calledos

na calle 2 passa um feirante: levando flores abismos etc etc

Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]

Paixões diretas já

O verso a seguir é para ser lido em voz alta: "O Brasil já tem sua meta: é a paixão direta." Ele é repetido quarenta e quatro vezes. Em voz alta.


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Imaginem a seguinte cena: um rapaz vai a público com um cartaz pedindo a volta das paixões diretas. Paixões diretas já. As pessoas em volta olham com estranheza. Uma ou outra esboça um sorriso, afinal a sacada do cartaz é boa, engraçadinha. De resto, nada mais acontece. Um protesto irrisório. Fiasco total. Outra cena: ao chegar em casa, esse rapaz se mete a escrever um texto sobre as tais paixões diretas. Quer convencer as pessoas a saírem dessa inércia que as afasta de um amor real. É o que faço no momento.

Não. Ninguém saiu às ruas. Não ouviu-se cânticos nobres criticando o excesso de amores superficiais. Esse protesto não ganhou as mídias, não foi comentado nos jornais e nos portais de notícias. Não teve evento no Facebook nem selfie durante a manifestação. Não houve nada disso porque, bem, porque as pessoas têm mais com o que se preocupar.

Sim. O meu protesto foi discreto e silencioso, abafado pela voz do convidado de um programa de TV que falava sobre paixões platônicas. Minha cara de desgosto, protegida pelo ambiente fechado no qual me encontrava, não virou motivo de chacota no Twitter. Ufa. Vejam bem: não é que eu tenha algo contra as paixões platônicas. Longe disso. A questão é que, cá entre nós: já passou da hora da gente começar a amar de verdade.

O ideal de amor platônico refere-se a algo puro, virtuoso, desprovido das paixões efêmeras as quais já estamos acostumados. Para Platão, esse tipo de amor só é possível no mundo das ideias, no campo da imaginação: não se aplica ao mundo real. Um amor platônico é um amor utópico, impossível, aparentemente inalcançável. Temos a falsa ideia de que ao vivermos um amor platônico evitaremos o sofrimento famigerado do amor real. Esse tipo de paixão indireta é um jeito que encontramos de refutar a imperfeição amorosa: queremos que tudo seja plasticamente ajeitado para que não saia do roteiro que estabelecemos previamente. Tudo tem que andar nos trilhos, senão não me serve. A questão é que estando numa paixão indireta, ao mesmo tempo em que não se sofre, também não se vive os prazeres da relação. Um amor de verdade não anda nos trilhos. E lá vai uma novidade: é justamente aí que está a graça.

Definir é limitar, já diria Oscar Wilde. E ao definirmos que não queremos entrar de cabeça num relacionamento estamos nos limitando a viver no raso: a falta de profundidade das relações do mundo moderno é cada vez mais gritante. Tendo definido que não queremos nos envolver, estamos fadados a fracassar. Uma paixão direta, verdadeira e real, dessas que às vezes te embrulham o estômago e te fazem sentir coisas até então inimagináveis, esse tipo de paixão requer envolvimento. Requer intensidade. Mais que isso: requer intensidade recíproca. E é difícil encontrar intensidade quando todas as outras pessoas parecem fechadas a possibilidade de se envolver. Percebam o dilema.

Precisamos dar um basta nisso. Chega de gente rasa, vazia, supérflua. Já passamos tempo demais fantasiando, conjecturando. Essas novas formas de sociabilidade nas metrópoles, relações virtuais, a paixãozinha do transporte público que nunca saiu do campo platônico, aplicativos de pegação etc, pra que isso? Por que se aventurar no Tinder sendo que há várias e várias formas de amor real espalhadas por aí, esperando para serem vividas? Por que privar-se do beijo e do toque? Pior: por que substituir o toque pelo touch?

Uma moça que conheço, Clara Abrahim, diz que não gosta de gente chuvisco. Ela prefere furacão, tempestade. É bem isso. A gente gosta mesmo é do estrago. A gente quer um amor que nos faça revirar os olhos. A gente quer um amor que vire nossa vida do avesso: quem foi que disse que o avesso é o lado errado? Em resumo: desatemos os nós que nos prendem a paixões irreais. Desatemos os nós de nós.


Fabricio Garcia

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