Bruno Colli

Pesquisador de cultura cinematográfica e co-criador do site Segundo Plano

O Cinema de Jean-Luc Godard

Conhecido como um dos maiores expoentes do cinema francês, Jean-Luc Godard é um dos primeiros nomes mencionados em qualquer discussão sobre filmes autorais e filosofia no cinema. Um dos nomes mais importantes da Nouvelle Vague, Godard tornou-se referência para incontáveis diretores, das mais diferentes gerações e nacionalidades, e uma referência absoluta para o cinema contemporâneo de qualquer categoria.


Agradecimentos especiais a Pietro Milan, do site Segundo Plano

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Nascido no dia 3 de dezembro, de 1930, em Paris, e filho de um rico casal descendente de franco-suíços, Jean-Luc Godard poderia ter tomado um rumo bem diferente em sua vida no ano de 1949, quando matriculou-se no curso de Antropologia na Universidade de Paris. Porém, nem mesmo chegou a frequentar a aula. Ao invés disso, ele preferiu frequentar os cineclubes de Paris, que aumentavam a cada dia, e foi em um deles que conheceu um de seus maiores mentores, André Bazin, assim como aqueles que se tornariam seus contemporâneos, como Claude Chabrol, François Truffaut, Jacques Rozier e Jacques Demy.

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Assim como os novos cineastas de sua geração, Godard criticava a tradição de qualidade do cinema francês da época, que vangloriava diretores de carreiras estabelecidas enquanto desvalorizava os novos, apoiando-se somente em técnicas pré-estabelecidas e obras do passado ao invés da inovação e do experimentalismo. Disposto a desafiar essas tradições, Godard decidiu se tornar um crítico de cinema. Foi quando ele, ao lado de Éric Rohmer e Jacques Rivette, fundou o Gazette du cinéma, publicação que durou apenas cinco números. Quando Bazin fundou a revista Cahiers du cinéma, os três futuros cineastas tornaram-se alguns de seus primeiros críticos. Nesse meio tempo, Godard também trabalhou como construtor, e foi durante esse período em que ele dirigiu seu primeiro documentário, Opération Béton, completado em 1955. Godard abandonou o trabalho para continuar como crítico na Cahiers, cuja fama aumentava cada vez mais e indicava o rumo tomado por vários de seus críticos ao se tornarem cineastas bem sucedidos.

godardkarina11[1].jpg Anna Karina e Jean-Luc Godard

Enquanto trabalhava para a Cahiers, Godard dirigiu três outros curtas: Uma Mulher Faceira) (Une femme coquette, 1955), Todos os rapazes se chamam Patrick (Charlotte e Véronique) (Todos os rapazes se chamam Patrick [Charlotte e Véronique]1957) e Uma História de Água (Une histoire d'eu, 1958, co-dirigido com François Truffaut). Godard deixou a publicação para dedicar-se inteiramente ao cinema, e em 1959, conseguiu dirigir seu primeiro curta profissional, Charlotte et son Jules, homenagem a uma de suas influências, Jean Cocteau, estrelando Jean-Paul Belmondo, na época longe de ser uma das maiores estrelas do cinema francês. Belmondo, ao lado da jovem atriz americana Jean Seberg, também estrelou o primeiro longa metragem de Godard, Acossado (À bout de souffle). Feito com um orçamento baixíssimo, o filme demonstrou ser um dos mais rentáveis de sua época, levando aproximadamente duas milhões de pessoas ao cinema e tornando o nome de Godard reconhecido no país.

about[1].jpg Acossado

Embora Acossado, co-escrito por Truffaut e com Claude Chabrol como conselheiro técnico, utilizasse diversos elementos tradicionais do cinema - mesmo o do americano -, apresentou técnicas cinematográficas nunca vistas anteriormente, com seu uso criativo de jump cuts e na continuidade da montagem. Durante a produção do filme, Godard demonstrou que nunca segue roteiros padronizados, preferindo que os atores improvisem suas ações ao invés de seguirem exatamente o que está escrito. Essa característica tornou-se uma de suas marcas registradas; como o próprio disse em certa ocasião, é grotesco que os atores façam tudo o que lhes mandem sem liberdade alguma. Por isso, praticamente todas as cenas foram improvisadas, incluindo seu famoso final.

