café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

Marcelo Mourão e sua poética camaleônica

Marcelo Mourão estudou História (UFRJ) e Letras (Língua Portuguesa e Literatura) (UNESA). É mestre e doutorando em Literatura Brasileira (UERJ). É também poeta, escritor, pesquisador, crítico literário e produtor cultural. Idealizou, produz e apresenta o sarau POLEM, desde 2008. Criou o subgênero poético POEMEMES, que mescla a expressão poética com a linguagem dos memes. Desde 2021, é o vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE). Há textos seus publicados em várias antologias, periódicos literários, sites e revistas acadêmicas, do Rio e de outros estados brasileiros. Possui cinco livros solo publicados: O diário do camaleão, poesia (2009); Temas em literaturas de língua portuguesa: os diferentes olhares, crítica literária (2015); Máquina mundi, poesia (2016); Rotas e rostos: questões da literatura brasileira, crítica literária (2019); e Poememes, poesia (2021).


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Marcelo Mourão que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Resposta: Comecei a escrever letras de música com 14 anos. Nessa época, eu era vocalista e baixista de uma banda chamada Rebeldes do Engenho. Iniciei-me, na verdade, no rock, influenciado por Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas e, acredite se quiser, por Chico Buarque de Holanda (pois é, eu ouvia MPB em paralelo às guitarras distorcidas!). Depois, com 16 anos, passei a escrever poemas ou, como prefiro chamar, protopoemas. Guardo até hoje meus quatro antigos cadernos de poesia e aproveito muitas coisas dali em minha obra. Fiquei até meus 32 anos na música e, aos 34, resolvi entrar para o meio poético. Resultado: deixei de ser letrista e cantor e virei poeta e escritor. Posso dizer que sigo bem e feliz. (risos)

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Resposta: Escrever pode ser as duas coisas, em separado ou juntas. Eu penso que artisticamente tende a funcionar melhor quando esses dois aspectos estão somados. Há gente que nasce com o dom e escreve sem ter adquirido grandes conhecimentos prévios e consegue fazer boa literatura, que considero ser os casos, por exemplo, de Cora Coralina e Patativa do Assaré. Há outros que estudam e leem e se preparam demais e conseguem suprir a falta de dom com uma escrita competente, mas não empolgante, não brilhante. E há ainda os que nascem com um olhar diferenciado, com uma sensibilidade outra, e se aprimoram lendo e estudando com afinco. Creio ser este último o meu caso. Dei a sorte de nascer questionador, sensível, visionário e, depois de um tempo, percebi que era vital lapidar, com muitos estudos e trabalho, as minhas aptidões artísticas.

As coisas que me inspiram a escrever? As coisas da vida em geral. A vida é a minha matéria-prima. Minha literatura precisa pulsar, respirar, se mexer o tempo todo. Tem um poema do meu primeiro livro que diz, entre outras coisas: “alma doente é água parada/ ressuscitar sempre”. É isso. “Pedra que rola não cria limo”.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Resposta: Nossa... São tantos... Posso citar uma lista enorme? Quero afirmar também que cada livro meu tem seus mentores intelectuais. Bem... Vamos lá.

Na prosa literária: Shakespeare, Dostoiévski, Cervantes, Edgar Allan Poe, Victor Hugo, Kafka, Gustave Flaubert, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Jorge Amado, Rubem Braga, Clarice Lispector, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Lima Barreto, João do Rio, Dias Gomes, J.J. Veiga, Humberto Eco, Camus, George Orwell, Aldous Huxley, Aluízio Azevedo, José Anchieta, Gregório de Matos etc

Na prosa científica: Freud, Jung, Michel Foucault, Zygmunt Bauman, Nietzsche, Heidegger, Slavoj Žižek, Noam Chomsky, Peter Sloterdijk, Platão, Heráclito de Éfesos, Bakhtin, Saussure, Eric Hobsbawm, Marc Bloch, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Santo Agostinho, Paulo Freire, Célestin Freinet, etc

