café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

“Escrever meus próprios poemas foi um processo lento e doloroso”, diz Rogério Bernardes

Nascido em São Gonçalo (RJ), desde 2009 tornou-se brasiliense de coração. É servidor público para sobreviver e pagar as contas, e poeta para acertar as dívidas com a própria vida. Tem 4 livros publicados, todos de Poesia.


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1. De onde você vem?

Meu nome é Rogério Bernardes, tenho 45 anos, trabalho como técnico legislativo e moro em Brasília desde 2009.

2. Carlos Drummond de Andrade disse que “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece.” Quem você ama ler? .Quais são as suas referências literárias?

Minha paixão por Poesia se deu e se perpetua graças a Cora Coralina e Mario Quintana, principalmente. Além de outros poetas que todos conhecemos, me inspiro nos poemas e nas ideias de meus contemporâneos, que travam a mesma luta comigo, de fazerem Poesia e serem lidos. Posso citar vários, como Helena Arruda, Cinthia Kriemler, Alberto Bresciani, Maya Falks e tantos outros.

3. Já lançou algum livro? Participou de antologias?

Tenho quatro livros publicados, um pela Scortecci (Olhar de andorinha) e três pela Penalux (Cantigas de ninar dragões, Cinzas de fazer Fênix e Não servirei de alimento aos abutres). Meus primeiros poemas foram publicados nas antologias “Poesia do Brasil” e “Poeta, mostra tua cara!”, ambos de iniciativa do Congresso Nacional de Poesia, que se realizava em Bento Gonçalves/RS. Tenho também um poema na antologia “Simpósio dos Poetas Bêbadxs”, publicada recentemente pela editora Desconcertos.

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4. Federico Lorca disse que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." E quando foi que você tocou esse mistério?

A Poesia surgiu na minha vida nos primeiros anos de escola, com os poemas publicados nos livros de Língua Portuguesa das séries iniciais do ensino fundamental. Eu adorava ler os poemas de Mario Quintana, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros que sempre eram usados nos capítulos dos livros. Depois, quando conheci a Poesia de Cora Coralina, foi uma paixão arrebatadora. Ainda hoje almejo aquela poética simples e profunda, que guarda dentro de si a sabedoria do mundo. Daí a escrever meus próprios poemas foi um processo lento e doloroso, de autoaceitação. Levei mais de duas décadas para entender que eu não poderia mais jogar fora tudo o que escrevia. Somente após o Congresso de Poesia de 2012 (o único que participei) eu entendi o papel da Poesia na minha vida como catalisadora de dores e alegrias, como modo de mostrar ao mundo quem eu era e de me posicionar também frente às dores outras, as dores do mundo.

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5. “Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa). E quais são os seus sonhos?

Meu sonho é ser lido por mais pessoas, e que a Poesia seja mais valorizada em nosso país, como toda a literatura e as artes em geral. Vivemos tempos de trevas tanto do ponto de vista cultural quanto civilizatório. Se conseguirmos mudar esse quadro atual, tirando esse governo fascista e genocida que nos arranca esperanças todo dia, já me sentirei realizado como brasileiro. Como poeta, espero que ler Poesia aqui seja um dia algo tão comum quanto torcer por um time de futebol. Eu sei, sou bastante sonhador. Por isso sou poeta.

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OS PEIXINHOS

  • ainda ontem
  • peixinhos beijavam os pés sujos
  • e cansados do menino
  • que fugiu do cinto e do espanto
  • -
  • enquanto o sangue e a lama se diluem
  • no tanque de lavar verduras do avô
  • cabem naquele quadrado
  • um tubarão-branco
  • uma tartaruga de galápagos
  • e estrelas-do-mar do caribe
  • -
  • naquele tanque minúsculo
  • sobra espaço para a imaginação
  • e tudo que ela desconstruir:
  • o estômago vazio
  • as feridas da surra injusta
  • as lágrimas que no futuro
  • serão mágoa e fortaleza
  • -
  • no tanque de pedra com água
  • fria minada do poço
  • caberá toda uma vida
  • destinada a fazer dos peixinhos
  • que nunca existiram
  • o ideal de um adulto
  • cujo sonho de criança
  • era apenas esquecer
  • -
  • a memória é o aquário da alma

(do livro ‘Cantigas de ninar dragões’, Penalux, 2017)

