café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

Sócrates e a serenidade diante da morte

“A alma se assemelha ao que é divino, imortal, dotado da capacidade de pensar, ao que tem uma forma única, ao que é indissolúvel e possui sempre do mesmo modo identidade; o corpo, pelo contrário, equipara-se ao que é humano, mortal, multiforme, desprovido de inteligência, ao que está sujeito a decompor-se, ao que jamais permanece idêntico” (Sócrates).


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Condenado a morte, Fédon relata para Equécrates as últimas lições que Sócrates compartilhou com seus amigos antes da execução da pena.

Platão é o autor do texto e, para muitos especialistas, colocou na boca de Sócrates muitas teorias que eram amadurecimentos de sua própria escola filosófica, ainda que descendente do pensamento socrático. De qualquer forma, mesmo sendo “Fédon” um texto tardio, é mais um maravilhoso manancial de sabedoria, coisa que os antigos tinham em abundância se comparados com a nossa sociedade líquida.

O livro “Fédon” começa assim:

“EQUÉCRATES: — Estiveste, Fédon, ao lado de Sócrates no dia em que ele bebeu o veneno na prisão? Ou acaso sabes, por outrem, o que lá se passou?

FÉDON: — Lá estive em pessoa, Equécrates.

EQUÉCRATES: — E então, de que coisas falou ele antes de morrer? Qual foi o seu fim?”

O primeiro eixo deste relato socrático é sua inabalável convicção de que a vida continua depois da morte ou, em outras palavras, que a morte não é o fim do Ser. E esta convicção atravessará todo este relato último daquele que foi chamado “o melhor, o mais sábio e o mais justo” ser humano que já esteve na face da Terra até aquele momento. Diz Sócrates: “tenho a firme convicção de que depois da morte há qualquer coisa — qualquer coisa, de resto, que uma antiga tradição diz ser muito melhor para os bons do que para os maus.”

Essa convicção da vida pós-morte estava em conexão com a Filosofia, i.e., com aqueles que se amigam da sabedoria. Diz ele: “considero que o homem que realmente consagrou sua vida à Filosofia é senhor de legítima convicção no momento da morte, possui esperança de ir encontrar para si, para além, excelentes bens quando estiver morto!”

Sócrates irá mais longe, dizendo que “quando uma pessoa se dedica à Filosofia no sentido correto do termo, os demais ignoram que sua única ocupação consiste em preparar-se para morrer e em estar morto!”. Filosofar é já morrer para as coisas desse mundo e viver filosoficamente é ser-no-mundo na perspectiva da morte, dito de outra forma, é um viver consciente na direção da morte.

Para Sócrates, todos nós, ao deixarmos o corpo físico, iremos para o mundo dos mortos (Hades), sendo que nele há regiões distintas e compatíveis com as obras de cada alma (imperfeitas/ignorantes, boas ou divinas/puras). Depois de um longo discurso buscando convencer-nos de que o corpo físico é impuro e incapaz de ver ou conhecer a verdade — a metáfora é de uma prisão ou caverna —, afirma que a sabedoria estará mais próxima daquele que mantém maior autonomia de alma diante das demandas incessantes do corpo. Este processo é o que Sócrates chamará de purificação. É

“quando dessa maneira atingirmos a pureza, pois que então teremos sido separados da demência do corpo, deveremos mui verossimilmente ficar unidos a seres parecidos conosco; e por nós mesmos, unicamente por nós mesmos, conheceremos sem mistura alguma tudo o que é. E nisso, provavelmente, é que há de consistir a verdade. Com efeito, é lícito admitir que não seja permitido apossar-se do que é puro quando não se é puro!”

E qual é o papel da Filosofia nesse processo de purificação? Sócrates responde perguntando: “O exercício próprio dos filósofos não é precisamente libertar a alma e afastá-la do corpo?”

Ora, se a pura sabedoria não é deste mundo, o autêntico filósofo não se queixa diante da morte que se aproxima. Sócrates está absolutamente sereno e diz:

“Aqui está, Símias e Cebes, minha defesa; são estas as razões pelas quais vos deixo, tanto a vós como a meus donos, os deuses daqui [gênios ou espíritos condutores], sem sentir dor nem cólera, pois que (disso estou convencido) no outro mundo irei encontrar outros bons deuses como outros bons companheiros. O vulgo, na verdade, é incrédulo a respeito dessas coisas. Se, pois, diante de vós fui em minha defesa mais persuasivo do que diante dos juízes de Atenas, bem haja!”

O filósofo abraça a concepção circular de reencarnação (morte-renascimento-morte), seguindo certas tradições órficas. Ele questiona seus amigos:

“É, em suma, no Hades que estão as almas dos defuntos ou não? Pois, conforme diz uma antiga tradição nossa conhecida, lá se encontram as almas dos que se foram daqui, e elas novamente, insisto, para cá voltam e renascem dos mortos. E se assim é, se dos mortos nascem os vivos, que podemos admitir senão que nossas almas devem mesmo estar lá?”