Na poesia: Carlos Drummond de Andrade, Ivan Junqueira, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Charles Baudelaire, Augusto dos Anjos, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Vladimir Maiakóvski, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Alejandro Jodorowsky, Pablo Neruda, Nicanor Parra, Walt Whitman, Jean Cocteau, Hilda Hilst, Jorge Luis Borges, Lêdo Ivo, Paulo Leminski, Roberto Piva, João Cabral de Melo Neto e Álvares de Azevedo etc

Shakespeare.jpg 4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Resposta: São muitos também... Nossa, que difícil citar... Vamos a uma lista grande também:

Poesia: Tanussi Cardoso, Leila Míccolis, Igor Fagundes, Laura Esteves, José Henrique Calazans, Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Victor Colonna, Carmem Moreno, Ricardo Aleixo, Noélia Ribeiro, Luciana Barreto, Ricardo Alfaya, Cairo Trindade, Adriane Garcia, Diego Moraes, Lau Bastos, Líria Porto, Ítalo Moriconi, Affonso Romano de Sant’Anna, Iverson Carneiro, Sílvio Ribeiro de Castro, Jorge Ventura, Eurídice Hespanhol, Tchello d’ Barros, Alexandre Guarnieri, Nuno Rau, Marcus Vinícius Quiroga, Ruy Proença, Artur Gomes, Karlos Chapul, Flora Figueiredo, Denise Emmer, Moduan Matus e Sérgio de Castro Pinto.

Prosa: Maria Valéria Rezende, João Silvério Trevisan, Raduan Nassar, Milton Hatoum, Daniel Galera, Antonio Prata, Cristóvão Tezza, Sérgio Rodrigues, Adriana Lisboa, Bernardo Carvalho, Victor Heringer, Luiz Ruffato, Lourenço Mutarelli e Elvira Vigna.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Resposta: Tenho mania de ler mais de um livro por vez. Nesses dias, tenho lido o célebre livro do Nelson Rodrigues chamado “À sombra das chuteiras imortais”, que reúne as crônicas que ele publicava em jornais e que se centram na cena futebolística das décadas de 50 e 60. O bacana é que ele não se prende aos fatos ocorridos durante os jogos, mas filosofa, poetiza, a partir deles e é isso que, certamente, faz com que o texto se torne atemporal, universal, se não, eu não estaria lendo-o em pleno 2021! Ao mesmo tempo, voltei a degustar os poemas de Murilo Mendes, tenho me interessado bastante por poesia surrealista, com elementos fantásticos presentes nela, eu chamaria até de poesia fantástica. O fenômeno do fantástico não está só em contos e romances. Há muito que invadiu também a poesia. Jorge de Lima era outro que praticava essa “poesia fantástica”, vide o Grande circo místico e outros poemas dele.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Resposta: Editei, até agora, 5 livros solo (três de poesia e dois de crítica literária) e fui publicado em inúmeras coletâneas e revistas acadêmicas e literárias. Também há textos meus em inúmeros sites espalhados pela internet. Eu sugiro colocar “Marcelo Mourão poeta” na busca do Google e a pessoa irá achar farto material. Agora... Se foi difícil publicar tudo isso? Olha.... Os livros sempre me dão um trabalho imenso. Geralmente, eles demoram uns 5 anos para verem a luz do dia, entre gestação, maturação e publicação. Cada um deles é corrigido várias e várias vezes. Fora que, paranoico como sou (risos), ainda uso sempre, no mínimo, mais um revisor (além de mim) para cada obra. Já houve livro em que foram utilizados três revisores. Eu valorizo demais as minhas publicações, livro é documento, é para ficar eternizado, então não admito o mínimo erro. Chega às raias da paranoia de fato!

Já estou há 14 anos no meio literário, daí é compreensível eu ter produzido extenso material artístico e acadêmico. Vejo esses meus esforços como um trabalho de formiguinha mesmo. Acumulei bastante material produzido ao longo desses anos. Resumindo: Foi (e é) difícil, mas a satisfação é muito maior que as dificuldades.