LÁZARO

  • feche as portas no escuro e me deixe caído
  • e eu ainda me levanto
  • cubra os espelhos e quebre todas as lâmpadas
  • e eu ainda me levanto
  • aponte o dedo para mim e me deixe de joelhos
  • e eu ainda me levanto
  • conte mentiras e me humilhe até o pranto
  • e eu ainda me levanto
  • -
  • pedras, tocos, ferro ou cuspe
  • fogo, água, sangue ou pus
  • palmatória, pau-de-arara, choque, agulha ou cruz
  • e ainda assim eu me levanto
  • -
  • arranque os meus cabelos
  • queime as minhas mãos
  • chute o meu traseiro
  • corte a minha pele
  • fure o meu crânio
  • e eu lamento lhe dizer... eu me levanto
  • -
  • pois antes de ser infame
  • eu já era ideia
  • antes de ser fome
  • eu já era alimento
  • antes de ser nada
  • eu já era palavra
  • -
  • e a palavra, meu pobre homem
  • a palavra é leve, e fluida, e etérea
  • a palavra é além da dor
  • a palavra é logo depois do amor
  • -
  • depois do amor
  • todos os mortos se levantam

(do livro ‘Cinzas de fazer Fênix’, Penalux, 2019)

MICROCOSMO

  • gosto das pequenas narrativas
  • que guardam um mundo dentro delas
  • um microconto oceânico
  • um haikai buraco-negro
  • um silêncio que come tudo em volta
  • -
  • seduzo-me fácil na imensidão
  • dos micro-organismos
  • e invejo o infinito
  • de uma mãe que perde o feto
  • mas vai envelhecer com ele formado
  • comprando casa e dando netos
  • na vastidão do peito dela
  • -
  • o gigantismo das formigas
  • me fascina
  • a extensão do eu te amo
  • num guardanapo antes da tragédia
  • tem mais páginas
  • que um compêndio de atrocidades
  • do homem na história
  • -
  • gosto das pequenas narrativas
  • é nelas que cresço para dentro
  • das minhas reticências
  • -
  • é delas a esperança
  • de que um único grito
  • faça a revolução
  • e possamos voltar à grandeza
  • de todas as mães interrompidas

(do livro ‘Não servirei de alimento aos abutres’, Penalux, 2020)

DIA DAS BRUXAS

  • eu queria ter sido bruxa
  • ainda que homem
  • porque minha mãe foi uma
  • sem nunca saber
  • -
  • e porque dizem que um bom filho
  • que herda da mãe as queimaduras
  • transforma o leite que nunca terá
  • em outro alimento
  • -
  • a minha fugiu de inquisições
  • e pulou fogueiras atada a cordas
  • nunca contadas, nunca afrouxadas
  • mas eu as via
  • com olhos de gato preto
  • que adora bruxas
  • -
  • à medida que a chama arrefece
  • eu sei um pouco mais do destino de bruxas
  • que fazem feitiço para alimentar filhos
  • mandinga para nunca secar leite
  • e oferecem à lua a prole, por amor
  • e medo de desfarturas
  • -
  • quando ela estiver para ser chamada
  • eu não quero ser o pai da minha mãe
  • eu serei a mãe da minha mãe
  • ainda que homem
  • -
  • eu quero ser bruxa, como ela foi
  • das mais poderosas:
  • duas vassouras, a bonita da patroa
  • e a que dava para limpar, em casa
  • -
  • serei ainda a mãe da bruxa
  • que apagava fogueiras
  • com suas lágrimas
  • e por isso mesmo
  • nunca foi perdoada
  • -
  • prepararei unguentos
  • enquanto beijo suas chagas

CORPOS-SENTIDOS (para Helena Arruda )

  • meu olho é da Síria
  • meu nariz é da Palestina
  • minha língua é de Ruanda
  • meus ouvidos são de Canudos
  • minhas mãos são da Rocinha
  • -
  • minha visão é gay
  • meu olfato é trans
  • meu paladar é mulher
  • minha audição é negra
  • meu tato é índio
  • -
  • meu corpo é uma guerra injusta
  • um pleonasmo de sentidos
  • nesta terra devastada
  • que nunca fez sentido algum
  • -
  • ouve os tiros os xingamentos?
  • sente as pauladas os bombardeios?
  • vê os ódios sem vírgulas nem freios?
  • -
  • meu corpo então é teu também
  • e o gosto de sangue que me invade
  • é a mistura do sabor férreo e quente
  • das nossas feridas de milênios
  • -
  • faz um favor pra mim?
  • -
  • se eu sucumbir primeiro
  • enterra-me no quintal da tua luta
  • finca uma cruz com a dor de todos
  • e segue sendo o corpo deles
  • -
  • que teu olho seja armênio
  • que teu nariz seja ianomâmi
  • que tua língua seja curda
  • que teus ouvidos sejam professores
  • que tuas mãos sejam cientistas
  • -
  • que todos os teus sentidos
  • usem os nossos corpos em guerra
  • contra o absurdo e o obscuro
  • [esta terra hostil que nos desabita]

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Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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