trabalhos de design e vendendo minhas pinturas, afinal eu também pinto. As pinturas também são instáveis, mas ainda assim rendem mais que livros, mas é a regra do jogo: pra se manter o plano A só com um plano B. Não é do interesse de ninguém que se viva de literatura.

Solano pintando.jpg

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acho muito difícil uma obra de arte não ser política. Resta saber se estamos falando de obras de arte.

Solano artista plastico.jpg

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Tenho dificuldade com isso até hoje... Eu desenho, pinto, já fiz trabalhos de arte conceitual, objetos, intervenções sonoras, performance, vídeos, já fiz letra de música, eu não me entendo como um escritor, me entendo como um artista que tem como uma de suas ferramentas a escrita, mas tenho muitas lacunas de formação para me perceber como um escritor, ou melhor, como apenas um escritor... Eu dei sorte, publiquei quatro livros, vendi bem, mas para ser um escritor de fato eu teria que fazer um investimento de tempo e energia que eu não sei nem se é o caso. Eu escrevo, é isso. Sei escrever.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

[ele deixou em branco mesmo...]

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Nada na alça de mira.

Solano e familia.jpg

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Passarinho que come pedra sabe o cu que tem. Esse é o ditado popular do artista, serve para escritores dispostos a comerem pedras.

Solano multilado.jpg

Onde encontrar Solano Guedes?

O facebook dele está aqui.

Para comprar o livro “Mu{l}tilado”, pela editora, clique aqui.

Galeria virtual de artes com os trabalhos de Solano Guedes. Clique aqui.

Todos os livros de Solano Guedes estão na Amazon. Clique aqui.

A trilogia tem no site da editora Vieira & Lent. Clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Marcio Sales Saraiva