petitsoldat[1].jpg O Pequeno Soldado

Em 1960, Godard conheceu a atriz dinamarquesa Anna Karina, que estrelou seu filme posterior, O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat). Devido às cenas de tortura e por retratar a Guerra da Argélia, que ainda não havia terminado até então, o filme foi banido pelo governo francês e só foi lançado em 1963, quatro anos após sua produção. Godard casou-se com Karina em 1961, e colaborou novamente com ela em seu próximo filme, Uma Mulher é Uma Mulher (Une femme est une femme), um ode feminista e homenagem aos clássicos musicais americanos, possivelmente um de seus filmes mais acessíveis desse período. Uma Mulher é Uma Mulher, que também marcou a segunda colaboração do cineasta com Jean-Paul Belmondo, mesclou suas referências e a própria originalidade do cineasta ao inovar no cinema. Não pelo tema, que já havia sido utilizado algumas vezes, mas pelas técnicas que até então eram impossíveis. A utilização criativa do CinemaScope, cores gravadas ao vivo sem a necessidade de passarem pelo processo de colorização, canais de som na mesma faixa de vídeo.

unefemme[1].jpg Uma Mulher é Uma Mulher

O filme também é um bom demonstrativo de como referências a outras obras são completamente distintas do charlatanismo cinematográfico que se apropria da obra alheia ao invés de reinventar. Godard sempre teve muitas influências de mestres do passado, e também de contemporâneos, como Kenji Mizoguchi, Ingmar Bergman, Roberto Rossellini, Satyajit Ray, Jean Vigo, Robert Bresson, Orson Welles, Marcel Carné, Jean Cocteau, Carl Th. Dreyer, F.W. Murnau, D. W. Griffith, entre outros. E ainda assim, sempre conseguiu fazer suas próprias obras, de conceitos originais e que influenciaram tantos outros cineastas, mesmo aqueles que iniciaram na mesma época ou até mesmo antes dele.

vivresavie[1].jpg Viver a Vida

Foi no filme seguinte, Viver a Vida (Vivre sa Vie), que Godard atingiu um novo êxito cinematográfico pouco visto anteriormente, apresentando a protagonista Nana (novamente interpretada por Anna Karina), e através dela, fazendo um estudo sobre a prostituição contemporânea. A estética documental a la Cinéma vérité do filme é um contraste ao fato do mesmo ser dividido em doze capítulos, como em um livro, ao mesmo tempo em que evoca as obras literárias de Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, e também o cinema de Robert Bresson e Kenji Mizoguchi, esse último em especial uma grande influência do filme através de sua última obra, Ruas da Vergonha (Akasen chitai), também sobre prostituição. Através da curta vida de Nana, Viver a Vida apresenta diversos efeitos propositais de alienação no cinema e o V-effekt, também conhecido como efeito V, elaboração artística do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht. Os intertítulos entre os capítulos, que apresentam um breve resumo sobre o que acontecerá a seguir, os personagens filmados pelas costas ou falando diretamente para a câmera, são claros exemplos da utilização dessa técnica no cinema.

vivresavie2[1].jpg Viver a Vida

Viver a Vida também retratou a cultura consumista da Paris de Godard, lotada de cinemas, pôsteres, pinups, fotógrafos e lojas de discos, como em um novo mundo, e referenciou diretamente três obras distintas: Nana assiste ao clássico A Paixão de Joana D'arc (La Passion de Jeanne d'Arc), de Carl Th. Dreyer, e se emociona em uma das cenas mais famosas do filme; o penteado de Nana é similar ao que a protagonista de Louise Brooks utilizou em A Caixa de Pandora (Pandora's Box), de 1929, que retrata uma temática semelhante à de Viver a Vida; e por fim, personagens do lado de fora de um cinema estão ansiosos para assistir ao filme Jules et Jim, de François Truffaut, que na época ainda não havia sido lançado, mas já havia sido concluído. A filosofia apresentada e discutida em Viver a Vida sobre os limites da linguagem falada e escrita, tal como sua repentina tragédia, são metáforas sutis para a difícil crise de casamento que Godard e Karina atravessavam na época.

carabiniers[1].jpg Tempo de Guerra

Em Tempo de Guerra (Les carabiniers) lançado em 1963, um projeto menor e menos pessoal que seus filmes anteriores, Godard explorou novamente o tema da guerra através de dois homens de condições sociais baixas, convocados para servir em batalha. Gravado na periferia de Paris, quase sem nenhum orçamento e somente com atores desconhecidos, Carabiniers nos remete a uma versão mais sarcástica e cínica do neorrealismo italiano, em especial às obras de Roberto Rossellini, um dos diretores preferidos de Godard, e com quem colaborou posteriormente na antologia RoGoPaG, lançada no mesmo ano, que também contou com segmentos de Pier Paolo Pasolini e Ugo Gregoretti. Mas foi no mesmo ano em que Godard, um dos cineastas mais prolíferos dessa época, dirigiu uma de suas maiores obras primas: O Desprezo (Le Mépris).

