café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

SÓCRATES E A CORAGEM DE SER SI MESMO DIANTE DO TRIBUNAL DO MUNDO

Não devemos dar tanta atenção assim ao que vai dizer de nós a maioria, mas sim o entendido nas coisas justas e injustas (Sócrates)


A morte de Sócrates.jpg

A L&PM Editores reuniu em 2008 três pequenos livretos de Platão sobre o julgamento de Sócrates e um único livro. Antes de comentar sobre o livro, quero dizer que adorei o trabalho do tradutor André Malta — professor de língua e literatura grega na FFLCH da USP. O texto ficou mais leve, as ironias de Sócrates ficaram mais evidentes, os diálogos ganharam um fluxo gostoso de ler. Se você já leu estas obras, releia, pois o julgamento de Sócrates (399 a. C.) em Atenas é um dos momentos mais marcantes da história da humanidade.

André Malta nos apresenta este livro:

“Na extensa obra platônica, os diálogos que tratam do processo contra Sócrates e de sua morte são quatro: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton e Fédon. Entre eles há uma clara sequência dramática, desde a discussão sobre o ponto central da acusação (o que é piedade), passando pela defesa no tribunal e a estada na prisão, até o momento em que a pena de morte é cumprida. Do ponto de vista temático, porém, o Fédon– mais complexo e extenso– é em geral considerado pelos estudiosos um trabalho posterior, no qual Platão já se mostraria menos preso à visão do mestre.”

Sendo posterior, Fédon ficou de fora. E o livro apresenta a sequência dramática com Êutifron (Sobre a piedade), Apologia de Sócrates (A defesa), Críton (Sobre o dever).

Diz André Malta:

“(...) o que encontramos nessas três obras é a apresentação de uma postura que tem não apenas um eixo filosófico, mas também ramificações religiosas, políticas e éticas. A mola propulsora dessa atitude é o “apreço pelo homem” (philanthropía) e a vontade de investigar os limites do conhecimento.”

De fato, impressiona a sabedoria, a coragem, a coerência ética de Sócrates diante dos seus injustos acusadores e mesmo diante da maioria popular (os 500 jurados) que democraticamente o condenou a pena de morte, mostrando assim que nem sempre “vox populi, vox dei”.

Alguns especialistas questionam se Sócrates, tal como descrito por Platão, é de fato o Sócrates histórico. André Malta se posiciona, e eu concordo com ele, da seguinte forma:

“(...) o Sócrates que encontramos nos diálogos é sim o Sócrates que os atenienses encontravam pelas ruas– e talvez não pudesse ser de outra maneira: que efeito Platão alcançaria se deformasse por completo, a ponto de se tornar irreconhecível, a figura de seu mestre? Por outro lado, é fato que o Sócrates platônico, apesar dos traços fundamentais, é único. Não caberia explicar essa singularidade por conta simplesmente de uma maior capacidade de Platão em retratar o que viu e ouviu. É mais razoável imaginar que, com sua arte, ele foi capaz de criar um personagem tão rico e complexo, a ponto de este ganhar uma verdade acima do real. Em outras palavras, o que Platão fez foi emprestar a Sócrates– a partir de um substrato factual– uma impressão de realidade que nenhum dos outros escritores conseguiu igualar, uma unidade que o sábio de carne e osso talvez não tivesse, mas que brota com força da leitura dos diálogos. Portanto, determinar a historicidade do Sócrates de Platão é uma questão secundária. Talvez o de Xenofonte seja mais real, no sentido de estar mais próximo do que Sócrates efetivamente foi. De qualquer maneira, literariamente falando, é o de Platão o mais verdadeiro, porque mais convincente e denso como elaboração de caráter.”

Apologia de Sócrates.jpg

Quero ressaltar algumas passagens de Sócrates, como esta, que está no livreto Sobre a piedade (ou religiosidade):

“Mas então você, Êutifron, por Zeus, pensa que sabe assim de maneira precisa como se dispõem as coisas divinas, e as piedosas e as ímpias, a ponto de, tendo isso se realizado desse jeito que você conta, não temer que aconteça de você também estar realizando um ato ímpio ao levar seu pai a julgamento?”

