café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

É COMPLICADO ENTENDER O PÓS-ESTRUTURALISMO?

Para muitas pessoas, o pós-estruturalismo é algo exótico, anticientífico e muito difícil de entender. O filósofo James Williams diz que não. Sendo assim, construí 10 consensos sobre o que é o pós-estruturalismo, na certeza de que há falhas e imprecisões, pois a verdade é impossível.


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O filósofo James Williams escreveu um livro para dizer que não.

O pós-estruturalismo é uma selva densa em que muitos estão até hoje perdidos. Não é fácil compreender todos os tópicos da discussão, muitos autores escrevem de uma maneira completamente diferente do “normal”, são muitos conceitos novos que esta corrente traz para o debate acadêmico e há sinergia entre pós-estruturalismo e pós-modernidade.

Alguns consideram o pós-estruturalismo anticientífico, outros o julgam reacionário e antimarxista, mas o escocês James Williams — Professor Honorário de Filosofia e membro do Instituto Alfred Deakin para Cidadania e Globalização na Deakin University. — teve a ousadia de escrever um manual para “provar” que o pós-estruturalismo é compreensível, não é contra Marx (ainda que problematize a mesmice do marxismo ortodoxo), não defende a eliminação do sujeito e, mais ousado ainda, diz ele que o pós-estruturalismo é fundamental para ampliar os horizontes da ciência e salvar o Iluminismo de seus autoenganos e de sua empáfia, contrariando toda a tradição que associa pós-estruturalismo com anti-iluminismo.

Neste livro — “Pós-estruturalismo”, tradução de Caio Liudvig, Petrópolis, RJ : Vozes, 2012 (Série Pensamento Moderno) — James Williams selecionará cinco autores (Derrida, Deleuze, Lyotard, Foucault e Kristeva) centrais para a compreensão do que é o pós-estruturalismo. Diz ele:

“Pós-estruturalismo é o nome para um movimento na filosofia que começou na década de 1960. Ele permanece sendo uma influência não apenas na filosofia, mas também num leque mais amplo de campos temáticos, incluindo literatura, política, arte, críticas culturais, história e sociologia. Essa influência é controversa porque o pós-estruturalismo é visto como uma posição divergente, por exemplo, das ciências e dos valores morais estabelecidos. O movimento é melhor resumido por meio dos pensadores que o compõem. Por isso, este livro tenta explicá-lo mediante um estudo crítico de cinco das mais importantes obras de cinco dos mais importantes pensadores do movimento (Derrida, Deleuze, Lyotard, Foucault e Kristeva). O objetivo maior é responder a duas das mais fortes críticas ao pós-estruturalismo: a primeira, que ele é deliberada e indiscutivelmente difícil; a segunda, que ele adota posições que são marginais, inconsistentes e insustentáveis.”

Veja que James Williams se propõe a fazer algo incomum. E foi seguindo os rastros argumentativos dele que eu bolei aqui uns 10 consensos em torno do que é e do que defende o pós-estruturalismo. Vem comigo...

CONSENSO 1

“O primeiro conceito que leva em conta esses pontos é que os limites do conhecimento têm um papel inevitável em seu âmago. Este é o denominador comum que permeia o pós-estruturalismo. ”

Aliás, esse não é um ponto novo. Assumir os limites do conhecimento humano tem uma tradição na filosofia, mas o pós-estruturalismo radicaliza essa dimensão “incognoscível”.

CONSENSO 2

“Os limites são a verdade do cerne e quaisquer verdades que neguem isto são ilusórias ou falsas. A verdade de uma população está onde ela está mudando. A verdade de uma nação está em suas bordas. A verdade da mente está em seus casos limítrofes. Mas a definição de um limite não depende da noção de um interior prévio? Você só sabe que dormir/ dormir/ dormir/ beber é desviante por causa do predomínio de acordar/ trabalhar/ comer/ dormir. Não, a definição independente do limite é o segundo mais importante denominador comum no pós-estruturalismo. O limite não é definido por oposição ao interior; é algo positivo por si mesmo. ”

Reconhecer os limites do conhecimento humano e apontar a “verdade” nas bordas, nas zonas limítrofes, lá onde as coisas estão mudando e entender que esses limites representam algo de positivo e não uma barreira para o saber.

