calledos

na calle 2 passa um feirante: levando flores abismos etc etc

Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]

vem cá, a gente precisa falar sobre ghosting

um texto sobre relacionamentos, sumiços e muita, muita falta de empatia.


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Imaginem a seguinte situação: você começa a se envolver com alguém, o papo flui bem, vocês conversam com frequência e tudo parece caminhar perfeitamente. Aí, de repente, a pessoa começa a demorar horas para responder, não puxa papo como antigamente e dá respostas cada vez mais curtas. Os sinais de desinteresse ficam cada vez mais claros, até que as coisas entre vocês esfriam completamente. Pior: essa pessoa pode simplesmente sumir, do nada, sem te dar explicação e, consequentemente, sem que você tenha a menor ideia do que pode ter acontecido. Parece familiar? Pois bem, saibam que existe um termo para isso: ghosting.

O ghosting (palavra derivada de ghost, fantasma) é a arte de sumir como forma de pôr fim a uma relação. E essa é uma situação que ocorre com mais frequência do que a gente imagina. Uns dias atrás, depois de ter ouvido o termo pela primeira vez, decidi perguntar a alguns amigos e amigas se eles já haviam passado por algo desse tipo. Todos me responderam que sim. Todos. E a maioria deles já esteve nos dois lados da coisa: o lado que sofre e o lado que some. É claro que a pessoa a sumir também pode, eventualmente, acabar com peso na consciência e sofrendo durante o processo. Mas as consequências para a pessoa deixada de lado são muito mais graves.

Ao ouvir histórias dos meus amigos, me deparei com uma metáfora interessantíssima: sumir inesperadamente é como levar a pessoa pela mão até um túnel escuro, o qual ela desconhece. Aí, do nada, a gente solta a mão e deixa ela lá, sozinha. Compreendem? Para quem conhece o lugar, sair dele é fácil. Para quem está ali pela primeira vez, no escuro, é desesperador: precisaremos bater muito a cabeça até conseguir achar a saída! Ser deixado do nada é isso. A sensação é de estar perdido, sem saber para onde ir.

Bom, sumir sem mais nem menos é uma atitude 1) covarde e 2) absurdamente egoísta. E falo com conhecimento de causa, porque também já estive nos dois extremos. Sou, com frequência, a pessoa que some. No entanto, se vocês me perguntarem o que me leva a fazer isso, eu honestamente não saberia responder. Só sei que é um processo involuntário e bem estressante. Digo isso pois consigo me assistir durante esse "sumir" e, ainda assim, não sou capaz de lutar contra. Outra coisa: esse meu ato de sumir quase nunca tem a ver com querer me livrar da pessoa. Muito pelo contrário: é uma parada estritamente pessoal, nada relacionada ao outro. A pessoa é apenas mais um elemento dentro da minha bagunça interna. E, como aprendi com a senhora minha avó, a gente precisa tentar arrumar as coisas antes de convidar alguém para vir nos visitar.

Aí entra um outro ponto importantíssimo: nossa inconstância. A gente muda muito, o tempo todo. Para quem está de fora e não está acostumado com isso, é bem difícil acompanhar. Nós, humanos, somos seres complicadíssimos, incrivelmente complexos. Aí, num belo dia, entra um outro ser na nossa vida, totalmente diferente de nós, mas igualmente complicado. Não há quem guente! Se lidar com a nossa própria complexidade já é bem difícil, imagina lidar com a complexidade alheia... A cabeça dá um nó! E é por esse motivo que, quando o Zack Magiezi, o poeta, nos aconselha a tentarmos ser singular antes de queremos ser plural, ele tem toda razão.

Mencionei ali em cima que o ghosting é uma atitude 1) covarde e 2) absurdamente egoísta. Pois é. E, além disso, o considero fruto de uma tremenda preguiça. Numa era em que se dispensa pessoas simplesmente deslizando o dedo indicador para a esquerda, conversar pessoalmente para colocar os pingos nos is chega a parecer uma atitude medieval. Não é, obviamente. Mas a gente, por querer evitar o trabalho (e as eventuais dores de cabeça) de uma conversa franca, optamos por "deixar pra lá". Funciona assim: nós imaginamos que, dando o tratamento de silêncio, a outra pessoa entenda, pelas entrelinhas, que não estamos mais a fim. O problema é que, sem uma conversa que coloque ponto final na coisa, existe sempre a possibilidade de o fantasma voltar à vida... Daí aquela sensação de relação inacabada que tanto nos persegue.

Eu acho, sim, que a modernidade e as consequentes relações digitais tem, claro, a sua parcela de culpa no aumento do número dos sumiços. É muito mais fácil descartar e ignorar uma pessoa pela internet. Basta, simplesmente, minimizar a conversa e fingir que aquela mensagem nunca chegou. Só que esse não é um comportamento exclusivo da era digital: antigamente, era comum que as pessoas esperassem por ligações e cartas que nunca vinham. Entendem? Os anos mudaram; nosso comportamento, não.

Vamos ser sinceros: a gente é egoísta pra caralho! Nós fazemos o que é melhor pra nós, esquecendo que, do outro lado, também existe uma pessoa. E é essa falta de preocupação com o outro que me assusta! Como bem disse uma amiga: a gente anda confundindo não ter compromisso com não ter responsabilidade para com o sentimento alheio. É a famigerada "falta de empatia" que a gente tanto lê e ouve por aí: pois sim, ela é real!

Queridos, as notificações não me deixam mentir: nesse exato momento, estou ignorando pessoas e sendo ignorado por outras tantas. É bem provável que alguns de vocês também estejam passando por isso. Esse ciclo, pelo menos na minha vida, é bastante recorrente, e me preocupa que possa ser eterno. A gente se acostuma a ver uma mensagem ali e não fazer nada a respeito. Aí, quando percebemos, as pessoas também não estão nos respondendo e a gente passa a achar normal.

Vou lhes dizer uma coisa: acostumar-se com esse silêncio, com esse ghosting, é uma das piores coisas que a gente pode fazer! É automutilação do pior tipo! Entendam: cada palavra não dita por nós, é um soco no estômago do outro. As palavras que não nos dizem, batem tão firme quanto. E dói: podem acreditar que dói.


Fabricio Garcia

gostaria de pensar que estão aqui me lendo porque se identificaram de alguma forma com o que escrevo. o problema é que eu sou tão de humanas que não sirvo nem pra contar vantagem. e-mail: [email protected]
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