camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

Os pais sempre fazem o melhor que podem ainda que às vezes se atrapalhem - A Culpa é de Fidel

A culpa é de Fidel é um manifesto artístico político de um ponto de vista mais íntimo. A diretora Julie Graves se propôs tratar de um recorte histórico do auge da disseminação dos ideais comunista. Com uma linguagem acessível, mostra um terceiro ponto de vista da história que brinca com os estereótipos, sem valores maniqueístas, uma percepção em transformação, o olhar de uma criança.


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Atualmente com a possibilidade de “livre” expressão nas redes somado a um turbilhão de informações vindas de diversas fontes seja pelas mídias tradicionais de comunicação ou pela internet, tem resultado em um ambiente onde todos têm alguma, mesmo que pouca ou equivocada, informação sobre tudo, e todo mundo tem uma opinião formada sobre política, por exemplo. Mesmo que essa opinião, o que acontece na grande maioria dos casos, seja uma opinião reproduzida de um terceiro. O facebook transformou as pessoas em militantes de todas as causas, deu visibilidade, sem filtros confiáveis, para todo tipo de argumentação e exposição.

Grandes poderes acompanham grandes responsabilidades, diria o tio do homem aranha, mas poucos se lembram disso quando vão as ruas pedir o retorno da ditadura militar, ou pelo menos, andaram filando muita aula de história e não sabem o que estão dizendo. Passou-se uns cinquenta anos na história e o comunismo voltou a ser um bicho de sete cabeças que ronda por vários mitos e lendas, cada um tem sua própria versão, mas ninguém sabe explicar de fato o mal que ele causa.

Em 2006, Julie Graves, diretora do filme, se propôs a tratar de um recorte histórico quando estava no auge dos debates a proposta de uma sociedade comunista mas com uma versão diferenciada do tema. Utilizando-se de uma linguagem acessível, de acordo com a própria proposta do enredo, mostra um terceiro ponto de vista da história, sem valores maniqueístas, apresenta seu posicionamento sócio-político através do olhar ingênuo de uma criança, uma percepção em transformação.

Falar sobre o comunismo sob a visão infantil, transcender os estereótipos, sair do idealismo cego com pessoas perfeitas lutando igualmente pela causa ou uma condenação superficial do mesmo, e sim se propor a uma visão de dentro do processo, tudo isso é algo inovador como uma opção narrativa. Um filme delicado e divertido sobre uma garota que tinha tudo que lhe criaram para querer ter e tem que se acostumar a viver com bem menos. Informações mal ditas e distorcidas, dúvidas e muitas novidades, tudo isso acontece quando sua tia e prima espanholas chegam na sua casa após a morte do tio Quino. E nada melhor do que trazer para visão de uma criança, a discussão entre comunismo e capitalismo, que coloca na balança seus benefícios pessoais em cada uma das situações sem estar contaminada com conceitos e definições fechadas.

-10 minutos é muito tempo? -depende, se estiver ocupado passa rápido.

O filme lhe propõe uma viagem no tempo tanto no âmbito do contexto histórico como um retorno a infância, ao momento de descobertas e questionamentos na perspectiva social e individual de cada um. Um retorno a lógica de relacionar informações pelas semelhanças, sem estar carregado de signos socialmente impregnados em nosso raciocínio lógico. O doce, pulsante e confuso processo de formação da criança.

As vezes é muito fácil perceber quando pais tomam atitudes erradas com seus filhos, mas quando se está dentro da situação o certo e o errado nem sempre é fácil de se distinguir mesmo quando se quer o melhor. Com diálogos inteligentes e sacadas perspicazes, nos aproximamos e nos identificamos com Anna e sua família. Os pais acabam de entrar no movimento político e muitas vezes acabam tendo um comportamento autoritário com os filhos sem saber como lidar com a pequena Anna e suas insatisfações por causa das mudanças repentinas que sofreu sem aviso prévio. Uma garota que foi educada rigidamente com ensinamentos católicos e tradicionais, mantêm-se na defensiva contra as mudanças, que passa a questionar tantos as novas ideias dos pais quanto as antigas e tradicionais ideias da escola e da avó, principal referência no filme da direita.

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Não existem fórmulas em tabelas que indiquem a forma correta de se criar e educar crianças, a idade certa de se ter filhos ou o equilíbrio perfeito do tempo entre dedicação profissional e pessoal. São escolhas, ou as vezes, sem escolhas que pais são sujeitados durante o processo de criação dos filhos, muito bem explorado na narrativa do filme, e que pode ser exemplificado pela própria vivência extra filme da diretora quando ela diz: “Meu filho conviveu pouco comigo em seu primeiro ano de vida, por causa do filme. Mas espero que, quando puder assisti-lo, ele perceba que os pais sempre fazem o melhor que podem, ainda que às vezes se atrapalhem”.

"- Ela confundiu espírito de grupo com comportamento de ovelha. É isso, não é? - Como sabem a diferença entre espírito de grupo e comportamento de ovelha? Vocês nunca se enganam?"

A culpa é do Fidel é a conclusão que a pequena Anna chega ao ouvir de sua babá que por causa de Fidel ela perdeu a casa em Cuba e se mudou para Paris, a culpa é de Fidel por terem se mudado de uma grande casa com jardim para um apartamento simples, a culpa é de Fidel por seu pai tirar-lhe das aulas de catecismo, a culpa é de Fidel dela não ter mais uma vida perfeita. Aos poucos e com muita insatisfação, Anna vai mudando seu conceito de comunistas de: barbudos vermelhos que vivem se mudando, não temem a Deus e querem uma guerra nuclear para o que ela vê em seus pais e os novos amigos deles.

Uma ótima leitura sobre o momento histórico através do singelo olhar de uma criança, com um belo trabalho na criação de atmosferas através da fotografia e do trabalho com as cores pela direção de arte que envolvem o espectador. Um filme pra se ver em casa com a família. Uma reflexão sobre relações de amor dentro de um contexto de lutas sociais, o processo de conscientização do posicionamento político dos próprios pais, como é passado e recebido pelas crianças imersas no processo.

-depressa, esconde! um policial! Abaixe, se ele chegar perto jogará napalm em nós -não, napalm só é usado nas guerras. -eles torturam com napalm durante os “golpes”! -mas não as crianças. -começará uma guerra nuclear? -Está confundindo tudo. São os barbudos que começam guerras nucleares! Como a Filomena disse, eles são vermelhos e barbudos! Você entendeu tudo errado! -Papai Noel é vermelho e barbudo!

Através de jogos de comédia a diretora consegue transpor situações sérias com sutileza e sagacidade durante todo o filme. Em tempos como os de hoje é bom lembrar que até nas crises e nas guerras podemos ser melhor do que esperam que sejamos. As crianças estão aí para lembrar-nos disso e da nossa responsabilidade como educadores das mais novas gerações para que se haja mais consciência social, mesmo que as vezes nos atrapalhemos.


CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
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