CONSENSO 3

“O pós-estruturalismo é uma prática. Não se trata de argumentos abstratos ou observações imparciais, mas de uma expressão prática de limites em um determinado âmago. Isso explica por que as diferentes variedades de pós-estruturalismo recebem nomes que correspondem a atividades críticas e criativas práticas: desconstrução (Derrida), economia libidinal (Lyotard), genealogia e arqueologia (Foucault) empirismo transcendental (Deleuze), dialética (Deleuze, Kristeva). “

Ao contrário do que normalmente se diz por aí, o pós-estruturalismo não é uma “balbúrdia teoricista”, mas uma reflexionar crítico e criativo sobre práticas concretas e a partir destas práticas, rompendo com os “ideais modernos” de uma ciência abstrata, distante do “objeto” e “imparcial”.

CONSENSO 4

“O pós-estruturalismo é constantemente revivido pela abertura ao novo (à pura diferença). É oposto a qualquer certeza absoluta, mas só pode funcionar mediante essa oposição em repetidas práticas críticas e criativas. “

Toda a verdade-certeza é fascista, dogmática e prejudicial ao conhecimento. O pós-estruturalismo irá trabalhar com eventos, com o novo, a diferença, as dobras, as outras verdades ocultas na tal “verdade”, enfim, minando as certezas absolutas e fechadas construídas pela ciência moderna e pelas grandes narrativas.

CONSENSO 5

Entenda bem isso: “os pós- estruturalistas são contrários a todas as formas de essencialismo, determinismo e naturalismo. ”

Não fale de essência disso, nem que fulano é determinado pela sociedade ou pela psique ou que a natureza explica isso e aquilo. O pós-estruturalismo é centralmente contrário a qualquer ideologia que coloque o sujeito subjugado a determinismos (biológicos, por exemplo), contrário a quaisquer argumentos sobre a existência de alguma coisa em essência (tudo é imanência contra as metafísicas!), contrário aos apelos naturalistas. Há um imenso debate sobre esses tópicos no livro de James Williams, mas você pode pesquisar em outros trabalhos.

CONSENSO 6

“Este é um dos legados mais fortes dos pensadores pós- estruturalistas. Para o pós-estruturalismo, os valores são necessariamente imanentes e verdades externas abstratas são ilusões”, portanto, “a verdade se torna uma questão de perspectiva ao invés de uma ordem absoluta”.

E com isso o pós-estruturalismo irá minar todo e qualquer dogmatismo em torno da verdade, não para eliminar a ideia de verdade, mas para expandi-la para as bordas, para os limites, para outros cantos negados pela “ciência moderna”. Diz Williams:

“As verdades associadas ao conhecimento e à ordem são cruciais ao nosso bem-estar e coesão social. Lyotard não nega isso. Contudo, tais verdades não são tudo o que existe e, deste ponto de vista, um grande prejuízo pode acontecer se isto não for reconhecido. O pós-estruturalismo de Lyotard é uma conclamação a uma extensão da verdade, e não uma conclamação à recusa de verdades que por muito tempo foram úteis para nós e nas interações sociais e morais. “

CONSENSO 7

Ainda que o paradigma científico-cartesiano ocidental seja hegemônico, “o pós-estruturalismo não está focado prioritariamente no modelo da ciência em termos da compreensão e da orientação do pensamento. Ao invés disso, critica e reage a esse modelo, por vezes, até mesmo ignorado em favor de modelos mais estéticos. Para o pós-estruturalismo deve-se resistir ao predomínio do modelo das ciências e do conhecimento científico. “

Isso significa negação da ciência? Não. “Os pós- estruturalistas não são anticiência ou antitecnologia; ocorre que eles veem dimensões importantes que não podem ser contempladas de dentro da ciência“ tal como se apresenta hoje. As questões éticas, estéticas, sentimentais, intensidades, irracionalidades, a arte, a literatura etc. E é para integrar essas outras dimensões negadas pela ciência oficial que seguimos no consenso 8. Veja.

