camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

O Quintal dos sonhos

Jonas, o circo sem lona, a criança interior de cada espectador, o cinema, os sonhos coletivos, Paula, a Plano 3 e toda a poesia que transborda no filme. Os sonhos que nos mantém vivos mas que as vezes deixamos guardados em gavetas.


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Jonas, o circo sem lona, a relação com a mãe, a avó e a herança circense familiar. Jonas, os amigos no quintal e a ingenuidade que não nos é mais autorizada. Jonas, o sistema educacional que nos aprisiona e nos limita e a preguiça para levantar da cama de manhã cedo. Jonas e as descobertas da puberdade. Jonas, seu amigo e a realidade do trabalho infantil. A mãe de Jonas, o medo de seu filho não ter uma formação que garanta um futuro, a responsabilidade e o sentimento de culpa em negar as vontades do filho. Jonas e as inseguranças de quem tem muitas vontades. As crianças, a capacidade de concretizar desejos, as gargalhadas que nos fazem rolar no chão e um mundo de possibilidades. A bailarina russa e sua timidez encantadora. O cinema, os sonhos coletivos, Paula, a Plano 3 e toda a poesia que transborda no filme.

Paula, o filme me deixou arrepiada. Jonas, a mangueira, a cumplicidade e toda a complexidade que existe em ser criança que é tão ignorada, tão pouco cuidada. As mentes infantis pulam de criatividade, energia vital, curiosidade, desejos, vontade de mundo e amor, porém, com o tempo vão sendo podadas, administradas e enquadradas e seus sonhos deslegitimados e postergados.

Eu me vi em Jonas. E acho que é isso que tanto emociona a todas e todos que assistem ao filme. Me contaram, quase como um segredo revolucionário, em algum momento da faculdade: a técnica é muito importante, mas o que faz o filme é essa tal de empatia. Essa coisa que de alguma forma faz você comprar a idéia, esquecer das pessoas que estão sentadas do seu lado e de repente só existe aquilo que se passa na tela em sua frente, e aquilo te leva para algum lugar, que, você muitas vezes não sabe onde é, mas você topa entrar no trem e ir junto. Esse sentimento que permite um filme realizado em um quintal de uma casa na região metropolitana de Salvador ultrapassar fronteiras continentais e ainda assim emocionar o espectador. Esse segredo, foi essencial para minha formação, que, como aluna, não tinha aprendido a não me envolver com os filmes, que ao terminar de ver um filme meus amigos falavam de semiótica ou erros de continuidade e eu me via ainda estasiada porque, aquilo que vi, apesar das questões técnicas, tinha mexido com minha forma de ver o mundo, e isso fazia eu me sentir menos profissional ou qualificada diante daquele universo intelectual.

Nesse reencontro proposto no filme me vi pequena tirando todas as roupas do guarda roupa para montar um grande espetáculo na sala de casa, subindo em toda árvore que eu alcançava pela aventura de estar mais perto do céu, me cobrindo de argila pelo prazer de ter uma segunda pele, e por algum momento, mesmo que curto, poder ser qualquer coisa que eu quisesse. Sim, a gente se permitia não olhar os relógios e se perder no tempo, se jogar em qualquer aventura que a gente criasse naquele momento, sem qualquer julgamento ou grandes preocupações. Jonas, o seu circo representa e acolhe todas as crianças que faziam barraca de lençóis amarrados ou um prato gourmet com as flores do quintal, todas as crianças que queriam ser paquitas do show da xuxa ou sonhavam em tocar em uma banda underground de rock’n’roll em um sótão escuro. Toda criança que, os olhos brilham, que dançam, brincam, correm, rolam na areia, todas as crianças que, em algum momento, pôde ser apenas criança, mesmo que sua realidade seja dura, mesmo que não tenha uma família acolhedora, ou até mesmo uma família, mas que não deixa de ser criança do seu jeito, porque é algo inerente de sua existência.

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Enquanto assistia ao filme, me permitir rir e chorar com esse grande espelho que vi na minha frente, entre momentos de acolhimento, falta de compreensão, euforia ou momentos em que nos sentimos injustiçados por algo que nem sabemos o que é, mas que, nos atrapalha a sermos o que de fato queremos ser. Esse delicioso processo de descobertas do início da puberdade que vamos nos afastando com a demanda de uma falsa e “urgente” maturidade que a sociedade nos impõe. O filme, não é sobre circo ou educação apesar de tratar esses assuntos com eficácia. O filme é sobre sonhos. É uma provocação ao espectador a ser desarmado sem aviso prévio e se permitir resgatar uma sensação há tempos guardada como um animal inquieto que precisa ser sedado para conviver com os demais. Essa sensação que as vezes não cabe quando temos que acordar cedo, enfrentar uma cidade engarrafada para chegar no trabalho cotidianamente, e também não cabe no trabalho, nem na cervejinha depois do expediente, nem há paciência para acordá-la na hora da criação dos filhos. Vive-se essa rotina madura cheia de responsabilidades que faz parecer que vivemos essa tal vida que cumpre uma tal expectativa social, e que nos poupa de questionamentos ou julgamentos, e isso já parece bom. Já lembra alguma paz tanto almejada.

O documentário, que começa com uma proposta de linguagem mais próxima da ficção, com uma narrativa poética e uma montagem dinâmica como as próprias crianças, aos poucos, a equipe permite se revelar como personagens dessa aventura, trazendo uma outra potência para a narrativa. Como uma mão que lhe é oferecida para te ajudar a pular um buraco, mesmo que o buraco seja indefeso, mas lhe falta coragem de atravessar sozinho. Essa mão acolhe Jonas em seus momentos de insegurança, expõe também suas fragilidades ou expectativas, permitindo que o espectador se sinta confortável em embarcar nesse mesmo barco.

Jonas sonha, cria e encanta. Jonas quer fugir com o circo mas sua mãe se preocupa com seu futuro. Ela que, foi criada no circo, quer que seu filho tenha mais “oportunidade” na vida e estude. Jonas se sente incompreendido. “Jonas”, sua avó diz, “tem fases boas e fases ruins nos circos grandes que dirá no seu circo no quintal, mas você não pode desistir”. Ela que, contrariando os pedidos da filha, acolhe e incentiva o projeto do neto em ser artista de circo.

Paula pergunta para Jonas se ele gosta mais de estudar ou do circo, ele buscando a resposta “correta” responde que estudar. E você, gosta mais de estudar ou ₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋₋ (pense com carinho e preencha essa lacuna).

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CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
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