café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

10 lições do filósofo Cícero sobre a amizade


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Todos conhecem a música que Roberto Carlos canta e, é claro!, trata-se de uma hipérbole. Por outro lado, existe sim esse desejo de ter muitos amigos e as redes sociais criam essa ilusão para satisfazer a demanda. Certa vez ouvi de uma conhecida:

— Eu já tenho 5 mil amigos no face e mais 8 mil me seguindo.

Fiquei calado, mas você sabe o que pensei, né? Então, há um tratado filosófico belíssimo sobre a amizade — a verdadeira e não esta coisa fake de multidão — escrito por Marco Túlio Cícero (106-63) que viveu antes de Cristo, em Roma, capital do grande Império.

Cícero foi advogado e filósofo, tendo exercido o cargo de Consul. Como político, sempre defendeu a República Romana — foi assassinado por isso — e é considerado um dos maiores prosadores da Roma Antiga.

Cícero escreveu “LÉLIO, ou A AMIZADE” (“Saber envelhecer e A amizade”; tradução de Paulo Neves. – Porto Alegre: L&PM, 2011), uma narrativa maravilhosa e cheia daquela sabedoria que só os antigos têm. Neste livreto, Cícero é Lélio. Explica o filósofo:

“Desta vez, já que nossos pais nos ensinaram que a intimidade entre Caio Lélio e Públio Cipião foi a mais memorável que existiu, é a pessoa de Lélio que me pareceu adequada para desenvolver as ideias das quais precisamente Cévola se lembrava por tê-lo ouvido discorrer. De resto, esse gênero de exposição, posta sob a autoridade de homens do passado, e dos mais ilustres, não sei por que razão me parece ter mais peso. Assim, quando me releio, experimento às vezes a bizarra impressão de que é Catão, e não eu, quem fala.”

“Incorporando” Caio Lélio como eu-literário, Cícero nos deixa importantíssimas lições de vida. Note bem.

1- Assim como as verdadeiras amizades, a vida da alma é imortal:

“Com efeito, não poderia filiar-me às teses daqueles que, recentemente, começaram a afirmar que os espíritos perecem juntamente com os corpos e que tudo é destruído pela morte. Dou mais crédito à autoridade dos antigos, e mesmo de nossos ancestrais, que atribuíram aos mortos direitos tão sagrados: o que seguramente não teriam feito se julgassem que nada mais lhes concernia.”

“(...) as almas dos homens são divinas e que, tão logo saídas do corpo, veem abrir-se diante delas o retorno para o céu, tanto mais direto quanto pertenceram a humanos particularmente bons e justos.”

E também, para Cícero, os “mortos” nos visitam em sonhos. Ele pensa que se a morte é para o homem bom e justo a libertação da prisão do corpo para viver com os deuses celestes então cabe a ele comemorar a morte de um amigo, ainda que admita uma dimensão de tristeza. Por outro lado, se a morte é o fim de todas as coisas, um estado de não consciência, então não cabe lamentar a morte de um amigo, pois não haveria qualquer sofrimento envolvido no estado de não consciência (neste caso, ele está refutando argumentos epicuristas sobre a morte). O fato é que “as verdadeiras amizades são eternas”.

2- As velhas amizades devem ser priorizadas:

“(...) a mais antiga, como os vinhos que suportam o envelhecimento, deve ser a melhor, e se diz a verdade quando se diz que ***é preciso ter comido muito sal juntos antes de cumprir nossos deveres de amizade***. É que se os novos relacionamentos, como plantas que nos fazem esperar que amadurecerão o fruto desejado, evidentemente não devem ser rejeitados, há todavia que conservar à antiguidade seu lugar. Com efeito, há uma força muito profunda na antiguidade e no hábito.”

“Como regra geral, só se julgarão as amizades quando elas já tiverem sido fortalecidas e confirmadas, tanto pela evolução do caráter quanto pelas épocas da vida, e não é porque, na juventude, as pessoas se frequentaram na caça ou no ‘jogo de pela’ que devem se considerar inseparáveis daqueles que amaram, no tempo em que compartilhavam a mesma paixão.”

Cuidado para “não se apressar em amar, sobretudo pessoas que não são dignas disso.”

3- A amizade é o melhor patrimônio que temos nesse mundo:

“De minha parte, tudo o que posso fazer é vos incitar a preferir a amizade a todos os bens desta terra.” “Entre parentes, a natureza dispôs com efeito uma espécie de amizade; mas ela não é de uma resistência a toda prova. Assim a amizade vale mais que o parentesco, em razão de o parentesco poder se esvaziar de toda afeição, a amizade não.”

“Por isso, nem água nem fogo, como se diz, nos são mais prestimosos que a amizade. E aqui não se trata da amizade comum ou medíocre, que no entanto proporciona igualmente satisfação e utilidade, mas da verdadeira, da perfeita, à qual me refiro (...). Pois a amizade torna mais maravilhosos os favores da vida, e mais leves, porque comunicados e partilhados, seus golpes duros.”

“(...) o poder de que dispõem muitos homens poderosos é incompatível com toda amizade fiel. É que a Fortuna não apenas é cega, mas sobretudo torna cegos, na maior parte do tempo, os que ela favorece; eles tombam facilmente na arrogância e na fatuidade, e nada poderia ser mais insuportável que um imbecil feliz. Assim, podemos ver pessoas, até então de um convívio agradável, se metamorfosearem: sob o efeito do comando, do poder, do êxito nos negócios, ei-los a desdenhar suas antigas amizades para cultivar novas. Mas que há de mais estúpido, quando se dispõe de riquezas, facilidades, consideração, que oferecer-se tudo o que o dinheiro pode proporcionar, cavalos, domésticos, roupas luxuosas, baixela preciosa, e não fazer amigos, que são, como eu disse, o melhor e mais belo ornamento da vida?”