CONSENSO 8

“Obras de arte envolvem formas de experiência que mostram os limites dos modos estabelecidos de compreender e de valorar ambientes e experiências (Lyotard e Deleuze estão interessados no modo como isso se dá na pintura e no cinema, por exemplo, com respeito a experiências de espaço, tempo e memória. A relação da arte com o inconsciente mostra os limites da consciência e do eu (na obra de Kristeva). As obras de arte mostram como o significado é sempre excessivo e refratário a padrões ou métodos definitivos de interpretação (as desconstruções de Derrida operam nisto). O pós-estruturalismo vai além da crítica de arte ou de teorias da arte para se tornar parte dos processos artísticos. “

A arte poderá “salvar” a ciência ocidental de seu maniqueísmo e de sua epistemologia fechada. Creio que nenhum pós-estruturalista negaria tal afirmativa, levando em consideração seu aspecto irônico, claro. Pois o pós-estruturalismo tem muito de ironia contra os devaneios da “verdade objetiva”, do certo-errado, do bom-mal, do falso-verdadeiro, do “coisa de menino, coisa de menina”. Todos esses binarismos serão criticados pelo pós-estruturalismo que irá sublinhar a diversidade, o pluralismo, a complexidade da vida, dos saberes e de suas arqueologias, cartografias e genealogias.

CONSENSO 9

“As obras pós-estruturalistas são uma atividade radical, neste sentido de um processo ativo destinado a mudar situações e desenvolvê-las (mas sem normas, valores e verdades fixas). Desse modo o pós-estruturalismo é político. Ele muda nosso mundo e nossas visões de mundo num amplo leque de situações, por exemplo, em termos de nossas relações com nossos corpos, em termos de sexualidade, gênero, relações com os outros, e em termos de nossas relações para com o ambiente e o inconsciente. “

A questão é que no pós-estruturalismo o político é algo muito maior do que normalmente é dito ou assumido. Williams diz que no pós-estruturalismo “a extensão do político” nos leva para “uma gama mais ampla de processos de mudança radical”. Sexualidade é política, arte é política, literatura é política, religiosidade é política, raça é um conceito político, ciência é política, medicina é política, farmacologia é política. A política não é somente uma questão de partidos, eleições e governos, percebe?

CONSENSO 10

“O pós-estruturalismo é pós-marxismo e pós-maoísmo, mas é profundamente devedor de Marx. Todos os pós-estruturalistas aqui tratados insistiram que eles continuam com o espírito da obra de Marx como um movimento de esquerda, como um combate pelos marginalizados, pelos explorados e os destroçados. Mas, igualmente, eles resistem a definições fixas da sociedade, das estruturas políticas e dos movimentos revolucionários que provêm do marxismo-leninismo ou do maoísmo. O pós-estruturalismo rompe com o marxismo, mas trabalha com Marx. “

Este é um aspecto polêmico e que até hoje desperta amores e ódios. Não são poucos os marxistas — eu me refiro aos mais ortodoxos — que consideram o pós-estruturalismo reacionário, divisionista, liberal etc. Por outro lado, são muitos os marxistas que somaram o pós-estruturalismo com suas reflexões críticas sobre a ordem do capital e sua reprodução. De acordo com a perspectiva de Williams, o pós-estruturalismo rompe com o “marxismo clássico”, mas não com muitas idéias rupturistas de Karl Marx. Um dos livros citados é de Derrida e chama-se “Espectros de Marx”. Alguns consideram que o pós-estruturalista Derrida faz uma defesa de Marx contra aqueles que querem jogá-lo no lixo da história.

Um dos problemas com o marxismo clássico é que “o pós-estruturalismo envolve uma crítica da política utópica e uma reflexão sobre como manter o desejo por um mundo melhor sem uma imagem fixa do que este mundo deveria ser”. Em outras palavras, lutar por um mundo melhor não exigiria, para o pós-estruturalismo, nenhum compromisso com um projeto essencial alternativo chamado “socialismo”, não requer nenhuma “fé” em algum Reino futuro como o “comunismo”. Mais uma vez, o pós-estruturalismo está propondo manter-nos com os pés no chão, na concretude da vida, sem projetos utópicos, sem sonhos, sem devaneios, nem nomeações empobrecedoras. É a imanência contra todas as viagens transcendentais em defesa de paraísos apriorísticos.

O que querem os pós-estruturalistas com esse tipo de crítica?

