café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Eu não poderia viver sem escrever”, diz Vivian Pizzinga

Escritora e psicóloga, Vivian Pizzinga critica a “neutralidade” de escritoras e escritores: “a ausência de luta antifascista e antirracista é algo muito ruim”. Sem ser panfletária, ela traduz em sua literatura questões sociais e psíquicas sobre a existência humana com rara beleza e profundidade, sem pedantismo. É uma escritora necessária e um ser humano engajado na vida concreta.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Vivian Pizzinga que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei bem cedo. Lá pelos 6 ou 7 anos comecei a ‘brincar de escrever livro’ com meu irmão, mas ele enjoou da brincadeira e eu continuei. Escrevia o que, na época, eu chamava de livro, e minha mãe datilografava (pra você ver como faz tempo), deixando espaços em branco no meio do texto para eu desenhar as ilustrações. Ela também corrigia os erros de português. Chegou a datilografar quatro historinhas e não parei mais. Na verdade, durante a faculdade ou o mestrado, que nada tinham a ver com literatura a princípio, eu fiquei vários anos sem escrever e tal, mas depois voltei. Meus pais sempre apoiaram e eu tinha amiguinhas que escreviam comigo, isso era uma brincadeira entre nós. Com uma amiga de infância com quem tenho contato até hoje, escrevíamos história paralelas e “jornais” e falávamos sobre nossas tramas. Uma outra amiga com quem não tenho mais contato escreveu junto comigo o início de um outro ‘livro’, cada uma pensava nos personagens, perfis e tal. Mas isso não se concluía, eram brincadeiras, era um encontro digamos ‘lúdico-literário’. Até hoje gosto da escrita conjunta, já fiz isso 3 vezes depois de adulta e uma delas gerou o romance epistolar “Extravios”, que lancei com o escritor Igor Dias em 2018.

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2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Não faço ideia, mas acho que certamente os elementos “muita leitura” e “transpiração” necessariamente entram nessa composição. Não sou fã da palavra ‘dom’, mas se fosse substituí-la por outra, talvez pudesse usar um elemento que tem a ver com o mistério. Ou seja, minha principal forma de expressão criativa é a escrita (até gosto de outras), em outras pessoas pode ser a música, a pintura, a dança, e em muitas haverá uma constelação de formas criativas. Esse é o mistério todo, não sei por que razão pra mim a escrita é a forma crucial até o momento. Mas esse mistério não seria nada sem o trabalho contínuo e sem a leitura constante. Sem o contato com outras formas de arte (para além da literatura) tampouco.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Bem, se for para citar clássicos, falaria de Kafka, Machado de Assis e Clarice Lispector, principalmente. Cada um entrou na minha vida em um momento diferente e exerceu efeitos diversos, mas todos de grande intensidade. Alguns latino-americanos também são importantíssimos pra mim, como o Cortázar. Também sou super fã do Rubem Fonseca, que quero citar aqui também por ter falecido há pouco tempo e por ter sido de grande importância em alguns momentos pra mim.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Tem um autor que já está na cena há muito tempo, mas que é bem atual: Milton Hatoum. Talvez ele possa ser deslocado para a pergunta anterior, mas acabei entendendo que ele também é contemporâneo, no sentido de ainda estar lançando livros, atuando na cena literária, posicionando-se sempre de forma brilhante, poética e contundente através de entrevistas, conferências, transmissões e falas que nunca suprimem as questões políticas. Para citar outras autoras e autores, recentemente li Juan Pablo Villa-Lobos, “Festa no Covil”, de que gostei muitíssimo e que quero ler mais. Conceição Evaristo não é nova, mas está aí na cena, atuando muito como o próprio Milton Hatoum, e eu, infelizmente, a descobri tardiamente, mas antes tarde do que mais tarde. Gosto bastante do Bernardo Carvalho e da Paloma Vidal, mas há muitos outros.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

No momento, estou lendo “O compromisso”, de Hertha Müller, e a biografia da Rosa Luxemburgo, pela Editora Boitempo, lançada em 2019, quando dos cem anos de sua morte.

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6- O que você já publicou até aqui?