mepris1[1].jpg O Desprezo

O que deveria ser uma adaptação do livro Il disprezzo, de Alberto Moravia, o projeto tomou proporções muito maiores nessa adaptação de Godard. Produzida por Carlo Ponti, O Desprezo foi o filme mais caro já realizado por Godard na época. Ele queria os consagrados atores Kim Novak e Frank Sinatra como os protagonistas, mas ambos recusaram por outros compromissos. Ponti sugeriu Sophia Loren e Marcello Mastroianni como substitutos, mas Godard não gostou da ideia. Por fim, foi decidido de que Brigitte Bardot, maior ícone feminino da França na época, e o ator Michel Piccoli, que na época havia estrelado poucos filmes, seriam os protagonistas. Além de Bardot e Piccoli, o filme contou com a presença marcante do respeitadíssimo cineasta Fritz Lang, interpretando a si mesmo, e do próprio Godard, como um assistente de direção.

mepris2[1].jpg O Desprezo

O Desprezo, que foi gravado e se passa inteiramente na Itália, narra a produção problemática de um filme, uma adaptação da Odisséia de Homero, e ao mesmo tempo em que critica veementemente a alienação do público e os produtores que só visam o lucro comercial da obra ao invés de seus méritos artísticos, também é uma grande homenagem à Anna Karina, tal como um pedido de desculpas após a forma em que ela foi retratada em Vivre sa Vie. Camille, personagem de Bardot, chega a utilizar uma peruca que a deixa muito parecida com Nana, protagonista do filme mencionado, para que a referência fique ainda mais clara. É interessante observar que Godard inverteu os papeis do masculino e do feminino tão tradicionais e clichês no cinema, com Camille sendo a personagem fria e durona, e Paul, personagem de Piccoli, o homem sensível. Com O Desprezo, Godard utilizou o orçamento de uma superprodução para dirigir uma obra pessoal e autoral, subvertendo novamente conceitos padronizados do cinema.

godardtruffaut[1].jpg Jean-Luc Godard e François Truffaut; em 1973, ambos tiveram conflitos por suas visões cinematográficas distintas e nunca mais se falaram

Entre os anos de 1964 e 1967, Godard dirigiu nove filmes, alguns dos mais importantes da sua carreira, como Alphaville, estrelando Eddie Constantine no papel que o havia consagrado, o detetive francês Lemmy Caution, e Anna Karina como a programadora Natacha Von Braun, em uma alegoria político-futurista, influenciada por Jean Cocteau e pela poesia de Jorge Luis Borges, e com um dos antagonistas mais memoráveis da história do cinema, o computador ALPHA 60, ditador e perverso, que possui controle da cidade inteira, muito mais perturbador e genial do que qualquer HAL 9000. Alphaville foi o único filme estrelando o famoso personagem, e também o mais distinto e aclamado de todos eles, demonstrando a versatilidade do diretor ao explorar novos gêneros, além de ser um grande exercício técnico de som e imagem, além de possuir uma forte crítica ao espectador do cinema. Segundo Godard, nos primeiros filmes com som as pessoas ficavam encantadas com poder ver, e posteriormente, ouvir o som também. Depois as pessoas passaram a cobrar que as palavras fossem ditas com muita precisão, senão o filme era ruim, o roteiro era ruim. O que para Godard era um absurdo; o cinema tem imagem e som, não necessariamente palavras.

alphaville[1].jpg Alphaville

Outros filmes importantes dessa época são Banda à parte (Bande à part, 1964), novamente com Anna Karina como protagonista - desta vez uma jovem que se envolve com dois rapazes que planejam um grande assalto -, possivelmente um de seus filmes mais famosos, e que foi descrito pelo próprio cineasta como "Alice no País das Maravilhas encontra Franz Kafka"; Uma Mulher Casada (Une femme mariée, 1964), estruturado a partir do conceito de Karl Marx sobre o fetichismo da mercadoria e que relata, aos poucos, o fim do amor entre um casal; O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, 1965), estrelando novamente Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, que através de ter sido baseado em um livro, foi dirigido sem um roteiro concreto, traz um grande protesto contra a Guerra do Vietnã e pode ser considerado a completa antítese de Acossado, seu primeiro filme; Masculino Feminino (Masculin féminin, 1966), estrelando Jean Pierre Léaud e a cantora Chantal Goya, um dos filmes mais políticos dessa fase, explorando diversas narrativas técnicas não lineares enquanto referencia ícones da cultura pop e figuras políticas da época, de André Malraux a James Bond, passando por Bob Dylan e LeRoi Jones, e descrito em um dos intertítulos do próprio filme como "esse filme pode ser considerado o filho de Marx com a Coca Cola"; e Made in U.S.A (1966), feito para ajudar o produtor Georges de Beauregard após o filme A Religiosa (La religieuse), dirigido por Rivette e produzido pelo mesmo, ter sido censurado, uma irreverente provocação ao cinema norte americano estrelando Anna Karina como Paula Nelson, uma detetive durona similar aos detetives interpretados por Humprey Bogart, mais uma inversão de papeis tradicionais de gênero feita por Godard, e que também conta com a presença da cantora Marianne Faithfull.

