camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

Uma mulher incomoda muita gente

Ou a fúria dos privilegiados quando uma mulher chegou a presidência.


sororidade1.jpg

Uma mulher que não abaixa a cabeça após a fala de um homem incomoda muita gente, uma mulher que escreve incomoda muito mais, uma mulher fora dos padrões de beleza imposto pela indústria da moda incomoda muita gente, uma mulher satisfeita com seu corpo incomoda muito mais, uma mulher que trabalha fora de casa incomoda muita gente, uma mulher que recebe um salário maior que o do marido incomoda muito mais, uma mulher homossexual incomoda muita gente, uma mulher negra incomoda muita gente, uma mulher negra e homossexual incomoda muito mais, uma mulher solteira com três filhos incomoda muita gente, uma mulher solteira que não deseja ter filhos incomoda muito mais, uma mulher pobre incomoda muita gente, uma mulher pobre graduada incomoda muito mais, uma mulher de esquerda incomoda muita gente, uma mulher empoderada incomoda muito mais, uma mulher presidenta incomoda incomoda incomoda muito mais.

O crime que levou a presidenta Dilma ao processo de impeachment e tantas outras brasileiras a atos de violência e repressão é o fato de vivermos em uma sociedade machista, heteronormativa, misógina, ainda com fortes heranças da escravidão e monarquia que estruturam nosso país. Com uma legislação retrógrada e ineficaz não seria nenhuma novidade, apesar de se tratar como inexistente ou normatizada, a violência contra a mulher. A situação é tão grave que um dos principais esforços dos movimentos feministas é de conscientização da violência sofrida tão rotineiramente que tantas vezes não percebemos em nós mesmas.

A culpa da Dilma no processo é ter sido a primeira presidenta mulher do Brasil, audácia demais em um país provinciano como o nosso, ainda mais tendo sido antecedida por um nordestino, metalúrgico, semi-analfabeto, militante de esquerda, já eram muitas novidades indesejáveis que a elite brasileira estava engolindo a duras penas, e antes que as feridas cicatrizassem a esquerda aparece com mais uma: uma mulher que foi presa política durante o golpe militar para assumir a presidência do país. Foi muita gente saindo da linha da pobreza, entrando em universidades, viajando de avião em muito poucos anos, sem considerar o tempo necessário para a elite desapegar do monopólio mantido fielmente por tantas gerações. Por tamanha ousadia, querida Dilma, os todo poderosos homens brancos cis donos, até então do poder político, econômico e midiático, ao se perceberem perdendo parcela desse poder sentiram-se ameaçados por uma inimiga em comum.

Abrindo um parêntese para falar sobre privilégios, para quem não sabe a mãe google descreve assim: “direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio, regalia.” Olhando para o contexto atual do Brasil podemos considerar que, apesar de não haver uma representatividade desse quadro na sociedade, e também por isso podemos afirmar que: homens, brancos, heterossexuais, ricos, sulistas, católicos, são privilegiados socialmente, e quando essas características se sobrepõe a situação vai ficando cada vez mais complicada. Em contra-ponto, aqueles não aceitos pela nossa linda e democrática sociedade estão sujeitos a violência, desrespeito aos seus direitos civis, invisibilidade, descendo ladeira abaixo.

Dentro desse contexto, os privilegiados, chegando a conclusão que a inimiga em comum estava alcançando voos muito alto e, como de costume, ignorando qualquer lembrança relativa a respeito e ética, lançam-se em uma campanha de ódio a presidenta, expondo e questionando sua vida íntima como se fosse assunto político, difamando a imagem de uma mulher sem nenhum escrúpulo, baseados em argumentos machistas e insustentáveis.

Ainda não satisfeitos e sem punição pelos crimes associados a esse comportamento violento e anti-ético, partiram para uma jogada mais ousada, diante da insistência dessa mulher em se manter no governo criou-se então um processo de impeachment ilegal, visto que baseado em uma acusação de crimes não cometidos e sem quaisquer provas que justificassem seu afastamento, configurando uma tentativa de golpe de estado.

Em paralelo a toda movimentação política, nesses últimos anos, tem reacendido a luta feminista nos movimentos sociais marcando o ano de 2015 como a primavera das mulheres, que tem trazido para as ruas o que muitos insistem em esconder dentro de quatro paredes. Apesar das conquistas das mulheres, e uma falsa ilusão de igualdade, os índices de violência contra a mulher ainda são assustadores e essa mobilização fortalecida muito através de redes de mulheres via internet que tem escancarado essa realidade tem conscientizado e acolhido mulheres que antes eram caladas. A partir dessa movimentação o número de denúncias, que já é grande porém e infelizmente pequeno comparado ao real número de casos de violência, tem aumentado consideravelmente. Para além da violência doméstica, o congresso tem ameaçado constantemente direitos das mulheres sugerindo graves retrocessos aos direitos humanos, abarcado por uma mídia conservadora e elitista que insiste em ditar como as mulheres devem ou não se comportar.

Todo esse contexto só evidencia o incomodo da sociedade em aceitar ter uma mulher ocupando o mais importante cargo político do país.

Uma mulher incomoda muita gente, mulheres unidas e na luta incomodam muito mais.


CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //CAMILA RIBEIRO