caixa quadrada

Em busca de uma análise compreensiva, segundo as ações e interações dos indivíduos.

Renam Larentis

Somos conjuntos de perspectivas.

Como é perder um ente querido?

Sabe aquela sensação de estilhaço, não? Quando debruça-se no travesseiro e tenta coletar os cacos da memória. A lembrança daquele que porventura lhe falta.


Sabe aquela sensação de estilhaço, não? Quando debruça-se no travesseiro e tenta coletar os cacos da memória. A lembrança daquele que porventura lhe falta. Falta esta desmedida ao ponto de buscarmos tentativas de reavivá-lo através de seus pertences, fotografias e ensinamentos. É tarde, só resta frustração, raiva de nós e do mundo, além das famosas pitadas de deslocamento. Pois é, isolar-se em divagações é comum principalmente quando há a reiterada ânsia em conservá-lo na mente. Como uma pedra que atravessa a vidraça sob ensurdecedor barulho, transformando em estilhaços o que antes demonstrava unidade, coesão e estabilidade; esvai-se parcela do que somos em vida. Algo saiu do lugar, sem reposição, peça rara, ademais, única. Sobram meros recortes, falhos e incompletos. Pequenas filmagens capitadas por nossos olhos, despidas de facticidade, pois o que as sustentavam enquanto recordações era devidamente a presença do protagonista agora ausente. Sem ele, deixa de ser recordação, passando a ser o elo que liga as experiências provadas no passado e a vontade, frustrante, de reafirmá-lo existente, pois o queremos vivo, do contrário não haveria necessidade de buscar a cada dia, no baú da memória, a sua face um bocado mais perfeita, sua fisionomia melhor acabada, livre de borrões.

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Há instantes em que esse árduo trabalho é tão bem executado que projetamos sua presença numa dimensão quase que passível de realidade. Dando aqueles sermões, sentado na cadeira, fumando seu cigarro. Segundos após a chuva de mementos, retornamos à realidade crua, eram somente piparotes oníricos que se repetirão na contínua obsessão pela conservação das sobras recordativas.

Reconfortante. Termo propício para ilustrar o parágrafo acima. Ora, também não sejamos ingratos com a vida, se a dor floresce no seio da perda é porque existiu algo que atravessou parte de nossa caminhada e marcou-nos numa escala tão profunda de modo a expandir nosso espectro emotivo a instâncias que transitam o vazio do luto. Existindo luto, é porque houve causa, houve pai, que acompanhou parte da jornada do filho, que não o abandonou em vida. Através do que foi transmitido pela figura paterna, molda-se a figura fraterna. Por isso, em alguma proporção, reconfortante.

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Os cacos serão recolhidos gradualmente, embora jamais reconstituirão a imagem real. Quando nascemos, durante a tenra idade; morte, luto e perda ainda não encontram-se presentes. São apreendidos gradativamente. Por tal motivo, jamais compreendemos o quão valiosas são as lembranças. Únicos artifícios passíveis de serem utilizados para retratar o que e com quem vivenciamos no pretérito. Apenas as valorizamos quando só elas restam e, quando utilizáveis, encontram-se esmaecidas, vagas, pontuais. Essa frustração cria e reforça a culpa por não ter torando inesquecível cada instante passado com ele.

A lição que posso delatar é a extraível do parágrafo anterior. Busque reavivar na memória cada momento vívido com seu ente querido. Valorize cada diálogo assim como os olhares marcantes e catalogue os instantes em que percebeu o porquê faz dele alguém tão especial em sua vida. Não recorra aos mementos quando o protagonista não se faz mais presente. Conserve-os em vida, senão, terá de juntá-los na forma de cacos, na forma de lembrança estilhaçada e fugidia.


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