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Em busca de uma análise compreensiva, segundo as ações e interações dos indivíduos.

Renam Larentis

Somos conjuntos de perspectivas.

Hannibal Lecter: para além de um psicopata

Hannibal vai além de uma série sobre um canibal com transtorno de personalidade antissocial, buscando temáticas filosóficas e temidas por parcela da sociedade. Vale a pena assistir!


Antes de desenvolver o título, é necessário alguns paroquiais esclarecimentos. Não será tratado nesse breve texto o aspecto técnico da série, pois já existe farto conteúdo orientado por esse critério. Importantes características como o culto à fotografia, o caráter hermético da ambientação luminosa e a fidelidade à obra escrita de modo semelhante serão deixados de lado.

O objeto de análise apresentar-se-á como o motivo de assistirmos esta aclamada obra com segundas intenções. A série, para quem é fã de thriller psicológico, alça voo nas resoluções de crimes cometidos por psicopatas, dentre eles Hannibal Lecter, que também é canibal.

Porém, para quem possui segundas intenções, é observável cenários implícitos recheados de teor psicanalítico, sátiras à moral e diálogos profundos. Justamente por isso, não se preocupe, não haverá spoilers, o escopo é aguçar o potencial implícito nas cenas.

God´s Terrific

Deus é tremendo! A criação, feita sob imagem e semelhança é limitada, mortal, corruptível. Deus, na acepção do termo também pode ser terrível e, na querela de seu sadismo, brincar com sua criação, mostrando-a a imensidão de sua fúria quando contrariado, a indiferença sob o pretexto do livre arbítrio e também o sarcasmo ontológico na medida em que somente ele conhece genuinamente a natureza humana.

Suprimidas as possibilidades de destituí-lo, Hannibal Lecter considera-o inaceitável, indelicado, e através do recalque analisável sob a vontade pelo controle de quem o circunda, transporta a consciência do divino à esfera mundana sob a seguinte prerrogativa: se a criatura não pode ser Deus enquanto figura imanente, recrie em terra o divino sarcasmo e a divina indiferença, seja como ele, sem ser ele. Hannibal pretende isso, conclama as próprias categorias morais e às aplica sobre seus brinquedos, irmãos criados, ingênuos na obediência ao divino.

Reze pra Mim

Hannibal é vaidoso. Almeja ser cultuado. A beleza esotérica de suas feições perfazem um grande paradoxo. Ele quer olhar da perspectiva do pedestal, mas quer sentir-se observado, admirado, sobretudo compreendido. Compreensão requer interlocutor, supressão do isolamento. Necessita de alguém que olhe seu feito sob o mesmo matiz, com idêntica parcela de arrebatamento. Suas atitudes transcenderiam nesse ínterim o espanto provocado pela inversão moral. Sobretudo, deseja um espectador lúcido, que acompanhe arduamente o desfecho de sua obra, contemplando-a quando acabada. Isto requer alguém que o enxergue além-amalgama da psicopatia, alguém que seja capaz de transformar-se no próprio e adquirir sua perspectiva criadora.

Compreenda-me: this is my design

Para submergir noutro perfil psicológico faz-se imprescindível intensa sensibilidade. Solver o método de assassinos em série pressupõe aguda capacidade em equacionar num ritmo idêntico as motivações causadores de episódios agraciados de massiva carga de violência. Todavia, Hannibal exige camadas mais densas de percepção. Psicopatas comuns são decifrados através da relação entre a violência praticada, o padrão emitido e as induções emotivas que levam-nos à conclusão do ato, Dr. Lecter não é um psicopata esporádico, é artefato raro, Deuses são movidos pelo sadismo, isto é, perversão psíquica por meio da efetuação do sofrimento.

Causar dor não pelo mero prazer, além do gosto, a ciência de ter feito aquilo porque controla o seu redor e cria as convenientes valorações do certo e do errado. Hannibal Lecter o faz em virtude de saber que é indiferente, não cria padrões, não age por pulsões emotivas e não enxerga o horror como violento, é apenas acaso, caça, um modo de arte somente operado por Deuses.

Entender tacanha dose de psicopatia ordena seu total oposto, empatia pura. Will, com quadros alarmantes de empatia cognitiva, aptidão em compreender os pensamentos de outrem, mostra-se a cobaia perfeita para satisfazer a pretensão pela compreensão genuína de Hannibal. Em virtude disso, na medida em que Will interage com ele, desequilibradamente projeta-se na figura do Dr. Lecter ao ponto de perder a cronologia das horas e a métrica da dimensão espacial, afogando-se no ritual de transformação, confundindo-se acerca de quem propriamente é, a caça ou o caçador.

Wendigo

A metáfora da criatura folclórica é inegavelmente o ritual de transformação operado pela consciência de Will em direção ao esclarecimento do que representa Hannibal. Como exposto, este quer um cultuador perfeito. Will introjeta os insights provocados por Hannibal e, no ceio de suas modulações acerca da natureza da realidade e do tempo, passa a questionar a própria personalidade.

Como num ritual antropofágico, Will absorve os caracteres do Wendigo. Ressentimento é o que sente ao notar a incapacidade desgarrar-se da influência provocada pelo Wendigo em face do ódio à indelicadeza de seu Deus. Como toda Divindade mor, Hannibal fez florescer à realidade o Will reprimido pelo exterior, na medida em que dilapidava os traços de sua moralidade. O construiu para destruí-lo, é indelicado, sádico.

O demônio da existência

Os valores que orientam cada sujeito compõem mecanismos de delimitação do que é praticável e restringível. O demônio da existência, Hannibal, indaga acerca das garantias que sustentam tais denominações. Existindo, pode a criatura assumir e contemplar todas as máscaras da realidade, ou moldar o que enxerga sob o prisma da díade bem-mal? A teodiceia irrompe na composição moral de Will, na proporção que compreende o desiquilíbrio valorativo de Hannibal Lecter.

Isto provoca uma fundamental conclusão, a elaboração do maligno é reprimida pelo humano, repressão esta tratada como a superação do animalesco. Na esteira desse instinto comprimido a desvio evolutivo, Dr. Lecter intenta prová-los, levando-nos a dissociar-se do espectro benévolo-malévolo, conforme questionamos o teor moralmente repreensível de sua crueldade.

Para concluir, é notória intenção da trama em tornar moral o ângulo de comportamento de um psicopata, com o objetivo de angariar indagações acerca de como lidamos com a loucura, o mal, a morte e a podridão do obsceno. Hannibal vai além de uma série sobre um canibal com transtorno de personalidade antissocial, buscando temáticas filosóficas e temidas por parcela da sociedade. Vale a pena assistir!


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