Publiquei o romance em co-autoria que citei na primeira pergunta (o mais recente) e também dois livros de contos, “Dias Roucas e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), pela Editora oito e meio. Tenho participações em algumas coletâneas, sendo as mais recentes “Escriptonita”, da Editora Patuá (2016), e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016), livro de contos em homenagem aos 30 anos do disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Indicaria “A primavera entra pelos pés”.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Para escrever, prosa. Para ler, ambos. Minha experiência maior de escrita é com contos.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Minha profissão oficial é psicóloga. Então é através disso que sobrevivo, e acho bom, não sei se eu ia gostar de ser “só” escritora, embora imagino que seja também maravilhoso e traga muitas vantagens, no sentido de mais tempo dedicado à escrita e à leitura, mas acho que há uma riqueza enorme em viver outras coisas, dedicar a existência a experiências diversas, ainda mais se não se esgotam em nosso próprio ego.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acho que a literatura é política por si só e não é necessário que seja panfletária (ou didática), menos ainda partidária, para que tenha um valor ou uma função política enorme. Acho que o autor ou o artista devem fazer aquilo que eles acham melhor fazer, mas certamente alguma coisa de seus posicionamentos políticos e existenciais irá transparecer em sua obra. Não gosto de ler obra panfletária, então também não vou escrever aquilo que não gostaria de ler. Mas acho importante o posicionamento, mesmo que seja fora da obra. Aliás, me incomodo bastante com os autores que não se posicionam politicamente, sobretudo no momento atual, em que é importante pensarmos no quanto a nossa imagem pode servir de espelho, de admiração e de instigação de questões políticas (e outras) naqueles que nos admiram mas têm muitas dúvidas.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Não sei dizer, mas foi há muito tempo, talvez antes da fase adulta. O problema é que a gente tem essa sensação ou esse sentimento e depois coloca em questão. Quem nos chancela, afinal? É o outro que diz? É a gente mesma? É um leitor ou uma leitora? É um número mínimo de pessoas que te leram (qual o critério desse número)? É a crítica? É uma editora que te publica? É ver teu livro numa estante? Eu vou pelo Rilke, em “Cartas a um jovem poeta”, quando ele fala sobre a gente se perguntar na hora mais escura e mais íntima da nossa noite se poderíamos viver sem escrever. A depender da resposta, sabemos se somos ou não escritoras. Ou então, lembrando Blanchot, que Foucault cita: “Escrever para não morrer”. De fato, eu não poderia viver sem escrever e, acreditando as pessoas ou não, dependendo menos de um leitor para escrever do que da minha própria vontade ou da minha necessidade para fazê-lo. Há muito tempo me sinto escritora, bem antes de ter publicado algo.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Eu gostaria que você me perguntasse o que estou achando do que está acontecendo no país, agora, em julho quase agosto de 2020 [a entrevista foi no finalzinho de julho/2020], e gostaria de dizer que não só é um horror o que está acontecendo no país (politicamente, em meio a uma pandemia), como acho que certos escritores com mais reconhecimento deveriam se posicionar mais, uma vez que serão mais lidos, terão maior alcance e, muitas vezes, para aqueles que ainda não se decidiram quanto ao que estão achando, podem se espelhar naqueles que admiram. Um escritor que tem muitos fãs, leitores, seguidores, o termo que queiramos usar, e que tem pessoas que o admiram, deveria se posicionar politicamente sempre que possível, mesmo que não haja tantas oportunidades. Mas às vezes há mais oportunidades (ainda que poucas) do que posicionamentos. E num momento de fascismo amplo, geral e irrestrito como esse que estamos vivendo, a ausência de posicionamento, a ausência de luta antifascista e antirracista é algo muito ruim.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Há um romance em vias de ser publicado, mas não sei como vai ficar nesse contexto de pandemia e total incerteza sanitária, política, econômica e global que estamos vivendo. A ver... Deixo um trecho:

“apura os ouvidos. ouça as coisas que diz. consoantes, vogais, sílabas dilatadas. disseque as vírgulas por trás das pausas táticas: para quem sabe ouvir, esses ciscos no assoalho da oração produzem curiosos efeitos especiais. o que há de verdade no teu texto imberbe? ouça sua norma culta. gestos que te escapolem à revelia, cerque-os para sentir sua textura. você nem nota os lapsos de linguagem que te acompanham com frequência. já parou pra se ouvir enquanto fala? a gente acha que sabe o que diz. escuta, agora, tua própria voz. agora. consegue ouvir? sujeito indeterminado, verbo intransitivo, objetos indiretos. o que se segue a esses ditos, gruta e estalactites, é promessa de abismo lexical. cacofonia verbal infinita. vazio semântico. ausência de chão”.

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Onde encontrar Vivian Pizzinga?

Ela está no facebook, clique aqui.

Seu último livro, “Extravios”, está aqui.

Sobre os livros publicados pela Editora Oito e Meio, clique aqui.

Editora Patuá, clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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