calledos

na calle 2 passa um feirante: levando flores abismos etc etc

Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]

Carta para Alex Turner

p/ ser lido ao som do "AM", álbum dos Arctic Monkeys.


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Querido Alex,

antes de mais nada, preciso confessar que voltar a te escrever depois de todo este tempo é, no mínimo, nostálgico. Meio estranho também, inclusive. Sei que ando distante, e que tenho te evitado sempre que posso, mas é que eu sinceramente não sei mais o que fazer. Foi você quem me pediu para ser cruel contigo, lembra? Portanto eu espero que você me entenda. Se não entender, também não tem problema. Na maioria das vezes nem eu me entendo. E é justamente por isso que acabo agindo dessa maneira. Me desculpe, Alex.

Saiba que fiquei feliz em descobrir que você tem sonhado comigo ultimamente. Eu ouvi aquelas músicas que você pediu (vira e mexe elas têm tocado nas rádios também). Só espero que não as tenha escrito chapado, já que ficou bem claro que fazer as coisas chapado nunca é a melhor escolha (vide suas milhões de ligações no mês passado...). Não quero que seja assim. Não é pra ser assim, cara.

Bom, queria dizer que você cometeu alguns equívocos. Eu estou longe de ser uma "amante moderna", meu caro. Bem longe disso, aliás. Lembra quando, um tempo atrás, você não sabia se eu estava procurando romance? Pois é. Eu não estava. Nunca estive. Até o momento em que você apareceu com esse charme filho da puta e me fez questionar tudo aquilo que eu já tinha sentido durante toda a minha vida. Ainda assim, eu não queria romance. Essa coisa toda de romance me parecia um conceito bizarro na época. Vai entender...

Não sou uma "amante moderna", Alex. Tampouco sou uma amante à moda antiga. Ora, que culpa tenho eu por preferir os amores casuais? E mais: se isso te incomoda tanto, por que continuas a querer ser meu? Isso faz tanto sentido quanto as mensagens que você me manda vez ou outra durante a madrugada, depois de uns três ou quatro copos daquele uísque que você vivia insistindo para que eu provasse.

É engraçado ver que você continua a dizer que te enlouqueço (e não no bom sentido). Essa nunca foi a intenção, acredite. Eu só estava me divertindo, e achei que você também estivesse. Ou será que aquela noite excepcionalmente chuvosa de terça-feira não foi divertida? Você reclamava dos meus ombros gelados e preferia não se aproximar enquanto me observava na pista de dança, sei lá eu por quê... E eu fazia de tudo para te provocar, claro. Você parecia gostar das provocações. Hoje em dia eu já não sei se gosta.

Ah, você também errou feio ao acreditar que eu havia me apaixonado por alguém. Até parece que não me conhece... Não se preocupa não, Alex. Eu não sou de me apaixonar assim tão facilmente. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso. Paixões são para pessoas bem resolvidas sentimentalmente. Não para mim, que sou a confusão em pessoa. Sei que você me entende. Caso contrário, não sairia por aí dizendo que sou "tempestade". (Eu nunca gostei da calmaria mesmo.)

Os últimos meses foram bem frios, então a ideia de um aquecedor portátil não é de todo mal. Mas o aspirador de pó eu dispenso, obrigada. Nunca fui muito fã de limpeza, você sabe. Por isso sempre existiu toda essa sujeira por debaixo do tapete. Mas nós costumávamos fingir que estava tudo bem. E talvez estivesse mesmo. Mas a sua paranoia foi me cansando. Sua inconstância também. Ora, por que não podemos voltar àquela época em que passávamos horas na cozinha dando risada de nossas próprias piadas? Eu sinto falta disso.

Saí com alguns caras depois da última vez em que você foi embora. Nenhum deles comentou sobre a minha meia 3/4. Nenhum deles elogiou o meu jeito de andar, nem o comparou a uma serenata como você costumava fazer. Alguns até usavam jaqueta de couro, mas não era a mesma coisa. Resumidamente: eles não eram você, Alex. E foi aí que eu percebi que a letra de What If You Were Right The First Time fazia mais sentido do que eu imaginava. Sim, tudo parecia estranhamente vazio sem você. Deve ser a tal "tristeza de janeiro" que você comentou.

Ah, cara. Me desculpe por tudo isso. Eu já não sabia mais o que você queria, e, pra ser sincera, nem sei se você ainda se importa. O que eu sei é que estou cansada de te ver indo embora. Não sou chegada em despedidas, então dessa vez eu te peço que fique. Sinto falta de irritar o sorveteiro em tardes chuvosas (não faz sentido se você não estiver aqui). Enfim... Tenho certeza de que podemos voltar a ser como éramos antes, já que você continua a ser o meu pior pesadelo favorito.

Alex, quantos segredos você consegue guardar?

Na verdade, só tenho um pra contar: nunca deixei de ser sua.

Eu só queria saber se é recíproco.

ps: continuo hospedada naquela mesma suíte de hotel. O número você sabe de cor.


Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]
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