lachinoise[1].jpg A Chinesa

Durante o término término de sua fase mais conhecida, Godard dirigiu três filmes: Duas ou Três Coisas Que eu Sei Sobre Ela (2 ou 3 choses que je sais d'elle, 1967), filmado ao mesmo tempo que Made in U.S.A., um afastamento do tradicionalismo do cinema para introduzir temas radicais, tanto em estilo quanto em sociologia, onde o pronome "ela" do título faz referência à cidade Paris; A Chinesa (La Chinoise, 1967), levemente inspirado em Os Demônios, de Dostoiévsky, estrelando Jean-Pierre Léaud como um jovem revolucionário, abordando temas como a Nova Esquerda, o Maoísmo e o legado de Lênin; e Weekend à Francesa (Week-End, 1967), comédia repleta de humor negro e que utiliza bastante sangue, deliberadamente parecendo falso para lembrar os espectadores de que é apenas tinta vermelha, desafiando novamente os conceitos de narrativa ao quebrar a barreira entre cinema e realidade. Foi também em 1967 que Godard separou-se de Anna Karina e casou-se com a atriz Anne Wiazemsky, que tornou-se conhecida ao protagonizar o clássico A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar), de Robert Bresson. Esta união durou até 1979.

oneplusone[1].jpg One Plus One

A partir de 1968, os filmes de Jean-Luc Godard se tornaram ainda mais políticos e pouco acessíveis, como é o caso de A Gaia Ciência (Le Gai savoir), cujo título faz referência à obra homônima de Nietzsche, iniciado antes da crise de maio de 1968 na França e completado pouco após seu término, mas banido pelo governo francês por muitos anos devido à temática que explorava temas recentes e controversos demais para a época. A influência dos eventos ocorridos em maio continuou a influenciar diretamente esta fase do cinema de Godard: Um Filme Como os Outros (Un film comme les autres), realizado ainda no mesmo ano, é uma reflexão destes ocorridos, através de cenas de protestos e conversas com estudantes e trabalhadores. Um Filme Como os Outros também pode ser considerado o primeiro filme do Grupo Dziga Vertov, fundado por Godard e Jean-Pierre Gorin; influenciado pelo cineasta homônimo, o coletivo tinha como objetivo realizar obras fundamentalmente políticas, definidas por normas brechtianas (grande influência de Godard) e ideologia marxista. Ainda em 1968, One Plus One, mesclando documentário e ficção, relata, através de longos takes dos Rolling Stones gravando em estúdio e do caos de 1968, referências aos assassinatos de John F. Kennedy e Robert F. Kennedy, o movimento dos Panteras Negras, o crescente mercado dos quadrinhos norteamericanos, cada vez mais refletindo uma sociedade alienada e hipócrita, e finalmente, longas narrativas sobre o Marxismo e a necessidade de uma revolução.

pravda.jpg Pravda

No período entre 1968 e 1972, o Grupo Dziga Vertov realizou nove filmes, todos eles explorando a importância de uma reforma política e os conflitos entre classes. Dirigido no Reino Unido, British Sounds que sucede Um Filme Como os Outros, remete às revoltas camponesas na Inglaterra ao mesmo tempo em que questiona a luta da classe trabalhadora sessentista britânica. Pravda, de 1969, filmado clandestinamente na Tchecoslováquia, denuncia os eventos da Primavera de Praga em 1968 através de um senso de humor irônico e amargo, além de apresentar um debate entre capitalismo e socialismo, e o que é realmente é o comunismo. O filme também conta com aparições da cineasta Vera Chtyilová, grande expoente da Nova Onda Tchecoslovaca que faleceu em 2014. Vento do Leste (Le Vent d'est), realizado no mesmo ano, encerra a década de 1960 com uma desconstrução do conceito hollywoodiano burguês de se fazer cinema através de um de seus gêneros mais conhecidos: o western.

