café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Um vírus de cem nanômetros colocou a civilização tecnológica de joelhos”, afirma Ricardo Labuto Gondim

Ricardo Labuto Gondim é professor, crítico, teólogo e filósofo. É um dos principais nomes da ficção científica no Brasil.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Ricardo Labuto Gondim que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Meu avô me ensinou a ler aos cinco anos. E me trouxe um livro por semana para que se tornasse um hábito. Estou com 54. De leitor a escritor, foi um passo natural.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

A escrita é uma disciplina. O escritor é alguém que governa o desejo de escrever. O interesse que o livro provoca é a medida de seu trabalho. Os efeitos que causa vêm da dimensão do que leu. Quando o autor não trabalha e não lê, confessa no primeiro parágrafo.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

“Moby Dick”, na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, é o meu livro de cabeceira. “O Coração das trevas”, modelo de intensidade pela concisão. “Memorial de Aires”, modelo de leveza. Há pouco mais de três anos descobri Sófocles. São 2500 anos de atraso, mas estou tentando recuperar. Li, reli e estou relendo. A “trilogia tebana” agora é meu modelo de organicidade. Na quarentena voltei a “O Vermelho e o negro” e “Jude, o obscuro”. Os clássicos são os melhores professores. Mas eu também aprendo com rótulo de xampu e bula de remédio. Como dizia Borges, as virtudes da escrita não são o privilégio “de alguns poucos nomes ilustres”. Como dizia Bukowski, “não esnobo porra nenhuma, estou sempre aprendendo”.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Luciana Hidalgo é um dos mais belos textos da literatura brasileira. “O Passeador” é uma obra-prima. A biografia de Arthur Bispo do Rosario, uma construção humanista. Seu livro mais recente, “Rio-Paris-Rio”, é brilhante ao mesmo tempo em que percorre outros caminhos. Essa diversidade é a experimentação de si mesmo. Para mim, um valor enorme. O que me leva à Luiz Bras, o Haydn do fantástico brasileiro. Seu trabalho, frequentemente experimental, é ousado, atrevido, lastreado no conhecimento mais aprofundado da literatura brasileira e no domínio absoluto do idioma.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou relendo, agora com óculos de escritor, a “Crônica da casa assassinada” de Lúcio Cardoso. Monumental. E “A casa à beira do abismo” de William Hope Hodgson, um grande autor que descobri recentemente pela leitura de sua obra-prima, “A Terra da noite”.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Publiquei cinco volumes. “Deus no labirinto”, contos. “B”, minha novela policial. “Corrosão”, um romance de ficção científica. “Caçadores de imagens”, meu livro juvenil sobre crianças que fazem cinema. E “Pantokrátor”, ficção científica a partir deste Brasil teocrático, de estupidez cultivada e controle social pelo Big Data. Como sempre me perguntam se é uma “distopia”, cito o livro: “Não creio em ‘distopia’. O que existe em oposição à utopia é o que chamamos ‘realidade’, não uma categoria literária.”

Ainda espero algumas cartas de recusa do meu primeiro livro, publicado em 2012. Embora prefira o livro impresso, leio o digital com frequência. Até porque enxergo mal.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Sou um escritor eclético. É só escolher o sabor.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Leio tudo que posso. Li “Crítica da razão pura”, “Paraíso perdido” e quadrinhos da “Turma da Mônica”. Só não li um só livro de que não gostasse.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Minha formação acadêmica é teologia. Já fui diretor de comerciais e vídeos institucionais. Redator publicitário. Crítico de música clássica e cinema. Colunista de equipamentos de áudio. Professor universitário. Mas nunca deixei de ser roteirista.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Tudo que é público é político. A praça é do povo desde a antiguidade. O livro é a praça em qualquer lugar. Meu engajamento, em transparente oposição ao fascismo do atual regime, é lucidez. A democracia foi corrompida pelas elites mais retrógradas e perversas. Com a anuência de instituições pusilânimes, de aquiescência e silêncio. E o apoio de entidades e personalidades teratológicas. Mas não mancho minha literatura com lodo. “Pantokrátor”, que defino como o “contexto amplificado” do Brasil desumano, tem uma hermenêutica muito mais ampla. Não se detém em elementos singulares da sordidez e do ódio. Porque tudo isso vai passar. Essa gente imbecil e cruel vai passar. Alguns inclusive vão passar à prisão. Eu trabalho na esperança de que meus livros permaneçam por mais tempo.

Mudando de assunto, por que razão a esposa do presidente da República recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz? (risos)

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11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Eu sempre fui escritor. Escrevi meu primeiro roteiro profissional, um vídeo para a Petrobrás, aos dezoito anos. Mais tarde ganhei um concurso para estagiar na MPM Propaganda, então a maior agência do país. Lá, Hayle Gadelha me ensinou a cortar palavras. É o mais importante. O essencial já é demais.

12- Quantas vezes você revisa o seu texto?

Se o livro não está na gráfica, está em revisão.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Tenho dois livros prontos. Um calhamaço de ficção científica e uma seleção de contos. Em minha opinião, o fantástico permite as melhores metáforas de nossa solidão e “calmo desespero”. É o ambiente literário mais expressivo de uma realidade insuportável. Como demonstrado pela pandemia, em que um vírus de cem nanômetros colocou a civilização tecnológica de joelhos, não há nada no próprio lugar. Tudo é movimento e hipótese. Já estou trabalhando em um novo romance. Mas não depende só do autor o que sairá primeiro.

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“Nós não vivemos. Nós existimos. Viver está além de nossas possibilidades”

RLG, “Corrosão”

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Ricardo Labuto Gondim na Amazon, entre aqui.

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Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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