3 LIVROS MOURÃO.jpg 7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Resposta: Pelo meu primeiro livro mesmo, os que vieram depois dele foram desdobramentos e aprofundamentos de caracteres que ali já se faziam presentes ou foram avanços em relação a ele.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Resposta: Como leitor, gosto de tudo. Leio tudo, inclusive muita história, antropologia, filosofia, psicologia, pedagogia, hagiografia e história das religiões. Tenho inúmeros autores preferidos em todas essas áreas da prosa e também da poesia.

Como artista, trabalhador das artes, venho produzindo crítica literária, historiografia literária e poesia. Mas já já devo lançar livros biográficos. Em breve, vou começar a escrever biografias de poetas, de saraus, de grupos e movimentos poéticos, todos estes dos anos 1980, daqui do Rio de Janeiro, que são objetos do meu trabalho de pesquisa no mestrado e no doutorado, intitulado “Poesia verbalista urbana carioca oitentista”. Fora que, mais tarde, espero tentar escrever também contos. Eu até tenho um romance pronto, mas cadê a coragem para lançá-lo? Precisa ainda de muitos consertos. Quem sabe, daqui há alguns anos eu, eu não o publique?

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Resposta: Sou professor de História e Letras (língua portuguesa e literatura). E, agora, além de mestre em Literatura brasileira, sou doutorando nessa mesma área de conhecimento.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Resposta: Não há como separar o artista, e, consequentemente, a sua arte, de seu tempo, de seu meio sócio-geográfico, da história que está sendo feita na sociedade na qual ele vive. Nesta parte, preciso recorrer aos filósofos existencialistas que dizem, com muita propriedade, que o eu do artista é jogado numa realidade que tanto o define quanto é definida por ele, numa dialética inescapável e contínua. A época influencia a obra/o artista assim como a obra/o artista influencia a época também.

Quer queira ou não queira, o artista é, sim, um produto de sua época e a ela responde com obras, que são frutos de suas observações, indignações, certezas e incertezas. Mesmo que, por exemplo, um determinado período seja repleto de intensas guerras e conflitos de toda ordem, e um artista opte por criar algo que, a princípio, parece totalmente desligado dessa realidade, ele estará sendo político ao se deixar alheio, em sua obra, ao que está acontecendo. Optar por alguma ideologia política ou, ao contrário disso, se dizer “neutro” dá no mesmo. As duas atitudes são políticas. A arte nunca se desgruda da política nem da realidade. Não há como. Mesmo quando ela se diz alheia a tudo que a rodeia.

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11- Em que momento da vida você sentiu “eu sou escritor”?

Resposta: Quando lancei o meu primeiro livro, O diário do camaleão, em 2009.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Resposta: No momento, não me vem à mente nenhuma possível questão. Todas as suas perguntas foram ótimas e eu só tenho mesmo é que agradecer a você pelo convite generoso feito a mim para estar aqui neste site muito bem produzido. Obrigado e meus parabéns!

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Resposta: Quero dar continuidade à divulgação do projeto literário vanguardista que criei e que virou livro, o POEMEMES, publicado em fevereiro de 2021, e poder lançar, ainda no segundo semestre deste mesmo ano, o meu novo livro de crítica literária chamado “Mosaico”, que reúne sete ensaios sobre autores brasileiros e internacionais.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria...

  • XAMÃ DE SI
  • Em certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos,
  • Gregor Samsa saiu de sua cama
  • transformado em um grande inseto.
  • Bastou abrir a porta do quarto
  • que o mundo desabou a julgá-lo
  • só porque ele mudara de aspecto.
  • Sua condição era errada ou correta?
  • De todos os cantos, brotaram juízes
  • metendo seus olhos, dedos, narizes,
  • querendo lhe ditar todas as regras.
  • Mas Gregor sabe que só ele é seu guia
  • e seu único deus nessa travessia.
  • E que, por mais que caminhe pra frente,
  • haverá sempre quem lhe sirva de oposto.
  • Por fim, entendeu: insetos são os outros.

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