vladimir.jpg Vladimir e Rosa

O início da década de 1970 ocorreu de forma conturbada: dois projetos do Grupo Dziga Vertov foram cancelados por diversas razões. O primeiro, Um Filme Americano (One American Movie), havia sido rodado nos Estados Unidos em 1968, mas se concretizou somente em 1972, não mais pelas mãos de Godard, mas sim de D.A. Pennebaker, renomado documentarista americano que co-dirigiu a fotografia do filme e o renomeou como One p.m.. O segundo, À Vitória (Jusqu'à la victoire), filme pró-Palestina e anti-sionismo, terminou em tragédia: diversos dos membros da Organização para a Libertação da Palestina entrevistados para o filme foram assassinados pouco após o início das filmagens. Contudo, Lutas Ideológicas na Itália (Lotte in Italia/Luttes en Italie), realizado em 1969 e lançado em 1970, obteve grande êxito; encomendado pelo canal italiano de TV RAI, o filme apresenta a jovem militante Paola Taviani (interpretada por Cristiana Tullio Altan), nome inspirado no cineasta homônimo, sua vida cotidiana e seu envolvimento com um grupo militante. Já Vladimir et Rosa, realizado no ano seguinte, recria, através de um humor ácido, amargo e irônico, o julgamento dos Oito de Chicago - oito ativistas políticos que foram indiciados, torturados e espancados durante protestos na Convenção do Partido Democrata em 1968. Os nomes de Vladimir Lenin e Rosa Luxemburgo já haviam batizado os narradores de Pravda; desta vez, os "personagens" são usados como os protagonistas ideais para ilustrar a falsa democracia norteamericana.

tout.jpg Tudo Vai Bem

Realizado em 1972, o semi-autorreferencial Tudo Vai Bem (Tout va bien) narra a vida de um ex-cineasta da nouvelle vague e sua esposa americana, interpretada por Jane Fonda, e o envolvimento do casal no sequestro do diretor de uma fábrica em greve. Jane Fonda também estrela, de certa forma, Carta Para Jane (Letter to Jane: an investigation about a still), que realiza um ensaio cinemático cujo intuito é o de analisar, didaticamente, uma foto de Fonda no Vietnã, publicada pelo jornal L'Express naquele mesmo ano. Ambos os filmes se complementam, marcando o fim do Grupo Dziga Vertov e também o término desta fase do cinema de Godard.

ici.jpg Aqui e Acolá

Ainda em 1972, Godard conheceu a cineasta Anna-Marie Miélville, e com ela fundou a produtora SonImage; nesta nova fase do cinema de Godard, Miéville torna-se sua principal colaboradora. Este período é marcado por trabalhos em vídeo, documentários experimentais e projetos inovadores. O primeiro filme desta parceria, Aqui e Acolá (Ici et ailleurs), finalizado em 1974 mas lançado somente em 1976, é, na verdade, a concretização de À Vitória, cancelado em 1970; aqui, Godard explora a luta dos palestinos pela independência de Israel e pela própria vida. Narrado pelo próprio Godard e por Miéville, trata-se de um relato honesto e cruel dos guerrilheiros, que já previam a própria morte. O ápice do experimentalismo cinematográfico deste período é apresentado em Número Dois (Numéro Deux), primeiro filme inteiramente realizado pela dupla; tal como o título insinua, a dualidade se faz presente através do cinema e do vídeo, do som e da imagem, do moderno e do pós-moderno. Imagens justapostas apresentadas num apartamento minúsculo apresentam temas que seriam explorados posteriormente em outras obras do cineasta franco-suíço, como a incomunicabilidade e o isolamento. Já Como Vai Você? (Comment ça va?), de 1975, possui uma abordagem mais pedagógica, mais uma vez trazendo como protagonista um jornalista militante que confronta a censura através de seu periódico comunista.

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Além das obras experimentais, a dupla realizou documentários inovadores, como Seis Vezes Dois: Sobre e Sob a Comunicação (Six fois deux: Sur et sous la communication), encomendado pelo Instituto Nacional do Audivisual da França e pelo canal de TV FR3 em 1976, dividido em seis capítulos de duas partes cada, uma contendo um ensaio crítico sobre os mais diversos assuntos, e outra com entrevistas com pessoas comuns sobre o assunto retratado; e France/tour/détour/deux/enfants produzido pelo canal Antenne 2 em 1978, documentário dividido em doze partes, feito para e sobre a televisão, envolvendo entrevistas com as crianças da época e suas visões sobre o mundo contemporâneo. Anna-Marie e Godard se casaram em 1980, embora não oficialmente, e permaneceram juntos até 1994; o término da relação não afetou a parceria de ambos, que dura até os dias atuais.

lavie[1].jpg Salve-se Quem Puder (A Vida)

