camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

o dia dos namorados em tempos de ódio e incompreensão


A valsa de Camille Claudel.jpg

As relações como posse, a religião como governo, e o grito do amor sufocado. Com tamanha enxurrada de informação, todos acreditam ter voz e liberdade de expressão. Novos conceitos de constituição familiar estão na mídia, o casamento gay é legalizado em alguns países, mas o que vemos diariamente são expressões de intolerância e violência. Não sendo exclusivo contra as relações homoafetivas mas para o amor em sua forma mais simples e cristã, o amor ao próximo. O Brasil é o país que mais mata lgbtqi+ do mundo. No Brasil uma mulher é morta a cada duas horas e 135 estupros por dia (Monitor da violência), e segundo um levantamento da Folha de São Paulo, sendo 71% dos feminicídios e das tentativas têm parceiro como suspeito, quais sentimentos movem tamanha brutalidade? Quais relações de poder e que cultura de violência é essa que permeia as relações.

O neoliberalismo levado às últimas consequências apoiado por uma onda conservadora cria um ambiente inóspito que nos diz todos os dias que é cada um por si ou tu serás atropelado. Os níveis de desigualdade sobem absurdamente e os direitos são cortados um após o outro trazendo a sensação de abandono geral. Como não pensar nas consequências diretas para a mente e nas relações intra-pessoais. Brasil, país colonizado e escravocrata, traz em sua memória relações abusivas baseadas na violência, o patriarcado estrutural junto a discursos de ódio e um leque de preconceitos e intolerâncias governam e legitimam a violência ainda sob a justificativa de uma manutenção a ordem visto ao perigo do fantasma do comunismo. Uma onda alienante e completamente sem embasamento, em um ambiente de medo e descrença, invade a sociedade como a única possível saída.

Era para ser um texto de amor, e longe de mim não acreditar no amor, acredito demais para ficar tranquila com tamanho desequilíbrio instaurado, acredito demais para fechar os olhos diante de tantas relações abusivas disfarçadas de amor, acredito demais para deixar que seja banalizado ou distorcido seu significado.

O capital vende a ideia do amor, através da idéia do relacionamento amoroso com o intuito claro pelo consumismo, o amor como a grande conquista, o amo move o mundo e só assim estarás completo mas seu amor, só serás amor se viajastes para Paris, se jantar em belos restaurantes, se presentear com um carro, rosas, relógios, se tiver um relacionamento monogâmico como uma bela família tradicional mas que o homem como homem possa discretamente ter outras relações paralelas mas o importante é que ele volta para casa, que é com você que passa o natal, que é ao seu lado que posta fotos com juras de amor, porque é a você que ele de fato ama, e ama tanto que, caso você não queira mais e deseje a separação, ele vai ficar tão fodido que perderás os juízo e te agredirá, não por ser violento e criminoso, por te amar demais.

-Nega, o que você quer no dia das(os) namoradas(os)? -Que todas as pessoas possam expressar seu amor sem ter medo de serem violentadas(os) ou censuradas(os) pela sua orientação sexual; que nós mulheres andemos por onde quisermos e com quem quisermos sem sermos julgadas ou corrermos risco de sofrer um assédio ou qualquer outra violência; que o amor mova-nos para sermos melhores e nunca nos aprisione. Como disse Cortázar, "y que el placer que juntos inventamos sea otro signo de la libertad." Felizes as relações que nos dão força para ser quem somos e prosperam amor para o mundo.

Feliz dia para os que que se amam, para os que respeitam a si e aos outros, os que vivem seu amor mesmo quando o mundo te exclui por ser quem és, os que lutam pelos direitos humanos e o direito de amar que você quiser, os que não romantizam as relações abusivas, e derrubemos o patriarcado.

Que assim seja.


CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
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