café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

"Escrever é como respirar", diz o poeta Marcelo Luz


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Marcelo Luz que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Havia muitos livros em casa e pouco espaço. Então eram livros em cima do guarda-roupa, embaixo da cama, em gavetas e em todo canto. Por volta dos seis anos, eu abria os livros e desenhava copiando as letras na terra batida do quintal porque eu queria aprender a ler pra saber o que tinha ali. Lá pelos nove anos, lia Jorge Amado, Hemingway, Hesse, Machado...Comecei a escrever poesia de doze para treze anos, muito movido pela música brasileira da época, a que tocava no rádio (Ivan Lins, Chico Buarque, Sueli Costa, Abel Silva. Depois Belchior, Fátima Guedes...) É que noventa por cento dos livros de casa eram prosa. Hoje penso que naquela época eu já queria poesia. E ficava impressionado com a "poesia" que eu percebia nas letras daquelas músicas.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Posso chamar de dom, porque dom é uma coisa que não sei explicar. Por outro lado, transpiração, não, embora às vezes a gente sue (e morra) pra escrever (encarar como transpiração só dá pra entender como resposta, um tanto grosseira, a quem encara como inspiração). Posso pensar escrever como inspiração seguida de expiração. Escrever é como respirar. Então é um dom. E consequentemente, um ofício. Escrever tem mais a ver com contar história do que com escrever propriamente dito. O que eu leio é tão importante quanto o que observo e ouço. Fui um leitor contumaz mas faz tempo. O que me INSPIRA (viu só? não tem palavra melhor aqui) desde sempre é música, gente e vida, muito mais do que tenho lido, embora tudo o que tenha lido desde sempre seja música, gente e vida.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Gosto de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Wordsworth, Gregório de Matos. Impossível identificar influências. O que sou e o que escrevo pode ser considerado produto de várias "influências" misturadas, sempre muito subjetivas, impalpáveis, rarefeitas, de tudo o que li, vivi, vi, ouvi, toquei...

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

A poesia passa por um momento de renovação impressionantemente produtivo e necessário. Tenho lido muita gente boa. Li recentemente "Possessão", do poeta Patrício Alves do Nascimento, e "Contos do Trem", de Marcel Felipe Omena, "Azul Instantâneo", de Pedro Vale. Além de textos de Baltazar Gonçalves, Antonio Carlos Secchin, Tere Tavares, Maçã Sillatian, Sergio Martins, todos muito bons de ler, interessantes, relevantes, talentosos.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou relendo "Tristão e Isolda". Clássico. Não sou muito de releituras mas esse eu não resisto. Os primórdios do romance, as cantigas de amigo, o amor cortês, a questão da heroicidade (coisas da academia que me interessam particularmente).

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Publico, muito economicamente, alguns poemas no facebook que, em geral, partem de uma visão crítica do uso das mídias digitais. E talvez, estes poemas sejam reunidos em livro, no futuro.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Esse [livro] MORADA, que estamos lançando, é meu primeiro livro. Sendo uma trilogia, dá uma mostra mais ou menos geral do que tenho escrito até aqui.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Escrever é uma necessidade. Escrevo poesia não porque prefiro ou escolho ou me preparo para escrever poesia. Escrevo e, no final, o produto é esse, o que tenho é poesia.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

[Marcelo Luz não respondeu]

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Escrever é um ato político.

Pode ser político como quem milita ou como quem goza. Pode ser partidário ou libertário. Pode ser "livre para amar ou para recusar o poder". Escrever pode tudo.

11- Em que momento da vida você sentiu “eu sou escritor”?

Desde antes de começar a escrever, me sinto escritor. Criança, já vivia cheio de palavras e, tímido, cercado de livros, intuía que precisava escrever pra me "livrar" das palavras. No meu entendimento, isso era ser escritor.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Nenhuma.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Com temática e conceito completamente diferentes de MORADA, meu próximo livro de poesias, recentemente concebido, chama-se AUTORREPLICANTE. Com o advento da pandemia e a necessidade de isolamento social, resolvi me ausentar um pouco do planeta e fiz o que estou chamando de "poesia intergaláctica". Espero lançá-lo ainda este ano.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria...

O FAZER

  • TRONCO REVESTIDO
  • DE PALAVRAS
  • VOU-ME DESCASCANDO
  • DESFOLHANDO
  • DESLIVRANDO.
  • ACORDAREI NO PONTO
  • DE BROTAR ALGO
  • GIRASSOL
  • COM CARA BRILHANTE
  • E MOVIMENTO DE RODA.

Onde encontrar Marcelo Luz?

Facebook, entre aqui.

Seu livro, “Morada: trilogia poética”, está aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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