café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Cinco poemas de Neusa Pivatto

A poeta e cientista social Neusa Pivatto é natural de Garibáldi (RS) e vive no Rio de Janeiro. Sua produção poética é imensa, mas ainda não lançou livro na área.


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1. De onde você vem?

Resposta: Sou bacharel em Ciências Sociais com pós-graduação em psicopedagogia institucional, ela participou de diversas iniciativas governamentais que envolveram os direitos humanos das pessoas idosas, mulheres e jovens. Escreveu e/ou organizou cinco livros: "Personas mayores: hacia una agenda regional de derechos" (MERCOSUL), “Dez anos do Conselho Nacional dos direitos do idoso; repertórios e implicações de um processo democrático”, “Estatuto do idoso. Dignidade humana como foco” e “Manual de enfrentamento à violência contra a Pessoa Idosa” e “Mapa das políticas, programas e projetos do governo federal para a população idosa”. Também foi, no Rio Grande do Sul, diretora de educação do município de Esteio e professora do município de São Leopoldo por 18 anos. Atualmente, moro no Rio de Janeiro.

2. Carlos Drummond de Andrade disse que “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece.” Quem você ama ler? Quais são as suas referências literárias?

Resposta: Ler pode ser doloroso! Explico. Não tive acesso a livros até os meus 19 anos. Ávida por leitura, lia os restos de jornal que embrulhavam as bananas que meu pai comprava. Quando tive acesso quis ler "Guerra e Paz". Doeu!

Fui aprendendo nos últimos quarenta anos.

Mario Quintana é meu passarinho. Federico García Lorca meu guia em rebeldia e coragem, Wis£awa Szymborka certeza da escolha que fiz, Charles Baudelaire a certeza de que é possível escrever uma bela poesia após ver uma égua morta em posição lasciva, ou seja, é possível escrever sobre tudo. O "Desassossego" de Fernando Pessoa é o meu desassossego. A portuguesa Matilde Campilo fala de asas e impactos como eu. Carlos Dummond de Andrade rompeu o trato com o tempo e partiu ante que eu pudesse conhecer o poeta das confidências. Poderia passar dias citando e falando dos e das poetas do mundo...Carolina de Jesus diria que sou exagerada e Conceição Evaristo me dá coragem. Com Clarice compartilho liberdades e melancolias, além da capacidade de superação, pois sentada junto a ela, eu quase nua e ela em postura elegante, na Praia do Leme, onde foi posta de costas para o mar. Se consultada diria: libertem-me da sua estupidez!

3. Já lançou algum livro? Participou de antologias?

Resposta: Não. Livros de poesia não. Coordenei publicações que estão no meu currículo. Tenho mil e duzentas poesias escritas e um livro de histórias infantis. Material suficiente para 5 livros. Não tenho recursos para publicar. Talvez nunca venha a publicá-los. Não é motivo para não os escrever.

4. Federico Lorca disse que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." E quando foi que você tocou esse mistério?

Resposta: A poesia sempre esteve em mim, mesmo quando eu não sabia escrever. Eu sou vítima de trabalho infantil de onde fugi aos 19 anos. Nas noites, enquanto todos dormiam – e eu era a última a dormir e a primeira a acordar -, eu sentava num tronco de árvore e observava a lua e ali ficava por mais de uma hora, olhando o Vale das Brumas, como eu chamava. Eu ficava imaginando tantas coisas, fabulando, conversando comigo, projetando o que deveria ser minha vida, mas sem nada saber sobre poesia. Eu sabia que não poderia ser aquilo e precisava me preparar para sair deste lugar, para fugir dessa situação. E por muitos anos trabalhei muito para sair do semianalfabetismo à dois cursos universitários, pós-graduação etc.

Quando me aposentei, depois de anos e anos trabalhando como professora e ensinando poesia para as crianças – e elas adoram poesias! –, eu precisava buscar algo para fazer. Depois de 40 anos trabalhando, num belo dia, depois de tanto ler poemas, comecei a escrever. Pensei que além de ler, poderia também escrever poemas.

Em julho de 2017, já no Rio de Janeiro, depois de me aposentar em Brasília, dei início. Era um poema por dia. E com tanta vontade, passei para três ou quatro poemas por dia. Hoje escrevo algumas por semana. Já é um hábito e consequência das coisas que leio e pesquiso. A minha paixão, fuga e alegria, é da vontade de seguir escrevendo sobre as coisas que precisam ser ditas: nossas emoções e lutas, nosso sentir e sofrer, nossas alegrias e nossa solidão.

5. “Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa). E quais são os seus sonhos?

Resposta: Fiquei emocionada com esta pergunta porque boa parte da minha vida foi de sonhos não realizados, sonhos tardios. Tudo que eu queria ser havia uma impossibilidade. Aí se instaura uma luta existencial.

Eu, desde muito jovem, já era uma militante das causas ecológicas, algo instintivo, e lá no meio da mata eu já enfrentava meus irmãos destruindo suas arapucas para pegar passarinhos.

Depois eu fui casada por vinte anos, tenho dois filhos, netos e eu queria mais que isso. Seguir estudando foi uma batalha dura. Trabalha durante o dia e estudava a noite, por mais de quinze anos, para poder ter melhores condições de encontrar trabalho. E trabalhei em dois ministérios na área de proteção as mulheres, aos jovens e a população idosa. Então, desejos que eu tenho...