Sócrates questiona as certezas dogmáticas de Êutifron sobre o que é piedoso (religioso) e justo. A rigidez com que Êutifron demarca uma ação ímpia é subvertida pelo raciocínio socrático. De certa forma, o texto antecipa a defesa de Sócrates contra a acusação que recairá sobre ele de impiedade ou irreligiosidade.

Na defesa, Sócrates explica que foi Querefonte que questionou a Pítia (profetiza) no Templo de Delfos, se existiam alguém mais sábio que Sócrates e a Pítia, voz do deus, respondeu que não havia ninguém mais sábio. E Sócrates fez a seguinte leitura deste episódio:

“Sou sim mais sábio que esse homem; pois corremos o risco de não saber, nenhum dos dois, nada de belo nem de bom, mas enquanto ele pensa saber algo, não sabendo, eu, assim como não sei mesmo, também não penso saber... É provável, portanto, que eu seja mais sábio que ele numa pequena coisa, precisamente nesta: porque aquilo que não sei, também não penso saber.”

Sábio é que sabe não saber e inspeciona todas as coisas, questionando-as, procurando a verdade para além das ilusões dos que acham que sabe. É neste sentido que Sócrates assumirá sua sabedoria diante do tribunal. E isso gerou ódio e inveja de muitos contra Sócrates, mas o filósofo explica:

“Parece ainda que ele [o deus] não fala aquilo de Sócrates, mas se serve do meu nome para fazer de mim um modelo, como se dissesse — “Entre vocês homens o mais sábio é qualquer um que, como Sócrates, tenha reconhecido que, na verdade, em sabedoria não vale nada”.

Sábio é qualquer um que assume sua precariedade de conhecimentos.

Sócrates defende-se dizendo que jamais corrompeu os jovens, mas que estes jovens aprenderam com ele o questionamento de todas as coisas, a “inspeção” rigorosa de cada assunto e com isso estariam desestabilizando os que “nada sabendo, só fingem saber”.

O filósofo não é ateu, nem nega o valor da piedade. Pelo contrário, ele está seguindo a voz do deus. Para Sócrates, ser impiedoso (ateu) é desobedecer à adivinhação (profecia), é temer a morte, é pensar que se é sábio quando não o é. Diz o injustiçado:

“Varões atenienses, eu os saúdo e amo, mas obedecerei antes ao deus que a vocês e, enquanto respirar e tiver condições, receio não parar de filosofar e a vocês advertir e mostrar (a qualquer um de vocês que eu sempre encontrar), falando daquele jeito a que estou habituado. (...) Pois é isso– fiquem sabendo– que o deus me ordena, e eu mesmo penso que ainda não surgiu para vocês nenhum bem maior na cidade do que meu serviço ao deus! Nenhuma outra coisa faço enquanto circulo a não ser persuadir, tanto os mais jovens quanto os mais velhos dentre vocês, a não militar em favor nem do corpo nem do dinheiro– não antes (nem com a mesma intensidade) que em favor da alma, a fim de ser a melhor possível, e vou dizendo que não surge do dinheiro a virtude, mas da virtude o dinheiro, e todos os demais bens humanos, públicos e privados.”

Aqui Sócrates expressa seu vínculo com o deus, sua defesa das virtudes acima de qualquer bem humano, sua defesa dos valores perenes da alma e não do corpo ou do dinheiro, das coisas desse mundo ímpio. E mesmo assim, Sócrates foi condenado. Primeiro foi considerado culpado com 220 votos a seu favor e 280 contra. Depois disso, Sócrates tem o direito de fazer um apelo, uma tentativa de acordo ou de propor uma pena, mas ele reafirma o que pensa e a sua situação piorou. Sócrates será condenado a pena de morte por envenenamento por 360 dos 500 jurados. E mesmo assim, afirma:

“(...) pensei que meu dever era antes me arriscar ao lado da lei e do justo do que ficar do lado de vocês (que não estavam decidindo coisas justas) por medo da prisão ou da morte”, pois “mostrei que com a morte me preocupo (se não fosse algo um pouco grosseiro de se dizer...) nem um pouco, enquanto que com não efetuar nada injusto nem ímpio, com isso me preocupo totalmente”. É porque “a vida sem inspeção [diálogo e exame de si mesmo] não vale a pena ser vivida pelo homem”.

