café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Cinco poemas de Antonio Nogueira


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Antonio Nogueira é escritor, professor de História e autor de “O oráculo me seduz ao vácuo” (2020), lançado pelo selo Mundo Contemporâneo Edições. Tendo olhos e ouvidos atentos ao Jazz e a boemia, Nogueira admite que estas são as influências diretas em sua poesia.

1. De onde você vem?

Das ruas; onde aprendi a observar o mundo e questionar tudo que via. Da boemia, das lutas, da observação. Sempre gostei de escrever aquilo que via, na fila do pão, na mesa do bar, na praça conversando com algum amigo, ou nos momentos de solidão pelo mundo afora. De formação sou historiador, graduado pela UGF e mestre em História social pela UERJ, interessado pela história política e social do Brasil, dos livros e das ruas, além de apaixonado pela educação. Como professor estou mais de 10 anos em sala de aula, local importantíssimo para entender o que é Brasil e o que é o ser humano. Em suma um carioca que não consegue separar trabalho de suas lutas e paixões.

2. Carlos Drummond de Andrade disse que “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece.” Quem você ama ler? .Quais são as suas referências literárias?

A poesia sempre foi grande companheira que me ajudou a entender momentos de dificuldade na vida pessoal. Venho da dialética entre os rigores da academia e da escrita livre que encontrei na poesia. Ouvia desde menino meu avô contar sobre as ditaduras militar e da fome, imposta ao nordeste. Essa atenção me fez recorrer aos autores nordestinos como Jorge Amado e Graciliano Ramos. Posso dizer que “Vidas secas” (Graciliano) tornou-se uma de minhas maiores influências ao lado da liberdade na escrita pretendida pelos estadunidenses da geração beat, proposta interessantíssima e se possível ao som de jazz. Há uma grande introspecção em Fiódor Dostoiévski que me encanta tanto quanto as (belas) descrições trágicas de Baudelaire.

3. Já lançou algum livro? Participou de antologias?

Sim. Ano passado (“O oráculo me seduz ao vácuo” 2020) reuni algumas poesias que estavam anos e anos na gaveta. Coisa de 15, 20 anos. Sobrou algumas poucas que juntei com algumas mais recentes, essas, serão parte de um trabalho que esta por vir. Fiz um posfácio numa reunião de poesias de alunos de um grande irmão, Michael Saraiva, chamado “Farofa literária” (2019). Em 2014 uma poesia minha foi publicada no jornal literário de outro camarada, Kavita. No ano 2000 ganhei um concurso de poesia da escola, mas minha professora à época fez o favor de perder a poesia.

4. Federico Lorca disse que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." E quando foi que você tocou esse mistério?

O ano era 1995. Com um problema que tive no fêmur, não podia fazer muito esforço, logo descer e subir escada deveria ser evitado. Assim, todo o dia na hora do recreio não descia para o pátio, frequentava diariamente a biblioteca da escola que ficava de frente para minha sala de aula. Drummond, Mário Quintana, Oswaldo de Andrade, foram ótimas companhias durante muitos anos. O Graciliano Ramos apareceu nessa época. O que Lorca chamou de poesia acredito ser o tripé: solidão, dor crônica e introspecção. Ao menos pra mim, nesse primeiro contato, que sempre vai se ressignificando como tudo na vida.

5. “Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa). E quais são os seus sonhos?

Que o mundo se torne poesia, ou seja, sonho com a destruição de qualquer forma de opressão. Acredito que somente assim teremos um pouco de liberdade para sermos verdadeiramente humanos. Antes disso, somos apenas sonhos que podemos ter, somos uma projeção da própria capacidade humana, uma potência, um ainda não.

Doce

  • O veneno sutil goteja na alma,
  • O silêncio se cala a ouvir o estrago
  • Das gotas vestidas de incêndio.
  • Subjuga-te ator que mente pra si mesmo,
  • Na cena da cela na cadeia dos mortos, onde
  • Abraça a loucura das grades, quando nos
  • Ouvidos sopram a multidão de isolamento.
  • O ator atua valores descontentes no acidental
  • Percurso da benção de sua cura, quando abre
  • Os olhos para adormecer em paz. Não há
  • Horizonte a um passo da ponta até o chão, só
  • Há o fim, e com ele a micro historia amordaçada.
  • O veneno sutil goteja no copo, infalível como doce, rasteja
  • Em mim abraçando meus poros, cansados, utópicos.

Conservadorismo molhado

  • No discorrer do dia a dia, bailava a dançarina.
  • No tom da perdida melodia, lavava a alma com
  • Seu dom de se perder, até seu próprio mar morder
  • sua luxúria flutuante, se tocava feito amante,
  • Transformando a água cristalina, com seu liquido corante,
  • (Um belo uísque: ninfeta anos 20)
  • Calmaria em correnteza delirante.
  • Enfeitiçando as nuvens com enfeites de fumaça que
  • Saem da amarga boca embriagada com o alucinógeno,
  • Líquido da vida.
  • Sangrando
  • Suas costas acenavam aos deuses no momento sagrado; desvencilhando do paraíso Dionísio.
  • Encharcada de mar, secava-se nas chamas do conservadorismo...
  • Onde ardiam o centro de suas colunas gregas, no vago
  • Cansaço desenhado a mão a contra gosto a contra mão.

Gados fadigados

  • O tempo colado na sola do sapato
  • Ameaçado pela caça da lembrança
  • Levanta o mau cheiro adormecido.
  • A poesia me liberta quando me ironiza
  • Pelo aprisionamento da palavra não
  • Dita (esquecida?).
  • No segundo que se cala o silencio me
  • Fala: “a calmaria da romaria não evita
  • a fadiga”.
  • Fadigada, a palavra bonita se torna maldita.

Imagem do invisível

  • Esses dias foram olhar as mãos já não as viam.
  • Esses dias foram olhar os pés já não havia, não
  • tremiam de frio, num perdido olhar se escondiam.
  • Não caminhavam, não bailavam, assim como as
  • mãos já não havia. Com um pano a cabeça
  • se cobria, partia, então, a visão que se feria,
  • aclamada seria se recitasse poesia, porém
  • fechada deteria a paixão inesgotável da
  • anatomia que se ia.
  • A garganta não arranha, se cala, fechada pela
  • tala, na tela some a pele, com descuido os
  • músculos somem e os ossos apodrecem
  • aparecem indo embora danosos, até que
  • timidamente somem.

Torre sul

  • I
  • Rastejo as narinas na estrada do cheiro
  • Dos cachos que evocam países remotos na torre do sul.
  • Um vulto inunda a resistência dos teus beijos, quando te invado
  • a boca e ocupo os seios.
  • II
  • Que aflige a anatomia da esfinge?
  • Que traço faço em cada aço da textura que treme
  • De desejo?
  • Que rege a moldura do teu eu? Pena e papel
  • Não sustentam a verbena que escondes de mim.
  • III
  • Encontros de lábios aprazem o mistério de mulher:
  • Bocas tenazes se comem entre guerra e paz. Ela é prenda da
  • Lua e talhada de terra. Plácida e bela berra aquela Bromélia: “flor,
  • órgão Sexual de uma planta”. Teu gozo é anatomia e me inspira à poesia.
  • IV
  • Mulher mutante, anatomia errante. Tu vens da terra, sopras
  • ao vento, dilui-se em mil pedaços, dispersos, tornam-se hordas
  • e germinam à tua horta. Confundem o ermitão que te observa.
  • Um farol na torre do sul? Um oásis no deserto? Bailamos juntos
  • pra saber, quem devora quem na nossa loucura que nos cerca.

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Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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