calango lisérgico

Enquanto existir Deus no céu, urubu não come folha

Acauam Oliveira

Professor universitário, crítico cultural, músico e editor do site CHIC Pop. Possui artigos publicados em revistas acadêmicas, periódicos, fanzines e livros. Preto, São Paulino e sofredor.

OLIMPÍADAS 2016: O BRASIL QUE ODEIA O BRASIL

O que Rafaela Silva, Felipe Wu e as meninas do futebol devem ao Brasil? Absolutamente nada. Suas trajetórias não são vitoriosas por conta do Brasil, e sim a despeito dele. O que o Brasil tem de melhor é aquilo que o país mais odeia.


n_santos_f_c_neymar_nas_olimpiadas_2012-4880659.jpg FONTE: sempre peixe

Até pouco tempo, a seleção brasileira masculina de futebol funcionava como uma espécie de imagem simbólica de que o país poderia dar certo, espécie de utopia concreta que resolvia em campo, de uma maneira original e única (malandra e mulata), os conflitos (raciais e de classe) que na prática se mantinham desde o período colonial. Nosso futebol era a principal lição brasileira ao mundo, juntamente com a qualidade excepcional de nossa música popular.

Sintomaticamente, o 7x1 veio para esmagar de vez essa imagem utópica (creio que o prenúncio foi a derrota do Santos para o Barcelona no mundial, quando os brasileiros resolveram partir pra cima dos espanhóis, confiando no “talento do futebol arte” brasileiro, que então já era uma mera fantasmagoria), em um momento em que o mundo (e parte de nós) acreditou que algo dessa promessa grandiosa do Brasil-potência poderia, enfim, se realizar (“Que horas ela volta?” é a grande fábula dessa crença). Em certo sentido, a ruína do futebol, do PT e da MPB é também a ruína de um modelo de país com o qual o Brasil real nunca esteve, de fato, comprometido, a não ser ideologicamente. A conciliação do inconciliável: manter uma estrutura social marcada por processos de exclusão permanentes, regulados pela violência sem freios de um estado assassino, enquanto louvamos hipocritamente a criatividade daqueles que conseguem permanecer vivos.

Luis Antonio Simas fez uma relação bem completa das causas da morte real e simbólica da seleção brasileira masculina de futebol: a bandidagem burlesca e mafiosa da CBF; a transformação do jogador de futebol em celebridade pop de ocasião; a morte dos estádios, transformados em arenas “com bistrô, loja de conveniência, espaço gourmet e outras babaquices”; a transformação das camisas dos clubes em outdoors personalizados; a limitação dos nossos técnicos; o baixo nível de parte da imprensa esportiva paga pau; a morte da rua e da várzea, substituída por escolinhas de clubes; a linguagem moderninha dos narradores e comentaristas deslumbrados com a NBA; e a "barcelonização" da torcida infantil. O conjunto, desolador, forma a imagem de um modelo de futebol que perdeu o lastro de si mesmo, optando por substituir aquilo que possuía de melhor por uma lógica de “barcelonização” geral, cujo resultado óbvio é nossa condenação à irrelevância.

Ou seja, quando o futebol se tornou enfim um espetáculo multimilionário transnacional, as elites locais ligadas ao esporte fizeram o que as elites brasileiras sempre fazem: optaram por destruir o que aqui havia de melhor, condenando-nos a irrelevância em troca de algumas moedas a mais. Dessa forma, o futebol deixa de representar o “espírito de um povo” para se converter, no máximo, em uma espécie incômoda de “encosto”. Não por acaso a atuação de nossos bons jogadores é pífia na seleção.

Chegam então as olimpíadas, quando podemos acompanhar, emocionados, as vitórias heroicas de nossos atletas, mesmo quando não recebem medalhas. Estaríamos diante de uma imagem outra de um país que agora vai dar certo? Um olhar mais atento para o histórico de nossos heróis olímpicos, contudo, é o suficiente para desfazer ilusões.