“[Os] pensadores pós-estruturalistas querem nos curar do pensamento de que deveria haver uma resolução final (por mais que pacífica). Isso porque problemas estruturais insolúveis são a condição para a evolução de coisas e sistemas vivos. O melhor que temos a fazer é levar adiante as tensões e bloqueios e usá-los como oportunidades criativas para o revigoramento da vida, livre da ilusão de que um dia, graças às verdades certas, tudo virá a ser pacífico, ou pelo menos posto nos trilhos rumo à paz. “

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Não concluindo nada:

Para além de mapear os consensos, há muitas reflexões sobre a diferença existente entre os diversos pensadores deste campo e James Williams irá dedicar um capítulo para cada um deles. Depois irá tecer algumas “conclusões inconclusas” que são interessantíssimas, pois busca fazer um diálogo entre o pós-estruturalismo e o sonho iluminista moderno. Acompanhe-me....

a) “Desde seus inícios no século XVIII, o Iluminismo, ou o uso da razão no conhecimento, na ética e nas artes, tem tido papéis construtivos e destrutivos, embora ambos devam ser vistos como positivos na luta contra os inimigos do pensamento profundo. Destrutivamente, o Iluminismo defende o pensamento contra todas as formas de dogmatismo (a crença em ideias e valores irrefletidos ou falsos). Ele também defende a vida contra a ausência de pensamento crítico e criativo, ou seja, contra a inércia e a estupidez. Finalmente, ele luta contra o mau uso do pensamento numa defesa ou propagação deliberadas de falsidades, por exemplo, medos infundados em troca de ganho ou poder pessoais. Positivamente, o Iluminismo contribui para a construção de modos abertos de vida baseados no pensamento crítico. “

b) “Mas o principal alvo do pensamento deve ser o embate contra ignorância e à estupidez. Em termos desses argumentos, é importante perceber que a crueldade e a violência são possíveis no próprio pensamento, em ideias não verificadas, ou em métodos aplicados sem sensibilidade, ou em princípios imponderados, ou nas muitas formas de autoengano. “

c) “Cada uma das obras pós-estruturalistas aqui estudadas oferece novas respostas às limitações enfrentadas pelo projeto iluminista nos tempos modernos. Cada uma também delineia novos modos de pensar as dificuldades enfrentadas pelo pensamento, tanto de dentro quanto externamente. Foucault demonstra como o poder se desenvolveu em relação com novos modos de pensar o sujeito e a liberdade humana. Em reação a estas mudanças, ele sugere novos modos de pensar a história e a relação entre sujeitos, saber e eventos. Deleuze mostra como o senso comum e o julgamento são ainda tributários de compromissos metafísicos com a identidade e com a representação, em detrimento dos sentidos mais valiosos das diferenças e variações na repetição. Derrida mostra os pressupostos metafísicos negativos em ação mesmo nos textos mais racionais e bem-intencionados. Ele nos dá uma ampla variedade de técnicas textuais e casos práticos para acrescentar novos modos de pensar a verdade e suas relações positivas e negativas com a violência. Lyotard nos lembra de eventos que transbordam as fronteiras da razão, e ainda assim são relevantes se pretendemos ser justos ao responder a conflitos insolúveis. Kristeva mostra como cada novo modo de pensar a linguagem e o poder revolucionário da arte consideram os processos inconscientes em ação antes de qualquer forma determinada de linguagem entrar em cena. Nenhum desses pensadores defende um abandono da razão e do pensamento. Ao invés disso, cada qual sugere modos de refinar o pensamento em situações práticas nas bases de definições novas, mais sutis e mais includentes. Eles não defendem uma rejeição do cerne positivo do Iluminismo, mas um esforço crítico criativo, cuidadoso e rigoroso, para manter seu poder e frustrar sua capacidade de autodestruição e sua tendência à estagnação. É possível pensar nesta relação entre razão e pensamento em um novo iluminismo como um diálogo e dialética entre a razão e o que fica de fora dela. Cada qual transforma e informa a outra, e nenhuma pode ficar sozinha.”

E para fechar estes rabiscos....

d) “O pós-estruturalismo frequentemente é definido em termos de seu poder negativo. É visto como um movimento que elimina opções, talvez todas, deixando o caminho aberto para o retorno da confusão e do dogmatismo. Mas ele jamais foi negativo desse modo. O pós-estruturalismo é um movimento de adição, mas onde adição significa uma transformação e não uma coleção. Adicionado ao espírito do Iluminismo, o pós-estruturalismo é a mais poderosa resistência à ignorância e o criador do pensamento libertador disponível hoje. “

Depois desse pequeno mergulho superficial, vá em frente e estude o pós-estruturalismo de forma direta, em suas próprias obras e não por comentadores. É desta forma que você compreenderá que o filósofo James Williams, abordado aqui, é apenas uma perspectiva possível e não “A Verdade” sobre o pós-estruturalismo. Não acredite em verdades desse tipo, pelo contrário, corra delas e vá para as bordas.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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