camila ribeiro

Attraversiamo, viver não é preciso.

CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça.

senhoras do século XX

Falar sobre minhas avós é um relato sobre afetividade e aprendizagem com as diferenças, mesmo com linhas tortas.


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Cresci com duas avós, Cilézia e Jane. Cilézia nasceu no Rio de Janeiro capital em 1931, fazia questão de falar que era carioca da gema. Jane nasceu em Salvador em 1923 com nome de guerreira baiana: Joanna Angélica. Cilézia teve 4 filhos, minha mãe e mais três mais novos, Jane teve 3, meu pai e mais dois mais velhos. As duas muito religiosas: uma católica e uma evangélica, não puxei a nenhuma das duas, ou poderíamos dizer que nenhuma das duas conseguiram me catequizar. As duas trabalhavam e buscavam ter seu próprio dinheiro. Meu pai dizia, tenha paciência com sua avó, ela viu a segunda guerra mundial, já viveu muita coisa que você nem sonha, minha vó Cilézia seguiu meu avô quando precisou sair do Rio na ditadura e foram com a renca de crianças para Aracajú e depois Salvador, ela nem por um momento perdeu seu sotaque, mesmo tendo vivido mais tempo em Salvador do que no Rio.

Jane professora de português, não deixava passar uma conjugação errada e, se não sabe uma palavra, pegue ali minha filha o pai dos burros para aprender, resposta fácil se esquece rápido; Cilézia costurava, mas ela era mesmo contadora de histórias, esquecia um monte de palavra, mas tinha história para você ouvir por horas. Cilézia ensinou aos três filhos homens e a filha mulher a costura, cozinhar e cuidar da casa igual, não queria ninguém dependendo de ninguém nem passando vergonha na rua, tinha muito orgulho disso. Ela, apesar de ser rigidamente religiosa, ela me ensinou sobre fé para além de sua religião, é a pessoa que eu conheci com a fé mais inabalável, contava histórias dignas de filmes sobre superação e fé. Jane não só frequentava a igreja como participava das atividades da família como orientação para recém-casados, quando meus pais não estavam presentes ela insistia para que eu pedisse para ser batizada até poucos anos atrás. Quando meus pais demoravam de nos buscar na casa de dona Cilézia nós éramos convocados para o momento da reza, o que nos era um momento um tanto constrangedor e eu só pensava em meus pais tocando a campainha. Na casa de d. Jane, quando ela parou de frequentar as missas presencialmente, éramos acordados com o padre declamando pela televisão a todo volume.

Minha avó Jane sonhava com meu casamento, dizia que só ia morrer depois de me ver tendo um filho, “eu respondia que era uma promessa boa que aí ela ia viver bastante”, ao mesmo tempo não poderia ser com qualquer um, ela tinha uma lista de pré-requisitos para esse marido ideal, uma lista um tanto comprometedora que eu zoava até ela me ignorar falando sozinha. Mas ainda criança ela me dizia que era muito importante que eu não tivesse pressa, primeiro focasse nos estudos, me formasse, começasse a trabalhar para ter independência financeira e então começar a namorar para enfim casar para eu nunca precisar pedir dinheiro para homem nenhum para ter minhas coisas.

Lá em casa a gente seguia uma alimentação bem “harebô” para o restante da família, nada era de fato proibido, mas não era ofertado, minha avó Cilézia era muito rueira, vivia andando e conhecia um monte de gente, sempre que ia nos visitar aparecia com pastel frito, sonho, bala, jujuba, pirulito, todo tipo de tranqueira que a gente raramente comia e ainda tinha direito as moedinhas do troco, era tanta fritura e açúcar que minha mãe sofria e tapava os olhos. Quando a gente passava o dia na casa dela minha comida preferida era arroz branco com ovo mexido, eu amava demais e ela se divertia. Na casa de dona Jane era um pouco diferente, mas bem igual, ela não acreditava naquela história de comida integral e odiava salada, lá eu me lambuzada em um bom frango à milanesa ou uma quiabada com bastante camarão e calabresa, “porque se fosse pra fazer sem era melhor nem fazer”, a gente comia com muita farinha e pimenta, ela nem colocava arroz. Com o tempo minha avó não podia mais comer farinha nem pimenta, eram brigas insuportáveis na mesa do almoço, ela ficava furiosa comigo sem acreditar que estava lhe pondo limites, dizia que então não se fizesse mais quiabada, que preferia ficar sem comer, mas não funcionava, eu dizia que se ela continuasse a insistir eu não almoçaria mais com ela, ela ignorava e assim a gente comia até o fim, quando acabava o almoço as coisas voltavam ao normal e o assunto era esquecido, todos os dias que almoçávamos juntas era a mesma ladainha.

Ambas se vestiam de conjuntinho, Cilézia era blusa de botão com saia longa em tons bebê, bem alinhada na moda evangélica; Jane camisa com bermudinha floral clarinho de dia, calça escura com camisa escura igual a noite. Cilézia tinha longos cabelos grisalhos que viviam em coque, poucas vezes vi solto; Jane usava um clássico curto champagne com muito laquê, aos 90 abandonou o champagne e assumiu o branquinho. Eu nunca soube chamar elas de senhora, não entendia como alguém tão próximo podia ter um tratamento tão distanciado, era sempre “minha avó”, tinha gente que estranhava e eu achava muita audácia um terceiro querer se meter onde não foi chamado e ignorava.

