calledos

na calle 2 passa um feirante: levando flores abismos etc etc

Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]

eu sugiro um abraço coletivo porque tá todo mundo mal

um texto sobre a gente fingir que tá tudo bem, mesmo quando não tá tudo bem.


12573774_1642939682636319_7213175023178241145_n.png (o texto talvez faça mais sentido depois que você assistir esse vídeo aqui)

Olha, vou ser sincero: fazia tempo que eu não via tanta gente (inclusive eu) comemorando a chegada de um novo ano. Dois mil e quinze já estava com cara de filme da Sessão da Tarde, aqueles batidíssimos, que todo mundo está cansado de ver. Dois mil e dezesseis, por sua vez, chegou trazendo o famigerado fresh air que todo início de ciclo traz consigo. Agora, vinte e sete dias depois, as neuras todas de volta, uma única certeza se sobressai em meio a um mundaréu de dúvidas: os problemas não foram embora junto com dois mil e quinze porque eles moram dentro de mim.

"Ok, Fabricio, o problema tá dentro de mim. Mas como eu resolvo isso?" Sendo sincero outra vez: não sei. Não sei mesmo. Meu estoque de certezas foi gasto no primeiro parágrafo. Daqui em diante, são só dúvidas.

Bom, admitir sua parcela de culpa pelo que está acontecendo contigo é um primeiro passo. Mas, se você me perguntar qualé o segundo, também não vou saber te dizer. A real é que tá todo mundo mal e não há um culpado óbvio para a gente sair por aí apontando o dedo. Eu bem queria que houvesse, mas não há! Ano passado, finzinho do ano, já tomado pelas energias positivas do ano que estava por vir, eu cheguei em uma amiga e disse, com toda sinceridade possível, que a virada na nossa vida não passaria por 2016: passaria pela gente. É aquilo, né, o 6 no final é só um número, como qualquer outro: poderia mudar o ano, mas, se não mudássemos nossa atitude, todos os anos pareceriam iguais.

Tudo muito poético, tudo muito bonito. Agora, vinte e sete dias depois, eu tenho plena consciência de que carrego o papel principal na missão de mudar minha própria vida, mas não sei o que fazer a partir disso! Mudar como? De que forma? Eu bem gostaria de poder responder a essas questões, porém, no auge dos nossos vinte e um anos, a gente tem muito mais perguntas do que respostas. Se bem que, analisando melhor, isso é uma coisa que independe de idade: uma das pessoas mais fantásticas que conheço acabou de completar 53 anos e ainda não se encontrou. Viu, tá todo mundo mal...

Ontem, peguei um ônibus e, devido à falta de crédito no bilhete único, tentei pagar a passagem com uma nota de vinte. "Eu não tenho troco não", foi tudo que disse o motorista. Sem saber muito bem como proceder, perguntei a ele como eu deveria proceder. "Senta aí e desce pela frente". "Eu desço pela frente e tá tudo bem?", questionei. E aí veio a frase que justifica a menção de tal episódio neste texto: "Nunca tá tudo bem, né... Mas pode descer pela frente sim".

Não sei ao certo o que o levou a dizer aquilo. Pode ter sido uma angústia pessoal. Alguma insatisfação com a vida. Ele pode até ter falado por falar. Mas acertou em cheio: nunca tá tudo bem. Às vezes, tá tudo indo bem, mas aí acontece uma coisinha insignificante e de repente não tá mais tudo bem. Às vezes, a gente finge que tá tudo bem, conversa com os amigos como se estivesse tudo bem, vive a vida e posta no Facebook como se estivesse tudo bem, só que aí, aí a gente encosta a cabeça pra dormir e se dá conta de que não tá tudo bem. No fundo, a gente sabe que nunca tá tudo bem.

Vamos a outro episódio interessante que aconteceu recentemente e acho interessante mencionar aqui. Estava eu, num bar, reunido com vários amigos, quase todos da minha idade. Geral dando risada, geral muito feliz. Até aí, tudo certo. De repente, não sei se por causa do álcool no sangue, nossa mesa das risadas virou a mesa da problematização. Quando vi, estávamos todos falando sobre os mais variados tipos de decepções, incertezas, paranoias, tristezas e tudo aquilo que leva o astral lá pra baixo. A roda do bar virou sessão desabafo, no sentido mais literal da expressão. E os desabafos continuaram até uma das pessoas lançar, em voz alta: "vocês já pararam pra pensar no quanto a gente é inconstante?" O silêncio que se seguiu à pergunta deixou bem claro que não, não havíamos pensado. Pelo menos até aquele momento...

Sim, a gente é inconstante demais e esse é um dos principais motivos para estar todo mundo mal. Falando por mim: num dia, penso mil vezes antes de fazer determinada coisa; no outro, tô agindo super no impulso. Num dia, tô pouco me importando com aqueles nossos probleminhas diários; no outro, tô dramatizando e criando caso em cima de coisas desimportantes. Num dia, tô muito bem solteiro; no outro, tô carentão. E por aí vai... Eu já nem sei mais se culpo a minha lua em peixes ou a minha vênus em escorpião.

Se você leu até aqui na esperança de algum conselho ou de uma frase positiva, lamento te desapontar. Eu também tô mal. Tá todo mundo mal, lembra? O que eu posso dizer é o seguinte: há alguns meses, uma amiga me ensinou uma palavra nova: vivificar. A frase era assim: vivificando o próximo, você também será vivificado. Pois bem! Minha sugestão é essa: vamos nos abraçar e nos vivificar. Por quê? Bem, porque tá todo mundo mal...


Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]
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