café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Viver de literatura é viável”, diz a escritora, revisora e tradutora Kátia Regina Souza


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Kátia Regina Souza que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1 – Quando você começou a escrever?

Ainda criança. Meu amor pelos livros e pela escrita se deve a três mulheres. Minha irmã mais velha, Carla, me ensinou a ler quando eu tinha cinco anos (e ela, doze). Aos seis, quis escrever para imitar a minha outra irmã, Káren, e, mais tarde na vida, foi imitando ela mais uma vez que arranjei coragem para mudar de curso, saindo da Ciência da Computação e passando para o Jornalismo. Por fim, ao longo de toda a infância, contei com a influência da minha mãe, Regina, que me apresentou logo cedo à série Vaga-Lume (da Editora Ática), despertando uma paixão duradoura pela fantasia.

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2 – Escrever é um dom ou uma consequência de muita leitura e transpiração?

Considero perigoso pensar na escrita como um dom; imagino que muitos autores consagrados jamais teriam publicado suas histórias se seguissem essa lógica. Escrever exige dedicação constante — não interessa se você iniciou ontem ou se tem uma vida inteira de experiência, há sempre o que melhorar.

3 – Quais “clássicos” da literatura você mais admira?

Sempre acho difícil responder a este tipo de pergunta, porque penso em coisas demais. Como escrevo ficção e não ficção, selecionei dois livros para citar.

De ficção, um dos meus preferidos é “Incidente em Antares”, do Erico Verissimo. Ele me marcou por me introduzir no universo do realismo mágico, me mostrando que autores canônicos também escrevem obras com elementos fantásticos. Eu era adolescente quando li “Incidente em Antares” pela primeira vez e, até então, pensava que a literatura fantástica só aparecia nos livros ditos “comerciais”, nunca entre autores da chamada “alta literatura” (insiro esses conceitos entre aspas porque considero ambos problemáticos). A partir dele, conheci Murilo Rubião, José J. Veiga, Isabel Allende, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e outros.

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De não ficção, “Hiroshima”, de John Hersey. Meu primeiro contato com ele foi na faculdade. Acabou me marcando porque conheci o livro num momento em que eu estava extremamente arrependida de ter escolhido cursar Jornalismo, e não Letras. Hersey me mostrou o maravilhoso mundo do jornalismo literário. Depois, encontrei Gay Talese, Truman Capote, Joel Silveira, Tom Wolfe e tantos mais.

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4 – E na cena literária atual… Quem você já leu e gostou muito?

Vou me limitar à literatura fantástica, que é meu gênero preferido. De autores estrangeiros, destacaria Ursula K. Le Guin, Terry Pratchett, China Miéville e Neil Gaiman. Mas há muitos escritores brasileiros fazendo um trabalho de extrema qualidade, como Simone Saueressig, Ana Lúcia Merege, Cirilo Lemos, Eric Novello, Jim Anotsu, Felipe Castilho, Camila Fernandes, Cristina Lasaitis e Carlos Orsi.

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5 – Neste momento, você está lendo qual livro?

“Viajantes do abismo” (Nikelen Witter) e “O conto da aia” (Margaret Atwood).

6 – O que você já publicou até aqui?

De não ficção, tenho dois livros-reportagem, ambos voltados a autores: “A fantástica jornada do escritor no Brasil” (2017) e “Questões fundamentais da Escrita Criativa” (2019), lançados pela editora Metamorfose. O primeiro traz entrevistas com cinquenta e dois escritores, pesquisadores e editores do nicho de literatura fantástica, tratando tanto de assuntos específicos a este gênero quanto de questões mais universais, como as dificuldades enfrentadas por quem publica um livro. No segundo, são dezenove entrevistados — entre eles, escritores, músicos, jornalistas, publicitários e roteiristas de games, quadrinhos e filmes —, com os quais conversei sobre o processo criativo.

De ficção, publiquei contos em antologias e um livro juvenil de fantasia, “O Velho Mundo” (2016), hoje esgotado; pretendo relançar por outra editora no futuro.