Minha avó Cilézia vive há uns 7 anos com Alzheimer, durante o reconhecimento da doença ela fugia de casa, nunca dependeu de ninguém, ela odiou a ideia de controlarem sua vida e sua casa, Cilézia dava nó em pingo d’água, nesse processo, não seria diferente, qualquer momento de deslize ela saia pela porta e haja andar para lhe encontrar. Com o tempo foi diminuindo o ritmo, desconhecendo a gente, hoje, com cabelos curtos e soltos, assiste a desenhos animados na tv.

Minha avó Jane tinha muito medo de doença e seu maior medo era perder a consciência. Minha avó era louca por livros, foi a pessoa que mais lia que eu conheci, muito conservadora a leitura era um caminho de discussão, qualquer livro que levássemos ela leria com atenção e comentaria, com a memória um pouco cansada percebeu que se lesse o livro espaçadamente tinha dificuldade de acompanhar os personagens e então decidiu que leria os livros em uma sentada só, não pensem que era livros pequenos, ela virava a noite se precisasse. Na semana de seu aniversário um trabalho adiou e eu comprei na mesma hora uma passagem para Salvador, liguei animada para contar, ela atendeu o telefone com muita tranquilidade “Chegou?”, eu, meio confusa, me identifiquei achando que ela estaria se referindo a outra pessoa mas não, ela sabia que era eu e insistiu perguntando se tinha chegado, “ainda não cheguei, mas liguei para avisar que estou chegando pela manhã”, ela sempre respondia feliz mas, como se na verdade eu não estava fazendo mais que minha obrigação. Minha avó aos 95 anos pediu a meu pai para ir votar contra Bolsonaro nas últimas eleições, ela tinha decidido que não votaria mais desde o falecimento de meu tio, mas esse era um momento de emergência, ela estava assustada com o que poderia acontecer.

28 de março 2019 Hoje foi o primeiro dia que fui à casa da minha avó e ela não puxou minha orelha.

Minha avó me amava incondicionalmente, mas por alguma ironia do destino, eu era toda contrária à sua projeção, meu jeito de sentar, de falar, meus cabelos soltos, minhas roupas, ou muito magra ou precisando emagrecer, nunca como ela desejava, todos os dias eu precisava ouvir tudo que eu precisava corrigir para ficar ao seu agrado, eu respondia, a gente discutia, eu dizia que se ela continuasse assim não voltaria mais, ela me olhava séria pela ameaça e nada mudava.

Cheguei hoje e ela não se importou, como nunca aconteceu. Nem quando éramos vizinhas e eu ia sempre almoçar lá, ou quando eu estudava perto de sua casa e ia todos os dias após a aula. Hoje eu cheguei e minha avó não me reconheceu. Eu estremeci e tentei não revelar minha dor, sentei na sua cama e fiquei falando para ela futilidades do cotidiano, tentando pescar qualquer nível de interação.

Perguntei se estava com calor, ela me ouviu, reagiu que não. Avisei que ia ao banheiro, ela entendeu, consentiu. Todo o resto parecia que eu estava falando em vão. Segundo o médico ela estava ouvindo tudo mas está com dificuldade de compreensão total. Passei horas, entre a dor e a tentativa de comunicação, quando estava para sair - ela nunca deixava irmos embora- eu avisei que estava indo, ela balbuciou qualquer coisa como "para casa?" Eu confirmei. Ela entendeu, não fez chantagem ou me segurou as mãos, eu disse que a amava muito, seus olhos brilharam, fiquei tão feliz que repeti mais umas cinco, seis vezes, ela já não estava mais prestando tanta atenção, parecia que já tinha se despedido e estava pronta para dormir, falei que estava indo, mas que em maio estaria em Salvador novamente, ela repetia muito que tinha me perdido para São Paulo, que era muito ruim para ela, mas que parecia bom para mim.

Antes do que eu tinha previsto meu pai me diz para eu voltar para casa, minha avó estava indo logo mais, nos seus últimos dias eu já estava rezando para que fosse rápido, ela tinha falado muitas vezes que não queria ficar naquele estado, eu acho que ela estava se preparando para ir no seu último mês, eu não consegui me preparar igual, não conseguia imaginar como seria um mundo sem ela. Minha avó faleceu no domingo de ramos, sempre que era um feriado católico eu perguntava:

- “minha avó o que quer dizer o dia de hoje mesmo?” -domingo de ramos minha filha, o dia que Jesus chega a Jerusalém e é recebido pelo povo com ramos.

Ela sabia tudo. Cheguei então para me despedir sem muita coragem, olha só, Janina era uma fortaleza e eu toda me tremendo. Tomei coragem para contar as nossas bobagens como lembrança de nossas boas risadas juntas. Joaninha, muito séria adorava uma piada de sacanagem. Eu dizia que tínhamos tanta história que um dia escreveria um livro sobre ela, fica aqui o primeiro registro.

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CAMILA RIBEIRO

Nascida na praia de Amaralina e criada em festa de largo, produtora de cinema e aprendiz de palhaça..
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