camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

A palhaça, a criança e a escola dos campeões

O reencontro com a infância através do universo lúdico da palhaça em paralelo ao embate diário com o boicote. Haja paciência, desconstrução e energia para lidar com as crianças presas em apartamentos. Entre as rasteiradas que permeiam essa desorganização organizacional, o conflito de ser o que se quer ser.


IMG_9261-001.JPG registro de atividade desenvolvida na 5ª edição do Palhaças, Bem Vindas Sois Vós! - estudo prático da comicidade feminina, curso-encontro desenvolvido pela artista Felícia de Castro foto: Felícia de Castro

Desde pequenos somos educados para vencer, em uma relação competitiva e comparativa. Ou seja, vencer alguém, sem criar uma dinâmica de crescimento e ganho coletivo. Desde atividades recreativas nos primeiro anos de escola somos divididos em grupos competitivos, recebemos notas “quantitativas” e somos treinados para o ranking da vida. Classificados e enquadrados. Só esqueceram de uma peça dentro dessa lógica competitiva: teremos poucos ganhadores e muitos perdedores, e provavelmente perderemos algumas vezes e ganharemos outras, mas dificilmente estaremos sempre ganhando. Ninguém nos prepara para a perda. Esse sistema de formação é exclusivo, não inclusivo. O que fazer com uma sociedade de perdedores frustrados se só nos foi ensinado ganhar?

Durante a formação, podam a criatividade da criança e as guiam para um padrão estético, intelectual e social, para cumprir rituais sociais como passar no vestibular, formatura, casar, ter filhos, bom emprego... Mesmo os que cumprem todo o protocolo de “vida feliz” muitas vezes não se sentem realizados.

Existe uma preocupação com a recuperação da ludicidade na infância que tem sido cada vez mais adultizada, mas ignoram a necessidade da continuidade do desenvolvimento criativo na vida adulta, essencial para uma maturidade emocional, social e cultural nas experiências individuais e coletivas.

Aprendemos primeiro a dizer “não” para depois dizer “sim”. O não surge em nosso vocabulário como forma de cuidado, não suba, não morda, não saia, não bata, tornando-se não chore, não corra, não grite, não pode, não pode, não pode. E se antes de negarmos nos perguntássemos, Por que não? A negação inibe, corta, interrompe aquilo que seria um impulso natural. O sim permite, cria, interage, flui. Por que dizemos “não” automaticamente ao invés de nos permitimos experimentar o novo? Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

Conseguimos com facilidade entrar em contato com um estado de tristeza ou nostalgia e nos mantermos nele por um longo tempo - minutos, horas, dias e até anos. Nos apegamos a essas sensações, podendo ir e voltar a elas quantas vezes quisermos. O contrário não é tão comum: Muitas vezes alcançamos o estado de graça, alcançamos a felicidade mas temos grande dificuldade em mantê-las. O cérebro nos boicota e tendemos a racionalizar ou simplesmente nos desconcentramos da felicidade, é fácil algo nos tomar o foco. Insistimos em nos apegar ao passado, projetar o futuro e não paramos no presente.

Ser palhaço é ser presente.

Ser palhaço é estar disponível para o jogo, para a troca, é o sim. A atividade lúdica só se concretiza com o estado de presença, uma disponibilidade física e mental para o agora, permitindo o estado de prazer.

Precisamos voltar ao encontro daquela criança assustada que, ao ser repreendida por um adulto por agir fora de um comportamento socialmente enquadrado chorava. Lhe ensinaram a engolir o choro. A não brigar, mas a competir. A ser educado e correto, mas não necessariamente bom. A esconder sentimentos, a nos conter para sermos aceitos.

Esses mesmos adultos apresentaram o palhaço como alguém inferior, ridicularizado, alguém para rirmos dele, não com ele; mal sabendo que sua principal virtude é rir de si mesmo e se permitir ser motivo de risada. O palhaço tem a sina do perdedor. Se atrapalha, tropeça, recebe “não”, se repete, se esquece e é feliz, é leve, leva o fracasso numa boa e ri. Ri do ridículo que é, que todos somos mas fingimos não ser. Por isso não é visto como herói nem vilão, mas como alguém como nós e isso nos aproxima dele por empatia. Alguém que sofre, chora e ri, se permite rir de si, sem julgamentos.

E como aproximar as nossas crianças ofuscadas e retraídas escondidas dentro de roupas da moda e fotos felizes em redes sociais desse verdadeiro palhaço? Como desconstruir essa formação em busca do padrão e criar uma educação libertadora? Já disse Paulo Freire “Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor” e para que esse sistema se mantenha é necessário mais oprimidos que opressores.

Quantos pobres fazem um rico? A lógica capitalista é extremamente individualista, mas não pensa no indivíduo, não pensa no seu crescimento ou felicidade, apenas em acumulo de bens. E essa lógica permeia nossa criação e formação dentro e para além dos muros das escola. Trabalhamos pela meta e quando alcançamos a meta, dobra-se a meta. A incessante insatisfação, o objetivo inatingível, a escola dos campeões ensina a competir para alcançarmos prêmios de plástico.


CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious //CAMILA RIBEIRO