calledos

na calle 2 passa um feirante: levando flores abismos etc etc

Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]

Eu não tenho carteira de motorista e estou muito bem assim, obrigado

Sobre não fazer parte da maioria e ser totalmente normal.


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O título do texto é claro. Pois é, eu não tenho carteira de motorista, não tenho vontade de tirá-la e (pasmem) consigo muito bem viver assim. Claro que isso não é comum. Longe disso, inclusive. Muita gente partilha do sonho de ter um veículo e poder dirigi-lo legalmente pela cidade. Eu mesmo tenho muitos amigos que aprenderam a dirigir aos quinze, dezesseis anos. Completar dezoito era um mero formalismo para, enfim, poder tirar a carta de habilitação.

Eu, inabilitado que sou, fui na contramão desse pessoal. Nunca tive vontade de ter um carro. Muito menos de sair dirigindo por aí. Primeiro porque tenho aversão ao trânsito. Moro em São Paulo, cidade complicada, congestionamento o dia todo. Cresci vendo familiares e pais de amigos sempre estressados, reclamando do trânsito, da demora para conseguir se deslocar de um lugar para o outro. São Paulo tem dessas coisas: qualquer horário é horário de pico.

Segundo motivo que me distancia da vontade de dirigir: os outros motoristas. Lidar com o outro é sempre difícil. Colocar-se no lugar do outro então... Costumo dizer que os relacionamentos dariam mais certo se não envolvessem duas pessoas. E esse conceito se aplica ao trânsito: não basta preocupar-se somente em dirigir o seu carro, tem que se preocupar com o outro. E "o outro", nesse caso, são vários outros, alguns tão inabilitados quanto eu. O trânsito é uma orgia. O trânsito é um lugar onde cada um tem sua própria lei de trânsito. E vê que louco: trânsito, uma palavra que refere-se a transitar, estar em movimento, acabou virando sinônimo de não estar em movimento. Estar no trânsito é estar parado.

Poderia esticar essa lista de motivos, citar o número de acidentes de carro, o preço do combustível, o estresse causado pelo ato de dirigir, a má qualidade do ar que cresce juntamente com a produção de veículos (que são um dos maiores produtores de dióxido de carbono e responsáveis por quase toda a poluição atmosférica). Poderia também fazer aqui uma campanha para vocês deixarem o carro em casa e começarem a andar de bicicleta, a pé ou de transporte público, mas não é esse o propósito do texto.

Eu poderia tirar minha carta de habilitação mas não quis. Não quero. Qual o problema nisso? É isso aí: nenhum. Tirar carteira de motorista é uma escolha, não uma obrigação como a sociedade nos faz pensar. Se você tem dezoito anos ou mais, não tem carta de habilitação e não tem vontade de tirá-la, saiba que você é perfeitamente normal. Não somos pessoas piores por não termos carteira de motorista ou por não termos um carro. Muito pelo contrário: eu, por exemplo, consigo ler e escrever durante o caminho para casa ou para o trabalho, algo que me faz muito bem e que não seria possível estando atrás de um volante. Aliás: esse texto nasceu no metrô, enquanto eu ia para a faculdade.

Já ouvi por aí que era "anormal" eu ser homem e não querer aprender a dirigir. Esse pensamento burro, machista, obviamente não faz sentido. Como também não fazem sentido muitos outros pensamentos machistas considerados normais pela nossa sociedade. Eu falo aqui da questão da carta de habilitação, mas esse tipo de opressão para que você se encaixe, para que você faça parte da maioria, a parte considerada normal, bem-aceita e benquista, essa opressão acontece de formas diferentes. Por favor: atentem-se a isso. Não deixem acontecer. Não fazer parte da maioria é totalmente normal. Anormal é não respeitar a preferência de alguém.


Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]
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