camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

Como não se apaixonar por Olivia?

Se permitir ser fértil em tempos de crises. Construir uma carreira profissional, engravidar, dividir suas fragilidades e precisar ser forte. As dores, as dúvidas e os prazeres das escolhas pela voz de uma atriz.


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“nos conhecemos no teatro, vivemos no teatro, as vezes me pergunto se poderíamos sobreviver na nossa própria pele.”

Olivia, mulher, 34 anos, italiana residindo na França, atriz do Théâtre Du Soleil, companhia de teatro mundialmente conhecida, vive um relacionamento feliz com Serge, também ator da companhia. O que mais ela poderia almejar na vida? O filme começa com uma singela cena na qual Olivia - de dentro do banheiro - e Serge, encostado do lado de fora da porta, aguardam pelo resultado de um exame de gravidez, de farmácia. Sim, o casal está aguardando um bebê e nós acompanhamos ao longo do filme a trajetória de mudanças do corpo e da vida de Olivia durante a gestação.

Com uma abordagem doce e uma linguagem hibrida, que mescla documentário com ficção, entramos na intimidade e na casa do casal, onde se passa a maior parte do filme, visto que, apesar dos planos de Olívia de trabalhar durante a gestação, principalmente, nesse momento em que a companhia recebe um patrocínio para uma turnê na qual ela seria protagonista, Olívia descobre estar em uma gravidez de risco, precisando se manter em repouso, sendo necessário se afastar de suas atividades profissionais.

A fotografia muito bem decupada, com planos próximos e uma montagem fluída, potencializam a narrativa que te ganha e te envolve na trama real do casal.

O filme mostra uma versão da gravidez nova para as telas, muito condicente com questões que estão efervescentes nos debates atuais. Nada de contos de fadas, nem drama de adolescentes, traições, amores proibidos, incesto, estupro ou qualquer outra trama campeã de audiência. Apenas uma mulher, que, pela necessidade de se afastar do trabalho para proteger a gravidez, se questiona de forma pura e corajosa sobre seus sonhos, seus talentos, sua posição como mulher. Se sente entediada, angustiada, injustiçada, esquecida e se permiti dividir seus anseios com a câmera.

“acreditei, por tanto tempo, ser tão dependente do amor dos outros, que nunca iria me apaixonar”

O filme intercala a imagens atuais da gestação; imagens de arquivo de Olívia, jovem, cheia de irreverencia; imagens dela atuando na companhia, com uma beleza triste e densa da peça de Tchekov; o filme brinca com essas diferentes energias em diálogo com o momento presente e a fala da personagem.

Como mulher, assistir ao filme foi um novo debate com minhas próprias convicções, foi revisitar minhas dúvidas e me emocionar com tantas sensações familiares. As cobranças embutidas pela sociedade em ser mulher, o peso de carregar uma criança sozinha por nove meses, por mais legal e companheiro que seja o pai, as renúncias, os medos, as responsabilidades de quem carrega uma criança dentro de si.

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O corpo muda, os hormônios mudam, e com o tempo, novas consciências do processo aparecem, é um momento de intensas descobertas e sensações que acompanhamos bem de perto no filme.

Refletindo sobre a educação que tive em casa, na escola, ou como amigos e familiares educam as crianças, me pergunto se seria capaz de fazer tudo que acredito que seria o certo para criar uma criança. Conseguiria criar um ambiente de amor e criatividade, sem repressão, sem cortar "asinhas"? O que seria a medida certa entre dar liberdade e indicar um caminho, e será mesmo certo o que penso? Terei paciência? Disponibilidade? Força? Dinheiro? Conhecimento? Saberei lidar com uma nova vida sem me frustar pelas limitações que virão? Deixar de pensar em mim para me tornar responsável pela vida de uma criança? E meu ego, meus sonhos, minha liberdade? E o sistema educacional que limita, oprime e ensina a competição? Como contornar esse modelo de educação que não acredito? Como fazer diferente e conviver com as diferenças? E se tudo que acho maravilhoso e necessário não interessar à criança? E se nada que eu lhe apresentar lhe encher o olhos? E se eu não puder dar o que gostaria? Se não tiver tempo, dinheiro ou disposição? E se me perceber deixando as coisas acontecerem por osmose? Se não me reconhecer e não o(a) reconhecer?

E, se diferente da Olívia e igual a tantas outras mulheres, engravidasse aos dezessete? Ou aos quarenta e cinco? E não ter um companheiro junto? Ou ter um companheiro agressivo e não saber como reagir? E se não quiser engravidar? E todas as mulheres que não sabem o que fazer quando se percebem grávidas e são julgadas e condenadas nessa situação? E as negligenciadas pós aborto em hospitais e pela família?

A gravidez é vista, ou melhor, cobrada como um processo natural na vida das mulheres, como um tópico a ser ticado na lista de obrigações da vida e, ainda assim, tem tantas perguntas sem respostas claras. Tantas questões pessoais e sociais que não podem ir para debaixo do tapete mas muitas vezes vão.

Desde cedo é alimentado um imaginário sobre filhos na cabeça das meninas, quando crescem e optam por não tê-los é sempre questionado, como se tomar a decisão de ter um filho fosse o mesmo que beber água todos os dias, simples e necessário.

Olívia questiona sua idade, sua beleza e jovialidade, se vê diante de uma estrada desconhecida e duvida do caminho que lhe levou até ela. Com toda a poesia e beleza que ela carrega em si, depois de anos nos palcos, ela é convidada a representar ela mesma. O olmo e a Gaivota, filme que leva o mesmo nome da peça de Tchekov, dirigido por Petra Costa e Lea Glob, é um documento necessário em um momento de políticas e manifestações públicas tão invasivas aos direitos humanos.

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CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
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