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7 – Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Supondo que os leitores do seu Café Pós-Moderno são, em sua maioria, também escritores, recomendo conferirem “Questões fundamentais da Escrita Criativa”. Tive a oportunidade de entrevistar profissionais muito competentes para esse livro, incluindo autores premiados como Assis Brasil, Carol Bensimon, Caio Riter e Luiz Rufatto. Ao longo do livro, os entrevistados respondem às seguintes perguntas: “Quem pode escrever?”, “O que é um texto de qualidade?”, “Como transformar a ideia bruta em história?”, “Como funciona o processo criativo?”, “A plataforma e o formato interferem no texto?”, “De que forma se constrói um universo ficcional verossímil? E quanto à criação de personagens?”, “O que muda de acordo com o público-alvo?”, “Escrever para crianças e jovens é diferente?”, “Qual é a importância da revisão no processo de criação?”, “Quais são as suas principais dificuldades durante o processo de escrita?” e “Como se manter criativo e evitar bloqueios?”.

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8 – Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Prosa, seja para escrever ou para ler. E, ultimamente, dada a falta de tempo inerente à vida de freelancer que divide seu dia entre o mercado editorial e um filho de um ano e meio, tenho preferido contos e novelas, pela possibilidade de finalizar a leitura em poucas horas.

9 – Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Se o seu interesse vai além da escrita, viver de literatura é totalmente possível. Quando me descobri escritora, percebi também minha paixão por todo o processo de editoração de um livro, então decidi me especializar no trabalho com o texto (já que sou um desastre na parte gráfica). Presto serviços de tradução (Inglês/Português), edição, revisão, leitura crítica e preparação/copidesque. Atuo há seis anos nessa área; consigo me manter apenas com isso.

O problema é que o setor editorial, como tantos outros, sofre com a precarização do trabalho, ou seja, mesmo as editoras maiores estão reduzindo cada vez mais seus quadros de funcionários, terceirizando serviços que costumavam ser feitos internamente.

Ainda assim, reitero que viver de literatura é viável. Com as possibilidades trazidas pela internet, tivemos um crescimento considerável do meio independente, o que gera uma grande demanda de serviços. Desde o início do ano, por exemplo, a despeito da pandemia, entre preparações, revisões, leituras críticas e edições, trabalhei em mais de trinta livros, todos estes de autores independentes ou de editoras de pequeno porte. Isso sem contar a revisão de contos avulsos (muitos escritores procuram uma opinião profissional antes de submeter seu texto a antologias, revistas, etc.).

10 –Em sua opinião, qual a relação entre a arte (ou obra literária) e a política?

Não existe literatura alheia ao contexto sociopolítico, afinal, optar por uma suposta isenção é também uma escolha política — na minha opinião, uma das piores que você pode fazer. Um exemplo disso é o nosso cenário político atual: a omissão dos eleitores ajudou a colocar um genocida como chefe do Poder Executivo brasileiro.

Ademais, acredito que qualquer livro com um bom enredo e personagens complexos abordará, em algum nível, questões ideológicas. Isso porque as causas sociais permeiam nossa realidade, e o que tentamos a todo momento no decorrer do processo de escrita de uma obra ficcional é justamente convencer o leitor de que aquela poderia ser uma história verdadeira. Não me emociono com a literatura que não me mostra um mundo tão diverso quanto o nosso de fato é.

11 – Em que momento da vida você sentiu “eu sou escritora”?

Não saberia apontar, porque, para ser sincera, a sensação vai e volta (como muitos colegas, sofro da síndrome do impostor). O que não muda é o meu amor pela palavra escrita, então já não me importo de não me sentir escritora constantemente. Se não estou escrevendo, é porque estou editando, traduzindo ou revisando livros de outros autores, o que adoro tanto quanto criar minhas próprias histórias.

