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Um café poético para despertar a força desesperada da vida.

Priscila Topdjian

Escritora por coração. Formada em Letras e Jornalismo. Amante das artes e de tudo que desperta a força desesperada da vida.

O cronista Machado de Assis: escritor em formação

Será impossível, após a leitura das crônicas de Machado de Assis, não atar, em nós bem apertados, as duas ocasiões da obra do escritor, esses dois gêneros (crônica e romance) em que se desloca o narrador de estilo acentuado e expressivo, que começou a se construir nos primeiros anos de suas atividades no jornal


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Pouco é falado sobre as primeiras escritas de Machado de Assis (1839-1908): as crônicas publicadas nos folhetins (como eram chamados os jornais da época), fundamentais para a formação do grande romancista. Essas tinham a seu encargo o comentário da semana, as variedades, desde política amena até a vida cultural da corte, mas sempre com vistas a uma escrita literária prenhe de intenções e significações.

A partir da experiência do escritor como cronista, são construídas algumas técnicas do fazer literário que, posteriormente, estarão presentes em sua obra de ficção. Machado, já nos primeiros anos de sua carreira como jornalista, revela-se um exímio prosador.

Na apreciação da crônica, contida no livro “Crônicas Escolhidas”, Editora Ática – São Paulo, 1994, O nascimento da crônica, nota-se como o autor reveste sua narrativa com peculiaridades literárias em formato jornalístico. Citações explícitas e implicitamente incorporadas, figuras de linguagem, como a metalinguagem, características teatrais, paródias bíblicas:

“No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e a outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem...”

Composições que transformam a linguagem do cronista em afável, terna e ambígua, tornando a literatura em algo íntimo à vida de cada um:

“Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor...”

Suas crônicas são dotadas por uma sintaxe simples e objetiva, aparentemente acessível a qualquer leitor do jornal. Características que não impedem a inscrição de uma profunda consciência literária, a qual Machado destila visando sempre o leitor ainda por nascer: o leitor moderno, aquele capaz de ver a literatura como um paradigma autocêntrico, difuso e aberto.

Posteriormente, Machado amadurece nas páginas dos jornais. Então, publicará, por exemplo: Memórias Póstumas de Brás Cubas, coletânea de textos breves, irônicos, icônicos e ligados por um fio narrativo, que, a exemplo de um Flaubert na França ou mesmo um Eça de Queirós em Portugal, ajudará a condenar o romantismo ao espaço teatralizante da fábula realista, moldada na reversão paródica de ideais utópicos e benevolentes.

Contudo, o desvendamento de tais novelas só será presumível após o aprendizado de escrita em suas crônicas semanais. Além do interesse literário por essas crônicas, é apreciável que um texto, aparentemente velho e retrógrado, torne-se um ponto de partida para o estudo das ideias do escritor deixadas para trás.

A dialética entre a escritura literária e o texto jornalístico também precisa ser considerada. O contexto periodista tem sempre em vista a preocupação com aquele que lê. Sendo assim, a crônica, embora literária, possui envolvimento jornalístico entre realidade e ficção, manipulação e massificação do leitor.

Sua promessa está em não se contrapor ao formato do jornal, em enviar ao público o que ele gostaria de ver retratado, em tentar formar uma voz de consenso com a maioria dos leitores. Essa garantia, em outra instância, criará um espaço favorecido a Machado, na medida em que ele precisará criar estratégias em sua narração que possibilitem a construção de um texto interessante em que o assunto da crônica apareça mascarado por novas cores.

Em muitas composições linguísticas observadas para a construção de suas crônicas, tanto o apelo ao espaço ficcional da crônica, bem como a utilização da tradição literária para formação de cenas alegóricas da situação cotidiana ou de dogmas bíblicos, levam para o interior textual a tradição literária e/ou histórica:

“Antes de Edras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas...”

O que vai gerar um estranhamento com relação ao fato corriqueiro para o qual ela foi constituída.

Seria necessário, desta maneira, que nos questionássemos sobre a motivação da estratégia literária em evidência. Pois o prosador que eleva os leitores de sua crônica, dentro do espírito cotidiano do público de que se reveste no momento da opinião, por outro lado, pode estar sugerindo uma reflexão a respeito do modo de criação da própria crônica:

“Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor!”.

Assim, o intérprete da luz cria em sua crônica o olhar do público e a visão do cronista. Neste olhar é instaurada a arte devidamente calculada por trás do espetáculo. Fatores que evidenciam a consciência literária e jornalística em sua articulação.

Será impossível, após a leitura das crônicas, não atar, em nós bastante apertados, as duas ocasiões da obra de Machado de Assis, esses dois gêneros (crônica e romance) em que se desloca o narrador de estilo acentuado e expressivo, que começou a se constituir nos primeiros anos de suas atividades jornalísticas.

Todavia, para que isso se efetuasse, foi preciso que um dia sua pena visualizasse, dentro do jornal, o lugar para construir sua verdadeira habilidade retórica, formada a partir da construção de sua máscara linguística.

Escrituras assim, a exemplo de: O nascimento da crônica, podem ser entendidas independentemente de sua ligação com o contexto próximo de sua publicação.

Essa contemporânea filha de Cronos, que nem tem ambições de permanecer, já que é filha do jornal, da maquinaria e da indústria, onde tudo termina tão depressa... É também mãe da escrita moderna, da palavra calculada e fabricada segundo procedimentos literários.


Priscila Topdjian

Escritora por coração. Formada em Letras e Jornalismo. Amante das artes e de tudo que desperta a força desesperada da vida..
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