Jean-Luc Godard retornou aos filmes convencionais nos anos 80. Convencionais no sentido de serem o que mais se podem chamar de filmes de ficção tradicionais quando se trata de Godard, que criou seu próprio gênero cinematográfico, ou melhor, seus próprios cinco ou seis gêneros. Mesmo que sejam mais acessíveis do que seus filmes dos anos 70, a década de 80 marcou alguns dos trabalhos mais controversos de sua filmografia. O lançamento de Salve-se Quem Puder (A Vida) (Sauve Qui Peut - La Vie), em 1980, estrelando Isabelle Huppert como a protagonista Isabelle Rivière, marcou essa nova fase, ainda mais autobiográfica e pessoal que os de sua fase nouvelle vague. Godard explorou novamente alguns temas recorrentes em seus filmes, como a falta de narrativa convencional, o eterno autoquestionamento ("o que significa, para mim, fazer um filme?"), a prostituição e a autodepreciação (o co-protagonista, interpretado por Jacques Dutronc, se chama Paul Godard e é um cineasta fracassado, de imagem negativa na mídia). Uma versão deste filme, Salve a Vida (Quem Puder) (Sauve la vie [Qui Peut]), que inclui trechos dos filmes O Homem de Mármore (Czlowiek z marmuru, de Andrzej Wajda, 1977), A Linha Geral (Staroye i novoye, de Sergei Eisenstein e Gregory Alexandrov, 1972), A Terra Treme (La Terra Trema, de Luchino Visconti, 1948) e O Enrascado (Cops!, de Edward Cline e Buster Keaton, 1922), tornou-se raridade por ter sido exibida somente uma vez, no Festival de Rotterdam em 1981, ganhando uma versão restaurada somente duas décadas mais tarde, após extensa pesquisa do professor de Cinema Michael Witt.

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Passion, de 1982 e novamente estrelando Huppert, é uma visão dos bastidores de um filme, mais precisamente uma suposta obra sobre mestres de arte e pintura dirigida por Jerzy (interpretado por Jerzy Radziwilowicz, famoso por seus papeis em O Homem de Mármore e O Homem de Ferro, ambos de Andrzej Wajda). Deliberadamente sem roteiro definido, Passion apresenta uma premissa interessante, destacando-se por sua fotografia belíssima e por sua filosofia (como a de que o cinema não possui regras, exemplificada na frase do personagem interpretado por Michael Piccoli: "O cinema não tem regras, por isso as pessoas o amam ainda").

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O filme seguinte, Prénom: Carmen (traduzido no Brasil como Carmen de Godard), de 1984, foi levemente inspirado pela famosa ópera homônima de Bizet, mas apresentou uma obra completamente diferente, e como já era de se esperar, mais da metade do que foi feito filme não constava no roteiro. O próprio Godard faz uma aparição no filme, em uma participação narcisista e ao mesmo tempo masoquista, onde ele interpreta um personagem decadente, dentro da pior situação possível, em um asilo e esquecido por todos. Essas características se assemelham ao tipo de personagem que Godard acabou encarnando mais vezes; uma mistura do típico bobo Shakespeariano com o idiota Dostoiévskiano, o personagem que parece louco, mas que entende mais da vida que qualquer um outro. Prénom: Carmen é um de seus filmes mais sinceros, metafóricos e eróticos.

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Je Vous Salue, Marie, de 1985, causou mais controvérsia de que qualquer um de seus filmes lançados até o momento. O intuito do filme é o de retratar uma visão moderna de Marie (Myriem Roussel), uma jovem que trabalha num posto de gasolina, joga basquete no time do colégio, e namora um taxista chamado Joseph (Thierry Rode). Marie é virgem, portanto quando descobre que está grávida, Joseph a acusar de ter sido infiel, mas na verdade ela está grávida de Jesus. O filme introduz também a história de Eva, estudante colegial que tem um affair com seu professor de ciências. O filme causou muitos protestos de grupos religiosos e chegou a ser banido no Brasil, parcialmente graças aos protestos infames e falso-moralistas de Roberto Carlos (que, segundo ele mesmo, nem sequer havia assistido o filme e nem assistiria), atitude essa reprimida por outros artistas brasileiros, como Caetano Veloso, que chegou a escrever um texto ridicularizando a situação e lembrando o país de que a ditadura já havia acabado, e portanto, a censura contra a arte não deveria acontecer. Durante o festival de Cannes, um fanático religioso atirou uma torta no rosto de Godard, como forma de protesto contra o filme, cuja única suposta heresia é a de demonstrar o corpo nu de Marie em diversas ocasiões.

grandieur.jpg Grandeza e Decadência de um Pequeno Negócio de Cinema

Détective (1985), primeira parceria com Jean-Pierre Léaud em muitos anos, é um pseudo-retorno à época da nouvelle vague, valendo-se mais como nostalgia e homenagem do que uma prática do estilo do movimento, com um Leáud muito similar ao personagem Antoine Doinel, que interpretou por muitos anos nos filmes de François Truffaut (que havia falecido no ano anterior). Ainda em 1985, Grandeza e Decadência de um Pequeno Negócio de Cinema (Grandeur et décadence d'un petit commerce de cinéma révélées par la recherche des acteurs dans un film de télévision publique d’après un vieux roman de J.H.), feito para a série televisiva Serie Noire, do canal francês TF1, também com a presença de Leáud no elenco, é uma reflexão surpreendente e sincera sobre o meio cinematográfico - não à toa, os nomes de seus protagonistas são Gaspard Bazin e Jean Almereyda, referências diretas a André Bazin e Jean Vigo, grandes influências de Godard -, os problemas enfrentados para a realização de um filme, o amor pelo cinema e a doce melancolia de ser um cineasta. Não à toa, nomes são mencionados o tempo inteiro - de Romy Schneider a Roman Polanski - e o próprio Godard faz uma pequena participação, interpretando a si mesmo, num dos pontos cruciais do filme, que também homenageia, de forma bastante peculiar e inesperada, o ator norteamericano James Dean.

