cafépoé

Um café poético para despertar a força desesperada da vida.

Priscila Topdjian

Escritora por coração. Formada em Letras e Jornalismo. Amante das artes e de tudo que desperta a força desesperada da vida.

Uma volta ao amor que perdemos

Todos os amores são impossíveis, se não arriscarmos a traduzi-los


Confesso, sou voyeur de histórias de amores impossíveis. E, numa dessas ânsias por descobrir mais uma narrativa amorosa, encontrei-me com o romance: “O Viajante do Século” (2009), do escritor Andrés Neuman. Não hesitei! Montei em sua carruagem-narrativa e fui parar numa cidade imaginária, Wandernburgo, no meio das diferentes regiões da Alemanha.

Depois, adentrei em um quarto de pousada barata. Era para Hans, o personagem principal do livro, um viajante, ficar apenas uma noite... Acontece que, em uma reunião sobre política e artes na casa de um desconhecido, ele conhece a insinuante Sophie. Inspirados pela sinfonia: Viagem de Inverno, de Schubert, eles vivem um amor proibido nesse quarto, desprovido de beleza e conforto, palco de uma cáustica vivência amorosa, a qual pude deleitar-me.

A história se passa no século 19, Sophie Gottlieb, filha de um homem da alta corte, é uma jovem provinciana que futuramente se casaria com o poderoso Rudi Wilderhaus. Hans deveria respeitar tal condição de contrato social, como mandava a época. O viajante respeita o contrato social, mas arrisca-se a viver um amor escondido, ato paradoxalmente mais difícil do que viver a tradição.

O envolvimento dos dois começa com a troca de cartas. A princípio trocam poemas como tentativa de elucidarem suas intenções e desejos. As cartas são enviadas pelos criados, cúmplices da relação.

Posteriormente, Hans e Sophie descobrem suas profissões, ambos são tradutores. A partir desse ofício em comum, por meio do trabalho de tradução de grandes poetas e romancistas europeus e americanos, o casal contorna a impossibilidade de se amarem, ainda que às escondidas.

Na história entre Hans e Sophie, há uma ideia de fundo: todo amor é um ato de tradução, de interpretação do outro, e toda tradução é um ato de amor, de se apaixonar pelas palavras do outro.

Quanto mais trabalhavam juntos, mais se davam conta de como o amor e a tradução eram parecidos, entender uma pessoa e transportar um texto, voltar a dizer um poema em uma língua diferente e colocar palavras no que o outro sentia. Ambas as missões se apresentavam tão felizes como incompletas, sempre restavam dúvidas, palavras por mudar... Nesse sentido, todo tradutor é um amante, todo amante precisa traduzir. E o autor leva essa metáfora ao extremo!

“Nessas quatro horas das quais dispunham a sós três vezes por semana, Hans e Sophie passavam dos livros ao catre e do catre aos livros, procurando-se nas palavras e lendo-se os corpos. Assim, sem se propor, foram alcançando um idioma comum, reescrevendo o que liam, traduzindo-se mutuamente...”

Traduzir também os excita sexualmente e, quanto mais se conhecem sexualmente, melhor se traduzem. Há um vínculo claro entre a linguagem do corpo e a linguagem das palavras. Como o conhecimento físico é, basicamente, um ato de linguagem e como a união linguística desses dois é, necessariamente, algo que tem uma consequência física.

“Sophie descobriu que quando fazia amor com Hans, tinha sensações similares às que experimentava traduzindo... Pouco depois, surpreendiam-na uns instantes de insólita lucidez, uns golpes de luz através dos quais ela podia contemplar o que estivera procurando: um sentido final, a sensação precisa, as palavras exatas...”

Um romance que trouxe a Andrés, escritor nascido na Argentina e radicado na Espanha, o Prémio Alfaguara. Uma escrita apaixonante, que transplanta ao continente europeu o recurso das terras fantásticas americanas de Rulfo, García Márquez e tantos outros... Recurso sintonizado com uma linguagem globalizada e fronteiriça, própria dos tempos de internet.

Além da história amorosa, a narrativa transita pela política, pelas artes discutidas e compartilhadas em reuniões com intelectuais do mais alto escalão, bem como na relação entre Hans e um realejeiro, que toca um instrumento italiano na praça principal da cidade. Um velho enigmático, preso ao seu instrumento como se fosse parte do próprio corpo. E é então que mais uma vez nos encontramos com a metáfora amorosa: o amor entre o homem e o seu instrumento! Como consequência, a música nasce dessa relação, desse exercício de escuta e de realização musical.

Mas, aqui, atentei-me a falar sobre o amor que nasce por meio da palavra, quer pela discussão dialética, quer pela leitura e tradução de autores que nos são caros, quer pela leitura dos corpos que se entendem, quer pela alma do outro e suas infinitas traduções. Uma tentativa de não nos sentirmos estrangeiros em nossas relações amorosas.

Que tal retornarmos aos amores que perdemos para não perdermos os que se fazem presentes? Ou para deixá-los partir antes que se tornem mofados e nos intoxiquem? Que tal ousarmos traduzi-los em todas as suas linhas, ainda que o cotidiano seja caro e a liberdade pequena?

Uma tentativa honesta de amá-los, não acham?

traduçãoamorosa.jpg


Priscila Topdjian

Escritora por coração. Formada em Letras e Jornalismo. Amante das artes e de tudo que desperta a força desesperada da vida..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/literatura// //Priscila Topdjian