café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Sylvia Arcuri, a professora no bairro de Lima Barreto

Sylvia Arcuri é professora de língua portuguesa da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. “Escritora em formação” (é como ela se coloca) conversou com nosso #cafépósmoderno e falou de formação, textos e preferências literárias. Conheça um pouco mais desta guerreira de Todos os Santos, subúrbio carioca.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Sylvia Arcuri que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Escrevo desde adolescente, porém não me considero uma escritora, ou melhor, não exerço esse ofício, gosto de escrever, mas sem ter o compromisso diário. A escrita, para mim, está inserida no campo dos afetos.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração? Quando acontece sempre é a consequência de leitura de mundo mais transpiração e pouco dom.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Os autores clássicos nacionais: Orígenes Lessa, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Zélia Gattai. Dos internacionais: Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Albert Camus, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e muitos outros.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Autores e autoras como: Ferréz, Sérgio Vaz, Conceição Evaristo, Cidinha Silva, Mel Duarte, Jennifer Nascimento, Júlio Ludemir sempre serão indicados, mas quero destacar um autor que estudei durante 9 anos da minha vida acadêmica, Roberto Bolaño, todo mundo tem que ler 2666. Existe uma autora equatoriana que admiro e gosto muito também, Alicia Yanes Cossio.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“A era dos extremos” – Erick Hobsbawn e “O homem e seus símbolos” – Carl Jung.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Os meus textos publicados fazem parte de vários livros de narrativas curtas publicados pela Flup, organizados por Écio Salles e Júlio Ludemir:

  • Flup Pensa 2016 – Narrativas
  • Seis temas à procura de um poema – 2017
  • 90 anos de malandragem: contos inspirados nas canções de Bezerra da Silva – 2018
  • Conta forte, conta alto: contos inspirados nas canções de Martinho da Vila – 2018
  • Contos para depois do ódio: inspirados nas canções de Marcelo Yuka – 2020

Tem um blog onde publicava uns textos: O Fudca da Nerita e hoje, faço parte do movimento Rolé Literário.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Podem começar lendo os textos publicados na página do Rolé Literário, no blog ou os livros que citei.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Gosto de todos os gêneros textuais como leitora e como escritora, atualmente, desenvolvo mais os textos em prosa.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Não vivo da literatura, sou professora de língua portuguesa da rede estadual do Rio de Janeiro.

Xhi!!! A história é muito longa, sou cria do bairro de Todos os Santos, zona norte do Rio. Filha de pais muito presentes e dedicados a nossa criação, a minha e de mais dois irmãos. Eles sempre valorizaram a educação e me incentivaram tanto que hoje carrego, com muito orgulho, o título de Doutora em Literatura Hispano-americana outorgado, em 2017, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sou mãe de Nerita, artista plástica, casada com um outro artista plástico Juan, que me deram uma neta linda chamada Nina, eles têm um café em Paraty, Montañita Café; Lucas é o meu outro filho, bombeiro militar, psicólogo, instrutor de Ninjitsu, casado com Anna, enfermeira. Além de tudo isso sou umbandista e carrego comigo a máxima da religião que é a manifestação do espírito para a prática da caridade. O mais importante é dizer que sou uma pessoa feliz, não posso reclamar da vida.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Como pesquisadora e estudiosa dos movimentos literários e do panorama da literatura atual, ouso dizer que literatura e arte sempre estarão ligadas à política, o que não quer dizer que tenham que ter cunho panfletário, não é por aí. Se entendermos que a literatura é uma espécie de raio x ou fotografia de uma época, não dá para dissociá-la das questões políticas, econômicas e sociais.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

Como já mencionei, não me sinto escritora, não como ofício, mas sim como um espaço de fuga, de reflexão para poder me compreender e compreender o mundo, talvez.

12- Soube que você está fazendo um podcast. É verdade?

Sim. Eu tenho um projeto com minha amiga Celia Regina Maia. Nós o criamos para falar sobre as questões que afetam as pessoas com mais de 60 anos, chama-se “60 anos e agora? Envelhecer é abandonar supérfluos”. Procure no Instagram, YouTube e Spotfy.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

O meu projeto literário está ligado as ações desenvolvidas pelo movimento do Rolé Literário e pela Flup (Festa Literária das Periferias).

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista:

Um modo de não contar | Sylvia Arcuri

  • Ela gritou
  • Disse, voltaaaaa!
  • Ela gritou
  • Disse, ficaaaaaa!
  • A faca tipo açougueiro
  • Essas com o cabo branco
  • Estava lá, atravessada no pescoço
  • Perfurou a carótida
  • Precisa
  • Passou para outro lado
  • Saindo na altura da nuca
  • Na frente só se via o cabo
  • O restante
  • Seu pescoço havia engolido
  • Rosto cinza, sem cor
  • A pele não fica branca?
  • A dela não
  • Era de um cinza encorpado
  • Talvez porque fosse negra
  • Será?
  • A expressão era um misto
  • De surpresa, dor, angustia e despedida
  • Os olhos estavam abertos
  • Sem nenhuma esperança
  • E ao mesmo tempo perguntavam
  • Por quê?
  • O corpo estendido na cama
  • Sob lençóis com estampas de felinos selvagens
  • Um contraste entre texturas
  • O cinza da sua pele
  • Não conseguia apagar o marrom
  • Que gritava da estampa
  • A selvageria tinha acontecido
  • E nenhuma onça, leoa ou pantera
  • Saíra daquele mundo ficcional
  • Para ajudá-la
  • Nenhuma delas ouvira seus gritos
  • Perturbados, alucinados
  • No meio da noite
  • Não, por favor! Não quero!
  • Caladinha
  • Por que tanta violência?
  • Não puxa mais meus cabelos
  • Por favor!
  • Olha só que você fez!
  • Na mão dele um tufo de cabelo
  • Quieta vadia!
  • Sangue escorrendo pelo nariz
  • Tamanho foi o soco bem dado
  • O oco e o eco do soco entraram
  • Atropelando sua anima
  • Agressão e mais violência
  • Tentando catar as roupas que ele rasgara
  • E jogara pelo caminho da sala até o quarto
  • Tentando estancar o sangue que jorrava
  • Não suportou
  • Mais um golpe no ventre
  • Outro no olho
  • Uma pisada pesada na altura da vagina
  • Sem entender mais nada
  • Só conseguia visualizar um vulto
  • Que se aproximava com a faca na mão
  • Levantou as mãos tremulas até o rosto
  • Elevou-as como proteção e em oração
  • Já não via mais nada
  • Sentia mais nada
  • Não tinha forças
  • A faca atravessou a garganta
  • Silenciou sua voz
  • Sua vontade
  • Alguns desejos
  • Voz sem vez
  • Medrosa
  • Intranquila
  • Desfalecia
  • Um fio de sangue quente
  • Se misturava ao cenário selvagem do lençol
  • Ainda na presença
  • Do seu corpo estuprado
  • Mutilado, ensanguentado
  • Currado
  • Morto
  • Ela gritou
  • Disse, paraaaaa!
  • E a cumplicidade das fêmeas feras
  • Do lençol da cama
  • Não sabiam o que era

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Onde encontrar Sylvia Arcuri?

Facebook, entre aqui.

Instagram: @sylvia_arcuri

E-mail: [email protected]

Fanpage do Rolé Literário, entre aqui.

Site de Sylvia Arcuri, entre aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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