São essas e muitas outras reflexões que levam Sócrates a concluir que é sábio ter como verdade: “o regresso à vida, o fato de que os vivos provêm dos mortos, de que as almas dos mortos têm existência, e (insisto neste ponto) de que a sorte das almas boas é melhor, e pior a das almas ruins!”

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É neste contexto que Sócrates irá argumentar em defesa da chamada “teoria das reminiscências”. Se minha alma já habitou antes outros corpos, então ela já traz alguma bagagem de conhecimentos. Sendo assim, educar uma criança ou jovem é nada mais que rememorar. Indaga ele:

“Poder-se-ia supor que perdemos, ao nascer, essa aquisição anterior ao nosso nascimento, mas que mais tarde, fazendo uso dos sentidos a propósito das coisas em questão, reaveríamos o conhecimento que num tempo passado tínhamos adquirido sobre elas. Logo, o que chamamos de “instruir-se” não consistiria em reaver um conhecimento que nos pertencia? E não teríamos razão de dar a isso o nome de “recordar-se”?”

Sócrates defenderá que a essência das coisas não se altera (são invisíveis), mas as formas ou as aparências (visíveis), estas se modificam. Por isso mesmo, “a alma se assemelha ao que é divino, imortal, dotado da capacidade de pensar, ao que tem uma forma única, ao que é indissolúvel e possui sempre do mesmo modo identidade; o corpo, pelo contrário, equipara-se ao que é humano, mortal, multiforme, desprovido de inteligência, ao que está sujeito a decompor-se, ao que jamais permanece idêntico.”

A concepção reencarnacionistas de Sócrates incluem todos os reinos e não abraça nenhuma linearidade, tal como no kardecismo e no espiritualismo anglo-saxão. Ela estaria mais próxima do hinduísmo e de algumas variantes do budismo.

Assim sendo, é “em corpos de asno ou de animais semelhantes é que muito naturalmente irão entrar as almas daqueles para quem a voracidade, a impudicícia, a bebedeira constituíram um hábito, as almas daqueles que jamais praticaram a sobriedade”, sendo elas impuras ou poluídas. E tem mais. Para “aqueles para os quais o mais alto prêmio era a injustiça, a tirania, a rapina, esses animarão corpos de lobos, falcões e milhafres.” Por outro lado, as almas boas poderá migrar, depois da morte e de algum tempo no Hades, “de um modo adequado, para alguma espécie animal que tenha hábitos sociais e seja organizada de modo policiado, sem dúvida abelhas, vespas ou formigas; ou ainda, se é que voltam realmente à forma humana, será para dar nascimento a pessoas honestas.”

Mas o que é que nos prende ao corpo físico, essa prisão que obscurece as verdades acessíveis as almas? Nesta prisão corporal, “a Filosofia bem o percebeu, (...) é obra do desejo, e quem concorre para apertar ainda mais as suas cadeias é a própria pessoa!”. São os desejos que nos prendem neste mundo corporal, encarnando e desencarnando até despertarmos através da sabedoria, a verdadeira luz “que absolutamente ninguém, se não filosofou, se daqui partiu sem estar totalmente purificado, ninguém tem o direito de atingi-la, a não ser unicamente aquele que é amigo do saber!”

Você poderá questionar essa crença — no caso de Sócrates e Platão era convicção e fruto de uma adesão racional — na vida depois da morte, mas o filósofo responde da seguinte maneira:

“Admitamos que a morte nada mais seja do que uma total dissolução de tudo. Que admirável sorte não estaria reservada então para os maus, que se veriam nesse momento libertos de seu corpo, de sua alma e da própria maldade! Mas, em realidade, uma vez evidenciado que a alma é imortal, não existirá para ela nenhuma fuga possível a seus males, nenhuma salvação, a não ser tornando-se melhor e mais sábia. A alma, com efeito, nada mais tem consigo, quando chega ao Hades, do que sua formação moral e seu regime de vida, o que, aliás, segundo a tradição, é justamente o que mais vale ou prejudica ao morto, desde o início da viagem que o conduz ao além.”

E, por último, “se não há esperança para quem morre, eu, pelo menos, não terei tornado meus últimos instantes desagradáveis para meus amigos, obrigando-os a suportar minhas lamentações.”

Foi assim, serenamente, mas sem adiamentos de quem se agarra ao corpo físico, que Sócrates bebeu a taça de veneno, caminhou pelo quarto, tombou e morreu. Não sem antes fazer uma prece. Houve desespero e choro no local. Mas ele, antes de cerrar os olhos, reclamou:

“— Que estais fazendo?! — exclamou. — Que gente incompreensível! Se mandei as mulheres embora, foi sobretudo para evitar semelhante cena, pois, segundo me ensinaram, é com belas palavras que se deve morrer. Acalmai-vos, vamos! Dominai-vos!

Ao ouvir esta linguagem, ficamos envergonhados e contivemos as lágrimas.”

Sócrates ainda teve tempo de deixar um último recado que somente os leitores entenderão:

“Críton, devemos um galo a Asclépio; não te esqueças de pagar essa dívida.”

E assim libertou-se do corpo este Arquétipo da Sabedoria para adentrar o Hades, o mundo dos espíritos, e reencontrar-se com as almas divinas em novas tertúlias.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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