Na parte final do livro, Sobre o dever, um amigo leal tenta convencer Sócrates de fugir da cadeia antes de ser morto. Ele se nega a tal gesto de covardia (ele o chama de baixeza), de blasfêmia contra o deus, de desobediência contra as leis da comunidade — ainda que os seres humanos tenham torcido as coisas para condená-lo. Diz o filósofo:

“Mas nem antes pensei que era preciso – por causa do risco – agir de modo servil, nem agora me arrependo de ter me defendido assim: prefiro muito mais morrer depois de ter me defendido desta maneira a ter que viver daquela. Pois nem numa causa, nem numa guerra, não se deve – nem eu, nem nenhum outro – maquinar isto: de tudo fazer para escapar da morte.”

Porque “há ainda, para cada situação de risco, muitas outras maquinações para se escapar da morte, se a pessoa tiver o atrevimento de tudo fazer e dizer. Mas talvez isso não seja difícil, varões: escapar da morte. Mas da baixeza sim, muito mais difícil! Pois “mais forte que a morte se move”.”

Diante da morte iminente, Sócrates procura meditar e dialogar racionalmente. Diz ele:

“Reflitamos então também por aí: de que há muita esperança de que seja um bem. Pois morrer é uma destas duas coisas: ou é como um nada e o morto não tem nenhuma sensação de nada, ou (conforme se diz por aí) ocorre de ser uma transmigração [“reencarnação”] e uma transferência da alma aqui deste lugar para um outro lugar. Se não há sensação nenhuma, mas é como um sono em que não se vê, dormindo, sonho nenhum, que espantoso ganho a morte seria! (...) Mas se, por outro lado, a morte é como viajar daqui para outro lugar, e o que se diz por aí é verdade – que lá estão todos os mortos –, que bem maior que esse pode haver, varões jurados?”

A conclusão é óbvia. Se a morte nada é, pois mergulhamos em sono profundo, no nada, então não há o que temer. Se, por outro lado, a morte é alguma coisa, há vida depois dela, então que alegria seria morrer, pois Sócrates entende que “para o homem bom não há mal algum, nem quando vive, nem quando morre, e seus assuntos não são negligenciados pelos deuses.”

Seu amigo parece preocupado com a opinião da maioria contra Sócrates, mas o filósofo o questiona: “Mas por que nos preocuparmos assim, venturoso Críton, com a opinião da maioria?” E responde que “não devemos dar tanta atenção assim ao que vai dizer de nós a maioria, mas sim o entendido nas coisas justas e injustas”, pois “se deve ter na mais alta conta não o viver, mas o viver bem.”

Viver bem é mais importante do que simplesmente viver. É nesse enfoque que o filósofo examina a opção de fuga da cadeia com racionalidade e bom senso, debatendo-a com Críton para depois decidir o que é certo ou errado, justo ou injusto, bem ou mal. O diálogo segue nesse caminho.

Sócrates Então não se deve absolutamente agir mal...

Críton Não, realmente.

Sócrates Nem então, quando se é vítima da má ação, agir mal de volta – conforme pensa a maioria –, já que não se deve absolutamente agir mal...

Críton Parece que não...

Sócrates Mas como?! Deve- se então praticar o mal, Críton, ou não?

Críton Não se deve, certamente, Sócrates!

A conclusão de Sócrates com Críton é que “jamais é correto seja agir mal, seja agir mal de volta, seja ainda se defender (quando se sofre um mal) devolvendo o mal”, portanto ele deve sofrer a morte. E a humanidade, de lá para cá, continua condenando Sócrates e absolvendo a estupidez, o dinheiro e a covardia.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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