café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Cinco poemas de Dora Incontri

Dora Incontri é o pseudônimo que ela adotou em homenagem ao seu bisavô materno, amante de ópera e anarquista. A poeta Dora Incontri é formada em jornalismo com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia da Educação (USP). Coordena a Universidade Livre Pampédia.


Dora em preto mãos.jpg

1. De onde você vem?

Sou paulistana, 58 anos, e moro há 20 anos em Bragança Paulista. Sou jornalista, mestre, doutora e pós-doutorada em educação pela USP, escritora, e coordeno um projeto de educação alternativa: Universidade Livre Pampédia.

2. Carlos Drummond de Andrade disse que “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece.” Quem você ama ler? .Quais são as suas referências literárias?

Na literatura, meus preferidos são Guimarães Rosa, gênio absoluto, e outros gênios Machado de Assis e Tolstoi. Na poesia, Cecília Meirelles, Fernando Pessoa. Na filosofia, Platão. Na espiritualidade, os Evangelhos, Kardec.

3. Já lançou algum livro? Participou de antologias?

Tenho mais de 40 livros publicados: entre poesia, obras sobre educação, espiritualidade, infanto-juvenis, didáticos, filosofia. E sou sócia-proprietária da Editora Comenius.

4. Federico Lorca disse que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." E quando foi que você tocou esse mistério?

Desde antes de aprender a ler, minha mãe já lia para mim e havia poesias infantis que me falavam. Lembro-me aos 6 anos recitando um poema para minha primeira professora. Quis ser poeta e escritora aos 11 e ganhei minha primeira máquina de escrever. Aos 13, já fazia poesias e publiquei alguns versos num jornal de bairro.

5. “Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa). E quais são os seus sonhos?

Tenho tantos, cito três: ajudar a mudar a educação, tornando-a mais amorosa, mais ativa, e com uma espiritualidade plural; semear poesia aos quatro ventos; viver num mundo mais fraterno e mais justo.

Ciclos

  • O tempo morre e renasce o tempo inteiro
  • Refaz-se o ano em janeiro
  • Propondo a novidade de um roteiro.
  • Da vida, o tempo extrai a morte,
  • Da morte, o tempo gera vida.
  • Alterna-se o tempo em toda sorte
  • De chegada e de ida, de vinda e partida...
  • O tempo é mestre dos destinos
  • Com ele somos sempre peregrinos,
  • Carregando amores e saudade
  • Em busca de uma eternidade!

(Do livro A HORA DE DORA, Editora Comenius, 2014)

O bem-te-vi

  • O bem-te-vi me fala da janela,
  • Canta com voz amarela
  • Na tarde de sol que se esvai...
  • E um ressaibo de saudades me cai
  • Na alma de sentinela.
  • Mãe, infância, jardins,
  • Quintais e tardes sutis
  • São névoas da cor dos jasmins.
  • Tudo passa e tudo fica
  • Porque a vida se transmuda
  • Com perdas, dores e fins.
  • Mas também se retifica
  • Pois se a matéria se muda,
  • A alma é sempre mais rica
  • E o amor é sempre sem fim.

(Do livro A HORA DE DORA, Editora Comenius, 2014)

A salvação da poesia

  • Depois de uma guerra
  • Sobra poesia?
  • E enquanto se atura
  • Uma pandemia?
  • Sobrevive a poesia?
  • Mas em tempos de paz suposta
  • De normalidade torta
  • Onde se esconde a poesia
  • No meio da noite fria
  • Com o irmão da rua?
  • Como se canta a lua
  • Com a chacina na favela?
  • A poesia, onde se esgueira
  • Ante a criança abusada
  • Ante o pobre sem beira
  • E a mulher espancada?
  • Onde se acha a poesia
  • Quando a natureza anda abatida?
  • A poesia corre enlouquecida
  • Ávida de flores e de delicadezas.
  • A poesia grita proezas
  • Para reclamar justiça e humanidade,
  • Para ensaiar beleza e sanidade!
  • Apesar dos pesares
  • A poesia persiste
  • Avista estrelas
  • Na noite triste.
  • Abre-se em mares
  • De pranto reparador.
  • A poesia pode gemer de dor
  • Mas ainda nos salva do destempero
  • Abranda o desespero
  • E nos faz tecer
  • A cada dia, um caminho
  • De certo alvorecer...
(Do livro LUAS VERMELHAS – POEMAS DE OUTONO, Editora Comenius, 2020)

Votos de mulher

  • Não quero flores
  • Porque elas ainda têm sangue.
  • Não quero amores
  • Que me deixem exangue.
  • Não quero migalha
  • De direito torto.
  • Quero igual salário
  • A quem, como eu,
  • Em dobro trabalha.
  • Não quero assédio
  • Nem feminicídio.
  • Nem olhar promíscuo
  • De homem médio.
  • Não quero o tédio
  • De outro ego arisco
  • Sobre minha dor,
  • Sem nenhum remédio.
  • Quero-me inteira,
  • Gorda, magra ou virgem,
  • Ou puta alvissareira,
  • Casada, amante ou solteira,
  • Ou casta monja à beira.
  • Quero-me alma prazenteira
  • E corpo ao meu gosto,
  • Sem desgosto imposto
  • Sem forma embusteira.
  • Quero-me mãe, irmã, companheira,
  • Às vezes terna, às vezes guerreira,
  • Resistência e não mais
  • A boneca faceira,
  • Que se faz brincadeira
  • De um homem capataz.
  • Irmãs, nossa é a luta
  • Que não disputa
  • O poder do poder
  • O poder de ter.
  • Nossa é a luta
  • De poder ser.
  • Irmãs, nossa é a labuta
  • Por mais escuta
  • De qualquer padecer.
  • Seja-nos esta vida enxuta
  • De lágrima e sangue.
  • E jamais se faça curta
  • Pela força bruta
  • De uma insana gangue.
  • Irmãos, aqui estamos
  • Irmãs e mães, amores e filhas...
  • Não queremos guerrilhas
  • Nem fugirmos todas às ilhas
  • Em que as Safos se escondem.
  • Reine entre nós serena amizade,
  • Parceria, respeito e igualdade.
  • Nenhuma voz jamais seja calada.
  • Só isso. E mais nada.
(Do livro LUAS VERMELHAS – POEMAS DE OUTONO, Editora Comenius, 2020)

Poema do mar revolto

  • Pra comandar o destino
  • É preciso se entregar!
  • “Não sou eu quem me navega,
  • Quem me navega é o mar!”
  • Entregar-se em coração
  • De doçura de criança,
  • Coragem desbravadora
  • Com serena confiança.
  • Entregar-se, pois no mar
  • É Deus que governa o vento
  • E o leme nas nossas mãos
  • Obedece ao seu sustento!
  • Entregar-se com unção
  • Avistando o porto ao longe
  • Ainda que atrás das brumas
  • A terra de nós se esconde!
  • Então, num dia de azul
  • Vem a praia iluminada
  • E vemos: ventos e mares
  • Foram assim quase um nada!

(Do livro LUAS VERMELHAS – POEMAS DE OUTONO, Editora Comenius, 2020)


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Marcio Sales Saraiva