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Em 1987 Godard surpreendeu com o curioso (e bizarro) Rei Lear (King Lear), supostamente baseado na obra de Shakespeare, estrelando Peter Sellars como William Shakespeare Jr. the Fifth, descendente de Shakespeare responsável pela restauração de suas obras, e também conta com a participação de outros diretores, como Leos Carax e Woody Allen, além do próprio Godard como o professor excêntrico Pluggy. Ainda em 1987, o cineasta dirigiu Atenção à Direita (Soigne ta droite), cujo título é uma referência imediata ao primeiro filme de Jacques Tati (Atenção à Esquerda, ou Soigne ton gauche em francês). Ambos são termos utilizados no boxe. Soigne também não segue um roteiro convencional, é formado por diversas sketches e mistura diversos gêneros em um único filme. O curta metragem Potência da Palavra (Puissance de la parole), encomendado por uma companhia telefônica, é levemente baseado em duas obras distintas: o romance O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Ring Twice, 1936), de James Cain, e o conto O Poder das Palavras (The Power of Words), de Edgar Allan Poe, mas sem deixar de lado a visão única do cineasta. Já O Relatório Darty (Le Rapport Darty), tão raro quanto interessante, encomendado pela franquia de lojas homônima, acabou por ser rejeitado pela mesma - compreensível, considerando que Godard transformou um média-metragem promocional num ensaio contra o consumismo desenfreado, narrado por um "robô" interpretado pelo próprio diretor.

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Foi em 1990 que Godard apresentou uma de suas mais interessantes obras desde o início de sua carreira: Alemanha Ano 90 (Allemagne 90 neuf zéro), cujo título é uma referência ao clássico do neorrealismo italiano Alemanha Ano Zero (Germania Anno Zero), de Roberto Rossellini. Estrelando novamente Eddie Constantine, em um de seus últimos papeis, como Lemmy Caution, esse amargo e filosófico filme retrata a Alemanha após a queda do muro de Berlim, através de paisagens e cenários do país, explorando alguns dos momentos e personagens mais ricos de sua história. A melancolia de Alemanha Ano 90 é inevitável, considerando a retratação de um povo que sempre será culpado pela barbaridade do nazismo e que continuou sofrendo mesmo após a queda de Adolf Hitler. Lemmy não é mais o detetive de outrora, e sim um aposentado, um visitante, que dessa vez pode ser considerado o alter ego do próprio Godard ao presenciar tamanha beleza e tristeza, unidas num único país.

sarajevo.jpg Eu Vos Saúdo, Sarajevo

Outros projetos de Jean-Luc Godard após Alemanha Ano 90 incluem Nouvelle Vague (1990), irônico exercício de estilo remetente ao movimento cinematográfico que ajudou a criar, estrelando Alain Delon; As Crianças Brincam de Russo (Les enfants jouent à la Russie, 1993), encomendado pela Cecco Films e parte de uma antologia de cinco diretores de nacionalidades distintas (o próprio Godard, Werner Herzog, Lina Wertmuller, Ken Russell e Nobuhiko Ohbayashi), um belo retrato que examina e analisa a Rússia após a queda da União Soviética, seus autores e cineastas mais famosos, sua importância para a literatura e para a arte como um todo; seguido de Infelizmente Para Mim (Hélas pour moi, 1993), primeira parceria entre o cineasta e o ator Gerard Depardieu, baseado na lenda grega de Alcmena e Anfitrião, que aborda novamente os mitos religiosos transportados aos tempos contemporâneos - mais precisamente, a reencarnação de Deus em um mecânico no interior da Suíça. Ao término de 1993, Godard realizou o poderoso curta-metragem Eu Vos Saúdo, Sarajevo (Je vous salue, Sarajevo), que, em somente dois minutos, consegue, ao mesmo tempo, mesclar poesia, cinema e denúncia contra os atos brutais na Bósnia durante a Guerra da Iugoslávia.