Felipe Wu, o paulistano descendente de chineses que ficou com a prata no tiro esportivo, treinava no quintal de casa por falta de estrutura. O futebol feminino conta hoje com uma geração de gênias da bola, como nas seleções masculinas dos anos 1970 e 1980. Mas mesmo com todo o sucesso internacional (Marta é um dos maiores nomes do esporte brasileiro de todos os tempos) o esporte não conta com nenhum tipo de apoio ou incentivo mais consistente no país, nem do Estado e nem dos torcedores. Não nos deixemos iludir: quando a machista torcida brasileira grita o nome de Marta no jogo da seleção masculina, não se trata de verdadeira admiração, e sim de uma maneira de “rebaixar” os jogadores homens, tratando-os por “mulherzinha”. Na prática, a torcida mal comparece aos jogos de futebol feminino.

13876346_10154120507737713_5300912504588822452_n.jpg FONTE: O Globo

Mas talvez o grande exemplo hoje seja a trajetória de Rafaela Silva, a judoca que trouxe a primeira medalha de ouro para o Brasil. Mulher, negra e periférica, nasceu e cresceu na Cidade de Deus em sua época mais violenta. Em 2012, ao ser desclassificada nas Olimpíadas de Londres, ao invés de receber a solidariedade da torcida brasileira, Rafaela foi vítima de ofensas racistas. Na época respondeu a altura, mas teve que se desculpar para não ser punida pela federação. Quase desistiu do judô. Um ano depois era campeã mundial, e agora é campeã olímpica.

O que Rafaela, Felipe e as meninas do futebol devem ao Brasil? Absolutamente nada. Suas trajetórias não são vitoriosas por conta do Brasil, mas a despeito dele. O verdadeiro milagre brasileiro é o dado aparentemente paradoxal de que o que temos de melhor é justamente aquilo que o país oficial quer ver morto (as vezes literalmente, como no caso de Rafaela). O mesmo, aliás, vale para a cultura: a abertura dos jogos olímpicos foi belíssima por conta da nossa riqueza cultural, que para o Brasil é produzida por um bando de vagabundo esquerdista. A síndrome de vira-latas nacional não consiste apenas em nosso complexo de inferioridade, mas no apego a essa inferioridade: um desejo profundo por mediocridade que faz o país odiar suas poucas qualidades. Isso se revela mesmo nos momentos de comoção olímpica: quando Rafaela conquistou sua vitória, imediatamente começaram a aparecer na mídia as histórias sofridas de sua infância pobre, as dificuldades de uma criança que cresceu na favela e venceu, etc. Além da função ideológica óbvia de reforçar que todos podem “vencer na vida” caso deixem a preguiça de lado, essa lembrança permite que se admire Rafaela a partir de uma perspectiva partenalista, que a trata mais como coitada que como heroína. Como bem lembrou a comentarista Ana Moser na transmissão da ESPN, a questão não é tratar Rafaela como uma mulher negra sofrida que chegou lá, mas lembrar que existem milhares de outras Rafaelas que não “chegam lá” porque não tem a cor, o gênero ou a orientação sexual corretas.

O melhor do Brasil não são os brasileiros, como sustenta certo slogan contemporâneo. De fato, nem os brasileiros nos salvam do buraco em que nos metemos. Como bem dizia Mário de Andrade, Macunaíma (o brasileiro (anti)modelo) é engraçado, divertido, faz memes, adora zueira, mas é também um “cão de nazista”. Afinal, o que significa o golpe, e os nobres deputados que o engendraram, senão a zueira em política? O que significa Bolsonaro senão a política tornada bullying? Da mesma forma, as ofensas racistas à Rafaela não foram nada demais, “só zueira”. É pela zueira que perpetuamos nossa miséria.

O que o Brasil possui de melhor é sua tradição de resistência. Resistência negra, resistência indígena, resistência feminina. Todas contra o Brasil-potência. Sem dúvidas, o melhor do Brasil emerge daquilo que o Brasil gostaria de ver morto.


Acauam Oliveira

Professor universitário, crítico cultural, músico e editor do site CHIC Pop. Possui artigos publicados em revistas acadêmicas, periódicos, fanzines e livros. Preto, São Paulino e sofredor. .
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