camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

A crise dentro da crise, ou a fábula dos seres que não se escutam

Devia ter uns dez anos de idade quando meu pai, em uma conversa que não me lembro o contexto, se lamentou que iria morrer sem ver as pessoas conseguirem se comunicar. Aos dez anos, a morte me parecia uma referência intangível e aquela conclusão me foi além de trágica algo que não consegui compreender.


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A frase ficou ressoando em mim mas só anos depois, já me preparando para ingressar na universidade, aquela frase finalmente me comunicou seu sentido e eu entendi sua gravidade. Além de termos essa crise nas relações interpessoais esse problema se expande nas relações sociais, globais ou como queira chamar. O mundo não se comunica, ou pior, se comunica a favor de interesses individuais.

Desde que o mundo é mundo as informações são passadas de acordo com pontos de vistas do transmissor, os meios de comunicação de massa só acentuaram isso e, para além do ponto de vista, transmitia adaptações de acordo com seus interesses.

Seja pela facilidade de acesso aos meios de comunicação, por falta de uma legislação decente e minimamente atualizada com o contexto tecnológico ou pelo poder político e econômico das grandes redes, muitas pessoas recebem essas informações como verdades sem parar para se questionar ou averiguar em outras fontes a veracidade dos fatos.

A televisão e a internet estão presente no cotidiano das pessoas em geral. A comunicação, ou melhor, o poder da comunicação é o que educa e governa o mundo, o conhecido quarto poder. Muitos brasileiros são guiados pela televisão, organizam seu dia pela programação da televisão, veem nela a projeção de seus sonhos, priorizam ter este eletrodoméstico a suprir necessidades mais básicas, e mesmo assim o poder público e a sociedade em geral ignoram ou menosprezam essa real interferência que os meios de comunicação geram na sociedade. A esquerda, vítima por tanto tempo dos agentes da comunicação ainda tem sérias dificuldades de lidar com esse fenômeno. Falta capacitação técnica, formação atualizada e políticas públicas que equilibre e diminua e regularize o poder das grandes empresas de comunicação.

Enquanto por um lado existe a ditadura das grandes empresas de comunicação que controlam a maioria dos canais de tv e rádios que também são os que tem maior visibilidade, do outro lado existe o amplo ambiente da internet onde, na teoria, todos têm espaço e voz, mas que é tão amplo que as vozes não costumam alcançar voos muito grandes se não houver uma tática de divulgação elaborada, principalmente quando não tem poder econômico, ainda sofrendo barreiras como os sites de busca que privilegiam seus associados. De forma mais discreta que a televisão porém mais invasiva, a internet possibilita um controle de seus dados e interesses para que empresas lhe direcione o que você deve ver. Entre tantas barreiras e ainda distante de uma comunicação democrática, esses meios são os principais meios de comunicação aspirante a uma diversidade e democracia.

Com a crise econômica e política atualmente instalada no país a farsa do jornalismo, se sentindo ameaçada, tem sido tão escancarada quanto na época do golpe militar, o que, para quem se propõe a questionar as informações que recebe, é uma tarefa mais fácil visto o alto nível da falta de discernimento exposto na televisão e revistas de direita. Não precisa procurar muito para perceber que as informações tem sido escancaradamente manipuladas. Diferente de 62 anos atrás, temos a internet como uma ferramenta imprescindível no processo de debate e compartilhamento de informações que tem diminuído o monopólio das grandes empresas e possibilitado o acesso as outras versões da história. Vem surgindo um tanto anarquicamente uma outra janela de comunicação. A esquerda brasileira, que sempre penou por conta da comunicação, tem consciência do poder da mesma mas não tem o know-how de utilização em toda sua potencialidade, após a crise e essa nova onda de comunicação espontânea se faz mais que necessário um pensamento de gestão da mesma.

A comunicação que sempre teve problemas ignorados no país tem sido pauta principal nesse momento de crise, o que fortalece um pensamento em torno da democratização da mesma. A violência é a comunicação rápida quando não há diálogo, então não há escuta, não há respeito e não há espaço de fala. A violência é a resposta da não-comunicação. E em tempos de ódio como esses não tem como não refletir sobre os problemas oriundos dessa comunicação desorientada e a necessidade de uma reforma estrutural na mesma.

Foto do projeto Naturally de Bertil Nilsson


CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
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