O maior deles é o de justiça social. Este é o maior dos meus desejos. Não há como ser feliz sem ter o que comer, sem ter onde morar. Sonho que todos possam existir com dignidade. No campo particular, sonho em seguir escrevendo e contribuindo para uma sociedade mais humana e isso não é pouca coisa, pois nós vivemos dias terríveis com um governo perverso e genocida. Nós precisamos lutar muito e pouco vejo tais mobilizações. As pessoas se quer reagem, a despeito do período pandêmico que estamos vivendo. Há uma inércia generalizada, quase paralisação dos movimentos sociais, com lutas pontuais, cá e lá, dolorosas, sem dúvidas, mas diante da monstruosidade que temos hoje, pouco se tem feito. É parte dos meus sonhos superar esse estado de coisas para que possamos viver num mundo justo. Esse é o meu maior sonho. E seguir escrevendo, óbvio, pois isso faz parte das minhas entranhas.

Palavras ao vento

  • Já não sei como canta o vento:
  • se em gargalhadas feito demente
  • ou em rasantes qual adolescente.
  • Ausentes as saias esvoaçantes,
  • soltas, dançantes.
  • Já não sabe o vento se chora
  • Ou se gargalha mostrando os dentes.
  • Por ora, faz balançar as folhas
  • caindo, solenemente,
  • ensaiando um cansaço em bolhas!
  • Ah, infindável a espera!
  • Sem saber se acaso o vento lá fora
  • me levará feito esteira,
  • como nos tempos de outrora.

Na ponta dos pés

  • Há dias em que ando na ponta dos pés.
  • Pura curiosidade,
  • testando a leveza da vida.
  • Sempre que se apresenta pesada,
  • a me fazer carregar sacos de pedra,
  • recorro à sola inteira, posta com firmeza.
  • Mesmo assim vou treinando,
  • levanto os pés devagar, bem devagarinho
  • e, logo, logo, lá estou eu toda leve como uma
  • embarcação vazia, solta na lagoa.
  • A embarcação carrega um peso que não é dela,
  • mesmo assim desliza, flui, transpõe
  • até o outro lado da margem.
  • Sempre busco o dia da leveza
  • para andar na ponta dos pés, protegendo
  • as pernas da vida
  • com lindas meias rendadas.

Ausentes as luzes da Aurora

  • Não é má vontade,
  • desesperança,
  • mas ando meio assim...
  • em reprises de filmes antigos.
  • Meus olhos, sempre felinos...
  • fraternos demais.
  • Até mesmo as lembranças me chateiam.
  • Desmerecido o tempo das conquistas.
  • Já não há quem cante
  • ao meu coração por cem anos.
  • Ando em vontades outras de desligar as emergências,
  • as frequências...
  • apagar as evidências!
  • Até mesmo os compositores andam metidos em obviedades,
  • em embriaguez
  • provocada por dores falsas.
  • Já não traduzem as humanas dores
  • postas a nos demolir.
  • Por onde andarão os "Carlitos,"
  • espelhos dos aflitos?
  • Argumentos?
  • Cada um com os seus.
  • Os bares repletos de seres vazios...
  • em meio-termo.
  • Já não reconhecem um abrir e fechar de olhos, em movimentos lentos.
  • São como vento em rede de pescador...
  • já não traduzem uma tarde em toque âmbar.

Insustentável exílio

  • Revisitando cada canto
  • da alma em frangalhos,
  • plantando os tocos dos galhos
  • em terra funda,
  • para que brote.
  • Insuportável o exílio
  • para quem , como eu
  • é filha, é filho
  • é pai, é mãe
  • é vô, é vó...
  • É de dar dó!!!
  • Não poder encontrar a água,
  • mergulhar na ilha.
  • O dia finda, sem querer.
  • Em prazer pouco ou não,
  • cai a noite,
  • chega a escuridão.
  • Não há de durar para sempre;
  • até a areia molhada seca
  • e desgruda do pé.
  • Não são dias para se falar de fé;
  • assusta quem a prega, que a professa.
  • Dias para não acreditar em promessa.
  • Estamos a passar com pressa
  • por assuntos tantos,
  • para evitar o pranto.
  • Saber do nosso esqueleto,
  • qual peso pode carregar
  • para não sucumbir
  • e perder o ar.
  • Ah, as reservas!
  • Estão lá, sempre estão lá!!!
  • Talvez não saibamos qual a dose,
  • em que medida,
  • e em que tempo,
  • mas sempre voltamos para buscá-las,
  • a tempo.

Trôpegos dias

  • É sempre doce lembrar-te:
  • quando faz frio,
  • quando o calor te despe,
  • quando a chuva te enlaça.
  • Me encanta
  • quando todas as canções
  • me levam a universos seus.
  • Quando os trôpegos dias arrastam-se,
  • quanto te demoras,
  • minha existência perde a graça,
  • enamoram os breus!

Poema dose extra:

Em jaula de véus

  • Nasce o dia em sentidos
  • tidos em bailado matinal,
  • de uma história de domingo
  • sob o canto vindo em brumas.
  • Em resistência capturada
  • por sentimentos que se postam
  • desde a milenar explosão.
  • Em curso, contradição!
  • Pedido em repouso,
  • guardado em espaço lunar.
  • Contidos os gritos, a fúria da paixão
  • em ameaçada fuga, em desejos de chegar.
  • A noite se fez em impossíveis tristezas:
  • há um pedido sentado à espera de uma resposta sob as estrelas.
  • Em oferta, uma tábua ainda não percebida no seu quase naufrágio
  • em delirante canção ao mar.
  • A cada pedido, olha no espelho
  • os registros que dizem em voz embargada, em raízes profundas:
  • ainda não é hora de voar.
  • Mesmo postas as asas,
  • vê-se ainda em jaulas de véus voluntários.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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