12 – Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Não há, mas aproveito o espaço para agradecer por me convidar a participar do Café Pós-Moderno. Também me coloco à disposição para tirar dúvidas de autores iniciantes que estejam perdidos em meio ao caos do mercado editorial. Basta entrar em contato comigo pelo e-mail informado ao fim da entrevista!

13 – Qual é seu próximo projeto literário?

Ainda não defini, sei apenas que quero dedicar um tempo à escrita de ficção. Depois, planejo lançar uma versão atualizada de “A fantástica jornada do escritor no Brasil”, com novas entrevistas.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

O fragmento a seguir é do meu conto “Vidas em verde”, lançado na antologia “Planeta Fantástico” (Metamorfose, 2019), organizada por Duda Falcão.

“[…] Já no primeiro uso do mantra, fez um nariz sangrar. Fez, riu para si com a escolha do verbo. Não havia sido ela, era óbvio. Todavia, a possibilidade de ser, ah… Isso mudava tudo. Se fosse verdade, ela ainda podia fazer algo. Protagonizava uma ação e deixava para trás toda a passividade dos últimos dias.

Ao completar quase 39 semanas, o baque maior, maior do que qualquer comentário não requisitado: o pai decidira abortar. Abortar de suas responsabilidades, dela, da criança.

— Homem é assim mesmo, nunca estão totalmente preparados.

Ela também não estava, foi o que respondeu num fio de voz.

— É mais difícil pra eles, não nasceram pra isso.

E foi só pra isso que ela nasceu?

— Quem sabe ele mude de ideia, dê tempo ao tempo.

Com seus chutinhos frequentes, o bebê crescendo em seu corpo lhe lembrava que não podia (e muito menos deveria) ser paciente.

Na mesma noite do ocorrido, percebeu-se sonhando acordada — um sonho em verde — e se sentiu mais forte, como nunca antes. A essa altura, o poder se mostrou ampliado: primeiro em acidentes caseiros com todos que foram rápidos em partir na defesa do pai — uma queimadura ao preparar o almoço, uma mordida do cachorro antes tão manso, um corte fundo com uma faca de cozinha, um choque ao ligar a televisão na tomada, uma queda no chuveiro.

Depois, o grand finale. Quando seus olhos insones já não se fechavam pela preocupação e pelas contrações, sozinha em seu quarto, tornou a repetir o mantra, com a certeza de que, se o fizesse, os do ex-pai jamais se abririam novamente.

A cada crise enfrentada, a vida que restava em si se renovava — não, não a vida em seu ventre, a vida dela própria, porque voltara a ter uma. Descobria-se mais que uma incubadora: era mulher, e isto ainda podia significar tanto!

Poucas noites depois (acompanhadas de mais sonhos monocromáticos e sorrisos largos dados por quem mergulhara o suficiente nas delícias da insanidade para não se importar com nada), em paz, após um estouro sutil, notou um líquido quente a escorrer por suas pernas e estranhou o cheiro incomum de enxofre. Experienciando uma dor natural para o momento, caminhou com esforço até o banheiro para trocar calcinha e absorvente.

Ao retirar as peças de roupa, assustou-se com a cor do líquido: verde, como seus pensamentos desde a descoberta do mantra. Febril e tonta, encostou-se na parede e deslizou até o chão. Levou alguns segundos para compreender, mas finalmente estavam lá as respostas para as perguntas que não quis fazer. Entendia o preço.

Ponderava, mais uma vez: parecia uma troca justa. Dada a possibilidade de se vingar do estresse causado pelos comentários, pelas opiniões, pelos questionamentos, pelo julgamento (o terrível, terrível julgamento!), conquistara aquilo pelo que lutou durante nove sofridos meses: a gestação possível. E o bebê seria saudável; apenas não seria seu.”

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Onde encontrar Kátia Regina Souza?

Site: katiareginasouza.com

E-mail: [email protected]

Facebook: fb.com/krssouza

Seus livros estão disponíveis na Amazon e no site da Editora Metamorfose (clique aqui)


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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