jlgjlg.jpg JLG/JLG

A partir de 1994, o cineasta realiza uma série de filmes conceituais, sobre si mesmo e, principalmente, sobre o cinema. JLG/JLG - Autorretrato de Dezembro (JLG/JLG. Autoportrait de décembre, 1994), incrível documentário estrelado e narrado pelo próprio Godard, sua vida atual, suas obras e planos para o futuro; Duas Vezes Cinquenta Anos de Cinema Francês (Deux fois cinquante ans de cinema français), patrocinado pela BBC, uma autorreflexão sobre o cinema francês do passado e do presente, ao lado do ator Michel Piccoli, com quem trabalhou em O Desprezo e Passion; Para Sempre Mozart (For Ever Mozart, 1996), seu último longa-metragem dos anos 1990, parte de Histoire(s) du cinéma, inspirado na guerra da Iugoslávia, onde o filme estreou primeiro, no qual Godard sai do clichê de explorar a própria obscenidade da guerra, e como aprendeu com Bazin, confia cegamente no método bressoniano, das explosões, dos ruídos deixando o que seria explícito pra imaginação do espectador; por fim, o próprio História(s) do Cinema (Histoire(s) du cinéma, iniciado em 1988 e concluído em 1998), importantíssimo documentário dividido em diversas partes que examina a história e os conceitos do cinema, e como isso pode ser imediatamente relacionado ao século XX.

notremusique.jpg Nossa Música

No início dos anos 2000, Godard apresenta Da Origem do Século XXI (De l’origine du XXIe siècle), comissionado para o Festival de Cannes de 2000, uma reflexão do século passado em meio a cenas de outros filmes e de atrocidades cometidas neste período. Uma preparação para o futuro, para que nunca se repita o passado. Em seu primeiro longa-metragem no novo século, Elogio ao Amor (Éloge de l'amour, 2001), Godard ilustra seu próprio aforismo: "um filme deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem", obra carregada de conteúdo antiguerra (e antiamericanista) que se divide em duas metades: a primeira, filmada em preto e branco, e a segunda, colorida. Mais um longa é produzido em 2004, Nossa Música (Notre musique), uma belíssima reflexão dividida em três partes, no qual os segmentos têm seus títulos inspirados n'A Divina Comédia de Dante Alighieri (Paraíso, Inferno e Purgatório) sobre a violência, moralidade, representação de violência no cinema. Apesar de ter realizado somente dois longas neste período, o cineasta não permaneceu inativo: dirigiu diversos curtas e realizou trabalhos em vídeo em frequência anual. Entre eles, está o magnífico Na Escuridão do Tempo (Dans le noir du temps), reflexivo curta-metragem sobre o início e o fim do tempo, da vida, do silêncio, do medo e do próprio cinema em si, parte da antologia Dez Minutos Mais Velho (Ten Minutes Older).

langage8[1].jpg Adeus à Linguagem

A segunda década do terceiro milênio se inicia com uma homenagem ao cineasta Éric Rohmer, tributo exibido no Festival de Cannes em 2010, ano de falecimento do diretor e amigo pessoal; o curta precede Film Socialisme, de 2010, seu primeiro filme gravado em alta definição e também dividido em três partes, no qual o primeiro segmento conta com uma participação da cantora Patti Smith e se passa no cruzeiro Costa Concordia, que afundou dois anos após a realização do filme. Mas é com Adeus à Linguagem (Adieu au langage, 2014), seu primeiro filme em 3D, que o cineasta demonstra sua genialidade ao desconstruir e reinventar o cinema tal como o público o conhece. E para isso, precisou somente de imagens e um cão, o cão de Godard, cujo personagem é responsável pela narração do filme.

godard3[1].jpg

Seu trabalho autoral, filosófico, experimental e muitas vezes autorreferencial pode afastar espectadores que não estão dispostos a reflexões e buscam cinema apenas como entretenimento, ou simplesmente não estão acostumados com seu estilo. No entanto, seus méritos jamais devem ser colocados em dúvida. Qualquer cineasta de respeito da atualidade certamente citará seu nome como influência. Um homem genial que realizou tudo que inúmeros diretores, clássicos e contemporâneos, não foram capazes de fazer no cinema. Vale lembrar que esta matéria não engloba todos os seus trabalhos - mais de cento e trinta, ao todo - e que não é possível categorizá-los em mais importantes ou desimportantes. Além dos longas metragens, JLG realizou inúmeros curtas, trabalhos em vídeo, comerciais para a TV, participações em antologias de diversos diretores e também atuou e escreveu para filmes de outros cineastas. Poucos diretores chegam aos oitenta e cinco anos tão ativos e capazes de surpreender, e Jean-Luc Godard certamente é um deles.

remerciements.jpg Prêmio Suíço (Agradecimentos), Morto ou Vivo

"Um homem, nada além de um homem, não melhor que nenhum outro, mas, nenhum outro melhor que ele." Retirado de JLG/JLG: Autorretrato de Dezembro

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