4- A amizade verdadeira se dá entre iguais:

Este é um aspecto polêmico, pois há quem defenda que a maturidade emocional se vê na amizade com pessoas diferentes, outros consideram que aqueles que se amam e se dão o respeito preferirão as amizades iguais, pois nela encontrarão sintonia moral-espiritual e as mesmas inclinações de caráter. Cícero diz:

“(...) nada tem tanta força de sedução e de atração quanto a semelhança que conduz à amizade, seguramente nos concederão ser verdadeiro que os homens de bem amam os homens de bem e se associam a eles, como se estivessem ligados pelo parentesco e pela natureza.”

Somente entre os iguais, semelhantes em caráter, poderá surgir amizades estáveis e leais. Diz o filósofo: “(...) essa estabilidade, essa constância são uma confirmação daquilo que buscamos na amizade: a lealdade. Com efeito, nada é estável no que é desleal. Para nosso igual, devemos escolher também uma pessoa franca, afável, com quem podemos nos entender, isto é, que reage às coisas da mesma maneira que nós. Tudo isso está relacionado à fidelidade.”

“(...) a amizade, estou convencido, só pode existir nos homens de bem.”

E quem são esses homens de bem?

Para Cícero, são todas as “pessoas que, em sua conduta, em sua vida, deram prova de lealdade, de integridade, de equidade, de generosidade, que não trazem dentro de si cupidez, nem paixões, nem inconstância, e são dotadas de uma grande força de alma...”

“Quanto aos que colocam na virtude o soberano bem, sua escolha é certamente luminosa, já que é essa mesma virtude que faz nascer a amizade e a conserva, pois, sem virtude, não há amizade possível!”

5- Amizade envolve honestidade, confiança e carinho:

“(1) primeiro, nunca admitir o que é fingido ou simulado; pois é mais honesto odiar abertamente que dissimular, sob uma face hipócrita, seu sentimento. A seguir, (2) não se contentar em rechaçar as acusações feitas por alguém, mas preservar-se a si mesmo de uma suspeita que leve a imaginar constantemente que o amigo teria algo de reprovável. (3) Acrescentemos a isso uma certa afabilidade na conversação e nas maneiras, com a qual não se deve esquecer de condimentar a amizade.”

6- A amizade nasce da generosidade e não do interesse:

“(...) amar não é senão querer bem o ser que se ama, sem que se trate de preencher uma falta ou de obter um benefício: o qual desabrocha sozinho, no contexto da amizade, mesmo que de maneira nenhuma tenha sido buscado.”

“Com efeito, quando somos generosos e bondosos, quando não exigimos reconhecimento – não contando com nenhum proveito próprio, tendo apenas uma vontade espontânea de ser generoso –, é então, penso, que convém, não movidos por uma esperança mercantil, mas convencidos de que o amor traz em si seu fruto, querer atar amizade.”

7- Amizade não é pactuação com canalhices!

“Em amizade, será portanto uma lei nada pedir de vergonhoso e não ceder a nenhuma súplica dessa espécie. É uma desculpa escandalosa, com efeito, e inteiramente inadmissível, pretender que, embora prejudicando o Estado por más ações, defendeu-se a causa de um amigo.”

“Essa é portanto a primeira lei que se deve instaurar em amizade: não pedir a nossos amigos senão coisas honestas, não prestar a nossos amigos senão serviços honestos, sem sequer esperar que no-los peçam, permanecer sempre confiante, banir a hesitação, ousar dar um conselho em total liberdade.”

“(...) a amizade nos foi dada pela natureza como auxiliar de nossas virtudes, não como cúmplice de nossos vícios, a fim de que a virtude, não podendo alcançar sozinha o soberano bem, o alcançasse ligada e apoiada à virtude de outrem.”

8- Sinais de uma amizade real:

“Fazer e receber advertências é portanto o critério da amizade verdadeira, contanto seja feito com isenção de espírito, sem maldade, e que o outro aceite pacientemente, sem irritar-se: assim devemos nos persuadir de que não há flagelo maior na amizade que a adulação, a bajulação, a baixa complacência. Pois, chame-se com os nomes que se quiser, é preciso estigmatizar esse vício das pessoas frívolas e hipócritas, cuja palavra busca sempre agradar, jamais exprimir a verdade.”

“Mas a maioria das pessoas, por ausência de discernimento, para não dizer por impudência, querem ter um amigo tal como não saberiam ser elas próprias: gostariam de receber de seus amigos o que não lhes dão. Convém, preliminarmente, sermos nós mesmos homens de bem, antes de buscarmos alguém semelhante a nós.”

9- Cuidado antes de escolher uma amizade:

“A regra que caberia antes ensinar é escolher o leque de nossas amizades com bastante cuidado para jamais começarmos a amar alguém que corremos o risco de um dia odiar. Ademais, se ocorresse de não termos sido muito felizes na escolha de nossas afeições, Cipião pensava que deveríamos suportá-la, e não prepararmo-nos para tempos de inimizades.”

10- Quando teremos certeza da solidez de uma amizade?

“(...) o poeta Ênio disse muito justamente: O amigo certo se vê nos dias incertos.”

Medite em cada uma dessas dez lições e avalie o conjunto de pessoas que hoje você chama de amigo ou amiga. Será isso mesmo?

Os antigos, como Cícero e tantos outros, sabiam viver. Nós engatinhamos.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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